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Menina de Vermelho a Caminho da Lua, conto de Marina Colasanti


     Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: “Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar… endereço… etcétera”.
     Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, por contrato e escolha, seu responsável.
     O parque, instruo meu sócio, é pequeno, nem se poderia a rigor chamá-lo de diversões, porque lhe faltam cores e aquela mínima alegria necessária ao divertir. Tem poucos jogos. Um carrossel movido a hélice, espécie de ventilador gigante instalado ao alto em armação precária. E a grande bolha de plástico. Não quero que descreva como a luminosidade batia, se de chapa ou de lado, e não precisa perder-se em considerações românticas sobre a decadência dos parques. Quero apenas que dê a entender, através da hélice, talvez, a pobreza algo sórdida do lugar. E, por favor, não comece com referências temporais.
     “Pena ter vindo de sandálias de salto alto, pensei sentindo a poeira infiltrar-se entre os dedos, viscosa pasta de suor sobre a sola. E inutilmente sacudi o pé. As meninas corriam adiante, indecisas entre os brinquedos, prontas para pedir um e outro, excitadas com a possibilidade de ganhar mais do que o previsto. Não havia muito na verdade. No espaço espremido entre dois muros, terreno baldio que aos cantos abrigava capim e cheiro de urina, girava um carrossel sem cavalos, tocando a hélice assentos de caixote. Canoas, pêndulo de correntes, cortavam o ar em foice. No stand de tiro, os alvos picotados lembravam fome de ratos. E, ao redor de um cercado, caniços com barbante esperavam pescadores da sorte para fisgar chaveiros e canecas de plástico. Ao fundo, porém, a grande bolha inflada era atração que valia seus três reais.”
     Não valorize demais a bolha. Ela é velha e suja como tudo mais ali, visivelmente comprada já gasta, de outro parque maior. E cuidado com os lugares-comuns, “cortar o ar” não é bom, você poderia ter usado uma forma mais nova. Nem precisa de tanta delicadeza. E melhor dizer mijo do que urina, sobretudo nesta história. Mas vamos em frente. Você, a mãe, quer pagar para que as filhas possam entrar na bolha e pular, é para isso que a bolha serve. Procura, não vê bilheteria, chama, bate palmas. Vem um homem. Eu sei que você gostaria de descrevê-lo, um velho, ou um homem assim e assado, de olhar meio enviesado, e baixinho. Mas eu não quero. Por enquanto permito apenas que diga que tinha as calças amarradas de corda. E o quanto basta.
     “Branca e amarela, com visores transparentes. Ou sujamente branca, com remendos. Assim seria a superfície lunar, imenso colchão inflado onde a perna afunda, debaixo da redoma de uma bolha. Porque assim estava escrito: ‘Pise na Lua por R$ 3,00’. E eu, querendo pagar a viagem das minhas duas astronautas, procurei a bilheteria, falso quiosque em meio àquele nada, e não encontrando ninguém voltei tentando atrair a atenção pela simples presença. Havia tão pouca gente no parque. Pensei em chamar, bater palmas, mas constrangida com a ideia do meu próprio alarido fiquei ali parada junto às meninas, olhando em volta com ar que pretendia autoritário, mas que sabia apenas desamparado. Seria do parque o homem que vinha sem me olhar, mais preocupado em segurar as calças?”
     Não sei por que você omitiu o detalhe da corda. É forte, marca bem a personagem. Esse seu “segurar as calças” diz pouco, dilui. E não se alongue tanto. O leitor quer clima, pressão. Esqueça as descrições. Vamos, agora ponha suas filhas na bolha.
     Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: “Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar… endereço… etcétera”.
     Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, por contrato e escolha, seu responsável.
     O parque, instruo meu sócio, é pequeno, nem se poderia a rigor chamá-lo de diversões, porque lhe faltam cores e aquela mínima alegria necessária ao divertir. Tem poucos jogos. Um carrossel movido a hélice, espécie de ventilador gigante instalado ao alto em armação precária. E a grande bolha de plástico. Não quero que descreva como a luminosidade batia, se de chapa ou de lado, e não precisa perder-se em considerações românticas sobre a decadência dos parques. Quero apenas que dê a entender, através da hélice, talvez, a pobreza algo sórdida do lugar. E, por favor, não comece com referências temporais.
     “Pena ter vindo de sandálias de salto alto, pensei sentindo a poeira infiltrar-se entre os dedos, viscosa pasta de suor sobre a sola. E inutilmente sacudi o pé. As meninas corriam adiante, indecisas entre os brinquedos, prontas para pedir um e outro, excitadas com a possibilidade de ganhar mais do que o previsto. Não havia muito na verdade. No espaço espremido entre dois muros, terreno baldio que aos cantos abrigava capim e cheiro de urina, girava um carrossel sem cavalos, tocando a hélice assentos de caixote. Canoas, pêndulo de correntes, cortavam o ar em foice. No stand de tiro, os alvos picotados lembravam fome de ratos. E, ao redor de um cercado, caniços com barbante esperavam pescadores da sorte para fisgar chaveiros e canecas de plástico. Ao fundo, porém, a grande bolha inflada era atração que valia seus três reais.”
