Pular para o conteúdo principal

De Filha Para Pai, Cris Bauer.

Ei pai,
Tinha tanta coisa para te falar. Nada que tenha ficado para trás ou sem oportunidade, não! Nós nos dissemos tudo e mais um pouco em todas as chances que tivemos. O que tenho para te falar são coisas novas.
O aparelho que coloquei e você nem chegou a ver, está ainda trabalhando. Sinto os dentes se mexerem, mesmo que ainda não dê para ver resultados.
...
Eu voltei para a usina e agora moro em uma casa linda perto da água. Talvez o primeiro passo para o meu píer. Lembra desse meu sonho? Um píer, um cachorro grande, um livro, um amor. A cadela está aqui comigo e se chama Catarina. É marrom como um pote de Nutella. Os livros também estão garantidos. Falta o píer e o amor.
Aprendi fazer um molho para carnes que o Marco aprovou. Acho que você também iria gostar. Descobri um aplicativo macete para o celular e um joguinho novo de perguntas que iria te viciar. Considere-se desafiado.
Também tinha uma listinha de filmes para te passar para nós discutirmos. Estou chegando à conclusão que sou uma nerdizinha. Acho que você ficaria orgulhoso disso (risos).
Hoje começaria mais um ano – o seu ano. Mas na verdade o que está começando é mais um ano sem você. O mundo acabou – não uma, mas duas vezes. Aprendi que ele pode acabar várias vezes e em todas a gente precisa sobreviver. Sou uma baratinha nerd, sem dinheiro na caixinha e sem nenhum Dom Ratão. Que venha então esse novo mundo estranho, onde terei que andar sem poder te ligar, sem que meu telefone toque com alguém procurando a Cáquis.
Estamos todos tristes e com saudades, mas estamos todos bem. Fica tranquilo e em paz, porque aprendemos com você a ser independentes e fortes.
Feliz aniversário! Já é meia noite e eu fui a primeira, mais uma vez.
Tammdqeisp. S!
Cáquis

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

Vamos Pensar? (31)