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Julgamentos, Czeslaw Milosz


Tudo passado, tudo esquecido,
só fumaça na terra, nuvens soturnas,
e, sobre os rios de cinzas, asas em
chamas e um sol envenenado se turva
e um fulgor de condenação reponta nas marés.

Tudo passado, tudo esquecido,
então é tempo de te ergueres e fugir,
embora não saibas o pouso, a margem além daqui,
vês tão só que o mundo arde.

E é tempo de odiar o que amaste,
de amar o que odiaste,
de pisar as faces dos que escolheram
a beleza sem alarde.

Pelo vazio, pela avenida, por desfiladeiros mudos
— onde o vento converte toda voz em murmúrio
ou por um sono duro com a cabeça desabada —
seguir. Então… Então tudo em mim era
grito e chamado. Com seu grito e seu chamado
me dilacerava a ceifa de sombrias primaveras.
Basta. Basta. Nada se sonhou, afinal. Ninguém sabe nada
de ti. É só o vento no arame retesado.

Então é tempo. Eu amei essa terra
como ninguém poderia em melhor época,
quando os dias são felizes e as noites, quietas,
quando, sob o arco do ar, sob o portão
das nuvens, avulta a grande aliança
da fé e da força.

Agora tens de cerrar firme os olhos,
porque se amontoam montanhas, águas e cidades,
e o que se mantinha oprimido — quedará por diante,
o que seguia adiante — tombará para trás.
Sim, só aquele de sangue mais férvido há de
se erguer entre as cabeças da manada galopante
e virar para o chão, com um grito, a espada que traz.

Passado, passado, ninguém recorda culpa alguma,
apenas árvores, como âncoras no céu revolto,
rebanhos descem das montanhas, ruas em alvoroço,
os raios da roda giram, a fumaça se avoluma

Fonte: Recanto do Poeta

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