Você acaba de sair há menos de cinco minutos e de repente quarto ficou tão enorme, que resolvi te escrever. Claro que você nunca receberá esta carta, e eu mesma ainda não decidi se vou rasgá-la. Pode ser até que a ponha numa gaveta, não da mesinha de cabeceiras, mas do armário entre as combinações e camisolas de renda que não uso e insisto em conservar. Daqui a meses, dois anos, num dia de faxina geral, eu talvez a encontre e releia, talvez fique comovida e pense longamente em você, talvez chore com certa afetação diante do espelho, recordando o maior amor da minha vida. Depois não sei se voltarei a escondê-la entre a roupa e os sachês, ou se a picarei duramente em pedacinhos regulares, antes de atirá-la na lixeira com um secreto prazer. Depende - ainda é cedo para qualquer previsão. O ideal seria descobri-la, sorrir e continuar arrumando as gavetas. Coisas que acontecem, feliz e infelizmente: só o tempo é capaz de resolver situações semelhantes Em todo caso, agora ...
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