- Você acaba de sair há menos de cinco minutos e de repente quarto ficou tão enorme, que resolvi te escrever. Claro que você nunca receberá esta carta, e eu mesma ainda não decidi se vou rasgá-la. Pode ser até que a ponha numa gaveta, não da mesinha de cabeceiras, mas do armário entre as combinações e camisolas de renda que não uso e insisto em conservar. Daqui a meses, dois anos, num dia de faxina geral, eu talvez a encontre e releia, talvez fique comovida e pense longamente em você, talvez chore com certa afetação diante do espelho, recordando o maior amor da minha vida. Depois não sei se voltarei a escondê-la entre a roupa e os sachês, ou se a picarei duramente em pedacinhos regulares, antes de atirá-la na lixeira com um secreto prazer. Depende - ainda é cedo para qualquer previsão. O ideal seria descobri-la, sorrir e continuar arrumando as gavetas. Coisas que acontecem, feliz e infelizmente: só o tempo é capaz de resolver situações semelhantes Em todo caso, agora te escrevo, sem nenhuma intenção definida.
- Ou por outra: tenho uma intenção. Quero te dizer que você deixa sempre este vazio total, cada vez que abre a porta do apartamento e chama o elevador. Também é verdade que, junto com a ausência não preenchível, aparece em mim uma zona, não de alegria, mas de paz, de envolvente serenidade. A medida que o elevador desce, vou ficando menos desamparada, mais forte, dona de mim mesma, das minhas horas, do dia inteiro que é preciso percorrer sem você. Como é bom não estar ao seu lado - e que espinhoso!Estou certa que, se lesse esta pseudocarta, você não entenderia nada e exclamaria mais uma vez, em tom irônico e inseguro: "Mas que mania de complicar tudo!". E estaria, como sempre, enganado. Sou absolutamente simples, Zeca, embora não consiga fazer com que você compreenda o óbvio: gosto e não gosto de você profundamente. Evidência tão clara, tão igual à que a maioria, das pessoas sente, e tão impossível de ser aceita. Amor e desamor são sinônimos perfeitos, mas quase ninguém admite isso conscientemente, e todos preferem continuar valorizando as próprias emoções, fingindo que existem laços perenes, que o eterno não é apenas uma ficção que inventamos para disfarçar a (intolerável? benevolente?) fugacidade das coisas. Como é que você, tão inconstante, não tem coragem de fugir ao convencionalismo sentimental e afirmar esta realidade consoladora. Todos nós - você e eu, diluídos na multidão somos assim: precisamos e não precisamos um do outro, queremos e não queremos estar juntos. Uma sorte, Chico você não vê? Já esgotamos o nosso tempo.Mas estou me perdendo em considerações inúteis. O fato é que você saiu agorinha mesmo (tenho vontade de, como os franceses, dizer partiu) e já estou te escrevendo esta carta, digamos anônima. A falta que você me faz, neste momento, é maior do que toda a que me fez desde que te conheci. Por que é então que, ao chegar na esquina, você não se lembra de repente que deixou aqui a carteira, as chaves, a pasta - e volta, toma de novo o elevador, sobe e aparece no quarto subitamente, dizendo com mau humor: "Que cabeça a minha, esqueci meus documentos na cômoda"? Eu interromperia a não-carta, pularia em teus braços como um cachorrinho surpreendido e te cobriria de beijos tão afobados, que você, ignorando minha comoção, reclamaria meio sem jeito: "Que é isso, você enlouqueceu?". Sem poder explicar, eu acabaria irritada e ficaria esperando que você saísse (partisse) imediatamente. A incomunicação, como é cruel, meu Juca…Se tudo isso acontecesse (e ainda bem que não acontecera), eu talvez criasse coragem para te contar um episódio antigo que, por um obscuro pudor, nunca fui capaz de revelar. Assim: durante uma das nossas primeiras separações (são tantas, hoje, que desisti de enumerá-las), um dia tomei um ônibus, sem rumo, e desci num bairro distante, cheio de casas grandes e senhoriais. Garoava. Caminhei vários quarteirões sem saber por que ou para quê, pensando em você com alívio e angústia. Afinal a manhã clareou e tive a impres são de que tudo se tornara viçoso trepidante de vida. Foi aí que parei diante de um jardim: abrigado por uns arbustos gotejantes, um casal de tartarugas se amava ele em pezinho, atrás dela, movendo o pescoço de maneira aflita, soltando uns grunhidos ásperos e ansiosos. A tartaruga permanecia passiva, muito quieta, expectante, com a cabecinha fixa. Eu já havia admirado duas hienas, no Jardim Zoológico, se preparando selvagemente para a união, mas nunca, nem de longe, imaginara o amor entre os quelônios. Concluí, seduzida, que os homens e mulheres pouco são ao lado das tartarugas apaixonadas. Entrei em um restaurante qualquer, almocei sozinha e sonhadora, fui a um cinema (o filme era tão insignificante, que já nem tenho ideia do que se tratava). À tardinha passei de novo em frente ao mesmo jardim. Custei a descobrir uma das tartarugas (o macho? A fêmea?), atrás de uma árvore. A outra desaparecera. Compreendi, então, o que agora trato confusamente de explicar a mim e a você e que não sei exprimir em palavras mais exatas. Adeus, João, grande e querido de norte a sul. Hoje, agora, às 8:37, te amo com-ple-ta-men-te; daqui a pouco, não sei. Até hoje à noite, até nunca. Se você desaparecesse…(24/5/1980)
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