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Mostrando postagens com o rótulo poesia contemporânea

Estão Batendo na Porta, Ricardo Azevedo

homem sério chega cedo olha seco pras pessoas cumprimenta com a cabeça fica longe e vai sentando homem culto chega aéreo vive no mundo da lua abre um livro des’tamanho distraído vai sentando homem belo vem bonito elegante e perfumoso puxa o espelho, passa o pente vem pro centro e vai sentando homem pobre quando chega chega sem nada na mão olha quieto, fala baixo e depois senta no chão homem sábio chega calmo um por um vai abraçando fala pouco, olha os olhos fica junto e vai sentando homem doido chega e planta bananeira na janela mostra a língua, tira a roupa pinta o sete e vai sentando homem chato chega bobo vem torrando a paciência fala mole, não se enxerga enche o saco e vai sentando homem triste vem sozinho puxa o lenço e chora um pouco muita gente chega perto ele gosta e vai sentando homem fraco chega branco capengando agasalhado geme, espirra, tosse, funga cospe, engasga e vai deitando homem alegre chega leve vem contando as novidades dá três beijos, quatro abraços solta o riso e ...

Depoimento, Mia Couto

Eis o meu contento: nunca pisei chão que fosse meu. E o quanto sonhei foi um desfolhar de estação, uma pluma sem destino. Eu vi o vazar dos rios e vivi sem saber onde eu estava vivo. E amei como se nunca antes ninguém tivesse amado. E sonhei como se fosse o primeiro último homem. Em: Mia Couto, poemas escolhidos, pag. 69 Desenho de: Pedro Manaças

Frutos, Mia Couto

  A bondade da mangueira não é o fruto. É a sombra. A térrea, quotidiana, abnegada sombra: no inverso do suor colhida, no avesso da mão guardada. Há a estação dos frutos. Ninguém celebra a estação das sombras. Assim, o amor e a paixão: um, fruto; outro, sombra. A suave e cruel mordedura do fruto em tua boca: mais do que entrar em ti eu quero ser tu. O que em mim espanta: não a obra do tempo mas a viagem do Sol na seiva da árvore A arte da mangueira é a veste de sombra embrulhando o seu ventre solar. Para o homem vale a polpa. Para a terra só a semente conta. (em: Tradutor de Chuvas)

Acalanto Para Um Rio, José Eduardo Agualusa

Nada passa, nada expira o passado é um rio que dorme e a memória é um rio multiforme. Dorme do ria as águas e em meu regaço os dias dormem dormem as mágoas as agonias, dormem. Nada passa, nada expira O passado é um rio adormecido parece morto, mal respira acorda-o e saltará num alarido. Em: O Vendedor de Passados Filme: O Vendedor de Passados Brasil - 2015 Direção: Lula Buarque de Hollanda Roteiro: Isabel Muniz (Fonte: Campos Virtual Fiocruz )

Poema IV - O Guardador de Águas, Manoel de Barros

O que ele era, esse cara Tinha vindo de coisas que ele juntava nos bolsos - por forma que pentes, formigas de barranco, vidrinhos de guardar moscas, selos, freios enferrujados etc. Coisas Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de mate ( nos montes de borra crescem abobreiras debaixo das abobreiras sapatos e pregos engordam...) De forma que recolhia coisas de nada, nadeiras, falas de tontos, libélulas - coisas Que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos. Até que de noite pôs uma pedra na cabeça e foi embora Estrelas passavam leite nas pedras que carregava. Vagou transpedregosos anos. Se soube que atravessou Paris de urina presa. Estudou anacoreto. Afez-se com as entradas e o cheiro de ouro dos escaravelhos. Um dia chegou em casa árvore. Deitou-se na raiz do muro, do mesmo jeito que um rio fizesse para estar encostado em alguma pedra. Boca não abriu mais? Arbora em paredes podres. Em: O Guardador de Águas, Manoel de Barros, Alfaguara 2017, pág. 18 Imagem: desen...

Bandeira, Marcelo Valença

Minhas cores são todas E minha bandeira é o agora Da sobra dos dias À luz do crescimento Uma flâmula de todo o saber Minhas armas De criação em massa Um risco, um som e uma palavra Tremulam aos ventos do que virá Sou livre Ninguém impede meu caminhar Na minha terra livre Voa quem é de céu Reza quem é de fé Canta quem é de voz Beija quem é de lábio Dança quem é de alegria Minhas cores são todas E minha bandeira Ativa e altiva É o amor

O Atraso, Aline Bei

chutei as pedrinhas da estrada quando senti que você não vinha Mais. Tirei elas do meu caminho, deixei só a Terra, que sempre levantava com o vento, nascido das rodas rápidas que passavam por ali e não paravam. Estava tudo certo para termos a melhor semana das nossas vidas, pelo menos eu. De noite conversamos por telefone, você disse das malas prontas, mas hoje desviou o caminho, preferiu pegar a estrada sem mim e eu aqui, na rodoviária feito Besta, num choro engasgado de peito, uma ânsia. Pensei que podia ir atrás de você até a sua cidade, mas que ridículo isso seria. Porque um dia Morro e não sei Quando, desperdiçar o tempo é criminoso por ser jeito de matar, também. Olhei minha mala em estado de Espera, era triste. Eu de calça jeans, batom e bota te esperando era ainda mais Triste, o amor é história pra boi Dormir. O que existe é a sede, amor é feito de 2 ou mais pessoas e 2 ou mais pessoas Raramente concordam em qualquer coisa, por isso viram pó e desilusão. Você foi muito Covarde,...

