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Alto nível, Luis Fernando Veríssimo

Vamos, então, dar início ao nosso debate. Eu só pediria aos senhores candidatos que, em respeito ao público, mantivessem o debate em alto nível.
       - E não poderia ser de outra maneira. Somos, os dois, pessoas civilizadas.   
       - Da minha parte, o nível será elevadíssimo
       - Eu não poderia esperar outra coisa do meu ilustre oponente, pessoa que goza do mais alto conceito que o dinheiro pode comprar.
       - Meu dileto oponente diz isso porque sabe o valor do dinheiro. Tanto que só rouba somas altíssimas. É um ladrão refinadíssimo. Um escroque supremo.
       - Não é por sermos adversários políticos que vou deixar de reconhecer que meu oponente é um demagogo de marca maior. De marca maior!
       - A sua burrice é superior. Eu até diria, ciclópica.Talvez só superada pela sua vaidade, que é monumental.
       - Aliás ( e isto, talvez, poucos saibam) mantemos relações de amizade, fora da política. Eu, inclusive, freqüento a casa dele quando ele não está e sou muitíssimo bem recebido pela sua esposa. Como, aliás, muitos outros.
       - É verdade. Nossas famílias se dão. Mas a mãe dele sabidamente, se dá muito mais. É uma senhora que todos põem nas alturas, para poder espiar as suas pernas. Eo pai não faz ppor menos, faz por mais, não fosse ele conhecido em Brasília como a Rainha do Lago.
       - Discordamos, talvez, no terreno das ideias, porque ele não tem nenhuma, mas concordamos que ele é um grande, eu até diria um grandessíssimo sem vergonha. Não posso, em sã consciência, negar a reputação que meu oponente goza entre contraventores patrícios e é inegável que ele honra as tradições de corrupção da sua família. Todos sabem quem foi seu pai, embora a sua mãe negue.
       - Não poderia esperar outra atitude deste que, sem perder a modéstia, atingiu os píncaros da cafajestice, e sozinho. É um homem que se fez por si mesmo, usando esterco e um pouquinho de cuspe. Um dos mais requintados pulhas nacionais.
       - Não tenho, claro, a cultura do meu adversário, pois se tivesse nem conseguiria falar, só rosnaria, mas posso atestar que ele tem a humanidade de um Átila, o faro político de Lassie, a sensibilidade de um Nero, o racionalismo de um Hulk, a visão de estadista de um Maciste...
       - Meu oponente é inteligente como o Everest, culto como um Zepelin, eloqüente como um balão cheio de gases...
       - Senhores, por favor!
       - Sim?
       - O quê?
       - Vamos baixar um pouco o nível...

Nota: esta crônica é anterior à reforma ortográfica. O blog manteve a grafia original

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