quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Janelas de hotéis: Cecília Meireles




Quem sabe o que vamos encontrar quando, num hotel desconhecido, abrimos pela primeira vez a janela do quarto? Por trás das cortinas, das vidraças, das veneziana, há uma inocente imagem desprevenida que se entrega aos olhos - à nossa alma, afinal - coma mais tranquila naturalidade.
   Oh! inesperadas imagens que assinalam o nosso primeiro encontro com uma cidade; que são  como estampas de um livro de viagens subitamente aberto; que se tornam inequecíveis e, muitas vezes, são o anúncio e a síntese de quanto iremos ver depois em nossas andanças pelas ruas, em nossa aproximação de pessoas e objetos.
    Relembro uma janela sobre o Central Park; tão alta, tão alta, que dava a medida do mundo vertiginoso a que pertencia. Mas o sossego das árvores, mas os vultos humanos que se moviam naquela profundidade, e que pareciam todos infantis,amenizavam os tumutos e ruídos; a vida era como submarina, distante e silenciosa. A altitude criava um clima de ausência,de renúncia, de isenção, como o que se experimenta nas viagens aéreas. Toda a enorme grandeza que se dissolvia, contemplada tão de cima! E a paz que resta, abolidos os fenômenos, as ilusões...
     Uma janela de Amsterdão mostrava a cidade como um desenho finamente traçado, com suas torres, suas fachadas pontudas, delicados pormenores arquitetônicos... - e, no primeiro plano, um canal, um barco cheio de flores; o passado e o presente, a graça e o trabalho da vida holandesa, tudo aquilo que depois se vai descobrindo  pouco a pouco e se pode chegar a amar profundamente.
    Em Bombaim, uma janela onde crocitavam corvos; mas de repente, a claridade matinal, a rua cheia de figuras coloridas, um carregador transportando à cabeça um grande tapete enrolado; outro, com um tabuleiro de comidas; mulheres com saris vermelhos flutuando à brisa e ao andar; turbantes, gorros,vestimentas ocidentais...
     Em Calcutá, o sol vermelho, redondo, dardejante... O puxador de carrinhos a banhar-se num jorro d'água, na esquina. As casas ainda todas fechadas. Casas? Palácios. O barbeiro sentado na calçada, à oriental, à espera da freguesia. 
     Em Patna, a janela abria para um enorme terreiro. Havia flores de ervilha de todas as cores. E havia a grande mangueira sob a qual um grupo de crianças tranquilamente ouvia as histórias que uma mulher contava.
     Oh! as janelas dos hotéis! As que abrem para pátios interiores, ou de serviço onde, às vezes, por estar um automóvel desmantelado, ou por onde passam cozinheiros de altíssimos gorros brancos, ou  arrumadeiras saltitantes e maliciosas como se estivéssemos representando Molièrre...
     Uma janela sobre um jardim chuvoso; plantas gotejantes, um silêncio de séculos e, por entre as frondes, uma pincelada de prata vagamente azulada: o mar de Tibiríades e toda a sua história!
    Uma janela em Jerusalém: uma longa árvore seca e, muito lá em cima, um passarinho que canta.Oh! para quem? Para mim que o escuto? Para a cidade? Para o mundo? Para si mesmo? Um passarinho que canta, apenas.
    Passei nessas janelas e em muitas outras quando agora em São Paulo, ao correr a cortina, me encontrei diante de um pequeno claustro. Quem podia imaginar tal encontro, na cidade rumorosa, inquieta, trabalhadora, ansiosa, ambiciosa?
    Pequeno claustro com seus arcos, suas galerias, suas fontes, seus azulejos e balaustradas. Um adorável silêncio pousa com a brisa nas palmeiras, nos oleandros em flor, nas pequenas  moitas dos arbustos. Passarinhos e borboletas vão e vêm, param e passam. Às vezes,  avista-se um jardineiro, com seu regador verde, a borrifar plantas. (O relógio da torre bate cada quarto de hora.) Às vezes, um carmelita oferece na palma da mão qualquer coisa para comer a uns macaquinhos que andam numa árvore. E à tardinha é certo que algum carmelita caminhe pelos quatro lados do claustro, atento ao seu breviário, com o planejamento do hábito oscilando largamente ao ritmo de seus passos.
     Com a perspectiva desta janela, o claustro e seus personagens são uma verdadeira miniatura medieval. O tom amarelado da arquitetura é o de um pergaminho envelhecido. (Pode ser que os passarinhos e as borboletas ainda tragam de algum lugar as letras góticas que possam compor, nos espaços livres, palavras celestiais.)