
Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de
imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça,
comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de
sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com
certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir
demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia.
Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com
grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a
ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas.
Bermudas principalmente, teria
que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços
que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na
hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em
Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se
esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente
colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu
sonolenta, o mundo está certo.
Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar
aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo
tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava
raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito
bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no
colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o
ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto
naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo.
Contra
céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a
perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o
pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros
formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os
sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem
suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a
multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num
caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um
deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de
infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que
este! Para isto vale nascer.
(In: Prado, Adélia, Filandras, Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, pág. 119.)
Nota: o blog manteve a ortografia original
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