Deva, Marcelo Valença

De vez em quando Ou contumaz Me apraz Um imperativo devaneio De ver o quanto E tanto mais Satisfaz Um insaciável devaneio Nem vil nem santo Ou audaz Tanto faz Indissolúvel devaneio De vez em quando Me faz Voraz Um indefectível devaneio

Vozes-Mulheres, Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio. ecoou lamentos de uma infância perdida. A voz de minha avó ecoou obediência aos brancos-donos de tudo. A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela. A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato. O ontem – o hoje – o agora. Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância o eco da vida-liberdade. Imagem: Geledés

Gigante, Marcelo Valença

Vamos salvar o mundo Pulando de galho em galho Minerar o barro com as mãos Honrando cada pedaço de chão Sobre o tronco que resiste à lava para explorar diamantes de granito Vamos bolar picaretas de madeira e explosivos teleguiados Medindo a empreitada no olhar Queremos as rochas cintilantes Não por que são raras Ou caras Só por que são belas Vamos ver Em cada ser vivo Seu brilho Em todo o teu riso Meu espelho Em cada tua pequeneza Nossa grandeza No Instagran: In.voluntaria

Azuis, Marcelo Valença

Um ser tão árido, ácido De vento seco e ar cálido, pálido Esfarela-se num desejo insólito, mágico De virar o mar Ao ser tão líquido, acredita Nos seus azuis mais íntimos, aceita No seu fluir suave contínuo, acolhe Até vir a amar Por ser tão leve, inspira Livre de narcisos bélicos, expira Ao brilho do sol na água, escuta Há de vir o amor Conheça o autor:  In-voluntária . Leia Marcelo Valença em: Hora Bolas Sê Rocha Lugar Algum Encanto Futuro Longe

Fingir Que Está Tudo Bem, José Luís Peixoto

        Fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes: ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer: amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga. Fonte: Org.com Leia mais de José Luís Peixoto   /  Palavras para minha mãe

Gregório Duvivier (Antologia Incompleta, Org. Adriana Calcanhoto)

                                                                                    Se o leite desnatado por acaso caísse da sua mão no chão da seção de laticínios bastava para eu enxugar o piso encharcado de batavo e perguntar seu nome e fazer alguma piada envolvendo a expressão chorar pelo leite derramado e nós dois teríamos uma longa-vida eu e você mas você já está no setor de limpeza e eu penso que se espirrasse água sanitária no seu vestido eu poderia dizer sou advogado e isso vale um processo ou se você tivesse dúvidas quanto à validade de um queijo minas eu sei tudo sobre queijo minas ou à madureza de um abacaxi basta puxar uma folha da coroa mas agora é tarde você já está no caixa passando produtos que apitam como um eletrocardiograma. Em: Antologia Incompleta da Poesia...

Hora Bolas, Marcelo Valença

Bubbly - Marcelo Valença Cada sopro Uma loucura Numa bolha de sabão Ploc ploc ploc Mente sã Em corpo são Ploc ploc ploc O brilho fica no ar O sonho corre no chão Texto e imagem cedidos pelo autor.

O Discurso e o Deserto, Janice Japiassu

Com o acre mel do deserto De ouro veste-se o nome Pronunciado na guerra O sol fecunda as espadas Retesa o arco certeiro E o sete nasce da pedra No silêncio alumioso Da noite mal-assombrada Mistura o grito viçoso Eis a palavra afiada Nos pastos da solidão Dentro do silêncio limpo Voz de toda precisão Fonte: Jornal da Poesia Leia aqui sobe Janice Japiassu                                                                                                                                                                 

Vincent, Marina Colasanti

Ciprestes de Van Gogh imóveis labaredas verdes incêndios sobre a tela verdes mulheres nuas em seus cabelos. Ciprestes de Van Gogh bizantinas colunas da paisagem vórtice remoinho erguido como o grito o fallus o arremesso de gozo do pintor. Em: Rota de Colisão, Rio de Janeiro, Ed.Rocco 1993 Imagem: Cypresses, Van Gogh Saint-Rémy - FR 1889 Museu Metropolitano de N.Y

Menino de Rua, Henrique Duarte

  Imagem: JusBrasil

Os Estatutos do Homem, Thiago de Mello

  OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente )                              A Carlos Heitor Cony Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo. Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino. ...