     Não valorize demais a bolha. Ela é velha e suja como tudo mais ali, visivelmente comprada já gasta, de outro parque maior. E cuidado com os lugares-comuns, “cortar o ar” não é bom, você poderia ter usado uma forma mais nova. Nem precisa de tanta delicadeza. E melhor dizer mijo do que urina, sobretudo nesta história. Mas vamos em frente. Você, a mãe, quer pagar para que as filhas possam entrar na bolha e pular, é para isso que a bolha serve. Procura, não vê bilheteria, chama, bate palmas. Vem um homem. Eu sei que você gostaria de descrevê-lo, um velho, ou um homem assim e assado, de olhar meio enviesado, e baixinho. Mas eu não quero. Por enquanto permito apenas que diga que tinha as calças amarradas de corda. E o quanto basta.
     “Branca e amarela, com visores transparentes. Ou sujamente branca, com remendos. Assim seria a superfície lunar, imenso colchão inflado onde a perna afunda, debaixo da redoma de uma bolha. Porque assim estava escrito: ‘Pise na Lua por R$ 3,00’. E eu, querendo pagar a viagem das minhas duas astronautas, procurei a bilheteria, falso quiosque em meio àquele nada, e não encontrando ninguém voltei tentando atrair a atenção pela simples presença. Havia tão pouca gente no parque. Pensei em chamar, bater palmas, mas constrangida com a ideia do meu próprio alarido fiquei ali parada junto às meninas, olhando em volta com ar que pretendia autoritário, mas que sabia apenas desamparado. Seria do parque o homem que vinha sem me olhar, mais preocupado em segurar as calças?”
     Não sei por que você omitiu o detalhe da corda. É forte, marca bem a personagem. Esse seu “segurar as calças” diz pouco, dilui. E não se alongue tanto. O leitor quer clima, pressão. Esqueça as descrições. Vamos, agora ponha suas filhas na bolha.
     Pronto, agora você pode ficar com vergonha. A mãe está vendo, e não faz nada. Poderia chamar a menina, conversar, pagar a entrada dela. Mas isso seria reconhecer que sabe o que está se passando, que o tempo todo, enquanto ela se jogava no perigo, você desenhava atenta aos detalhes, afiava a ponta do seu lápis na linha dos olhos, na pose do pé, mais interessada em roubar o fato do que em evitá-lo. Agora ela sorri para você, bem criança. Não quer te agradar. Quer teu álibi. Sorrindo de volta você está assinando seu atestado de inocência, afirmando que sim, ela é uma criança igual às outras, uma boa menina que merece teu carinho. E nada do que você viu aconteceu. E você, sem forças, sorri. “Uma menina como as minhas, brincando sábado à tarde no parque de diversões. Uma menina de coxas gordas que pede o meu sorriso. É isso que estou vendo, só isso. Não há por que esta secura na boca, este anotar.” Ela não está com secura. Está úmida, seivando secreta ao sol do parque, presa com o homem na teia viscosa. Sua nas axilas. Ponha isso, esta palavra axilas, não, melhor, sovacos, que você odeia ainda mais, que acha tão óbvia. Eu sei que você não quer escrever como eu mando, que já se acha dono da história. Mas o fato, quem tem o fato sou eu. E sem mim você não tem nada para contar, sem mim, você não existe. “Este anotar desenhado de máscaras e pés. Nada, não há nada sobre o que fantasiar. Nenhum gesto concreto. Só uma malha vermelha esticada de leve sobre seios, e duas flores de pano amarradas ao pulso com uma fita. Pulso que o homem agora segura, sem forçar, firme apenas, debruçando-se sobre o ouvido encoberto pelas mechas. E que ela lhe entrega, dócil por momentos, logo puxando o braço e o corpo em riso de recusa, sacudindo do ouvido as suas palavras, mas trazendo no gesto a mão escura que, rápida, se encaixa na curva da cintura.”
     Leve ela embora, não a deixe ficar muito tempo junto dele. E por etapas que se insinua, avançando um pouco mais a cada vez, quase não concedendo, mas deixando crer. Ele não. Fica parado. E o centro, o poder. Não se move, não se apressa. Sabe que ela vai voltar até conseguir o que quer. E tem seu preço.
     “Um momento, e ela já se afasta dançante, coçando na nuca o cabelo louro, vincado pela auréola do elástico. No stand de tiro, o único cliente encostou a carabina, e concentra sua atenção no alvo moreno da moça do parque, encarregada das armas. É para lá que ela vai. Eu a olho quando se aproxima, e agatanhada se dirige ao rapaz. Não sei o que se dizem. Vejo que o rapaz a segura debaixo dos braços, levantando-a devagar por trás. Até que ela, espremida entre o corpo dele e o balcão, alcance a carabina, e encostando-a no ombro possa dar seu tiro.”
     “Percebe o homem? Não parece. Sem virar a cabeça, sem procurá-la no olhar, move seus passos achatados recebendo dinheiro dos pais que aos poucos chegam, desafivela sandálias sorrindo, bondoso porteiro daquela Lua que ela quer acima de todos os brinquedos do parque, e que, ele sabe, a trará de volta.”
     “De volta vem ela, cortando em diagonal a distância. Traz na corrida outra menina, que a segue, que a segura um instante e logo foge, perseguida também. Não vão longe. No espaço junto à bolha, que agora com pais e crianças ficou subitamente apertado, se procuram em voltas, se oferecem torcendo o corpo para escapar à mão que avança, se tocam entre gritos, tentando vencer na garantia do pique. E esbarram, e tropeçam tumultuando a ordem da pequena fila já formada, até que o homem abandona seu posto junto à entrada, e exercendo publicamente seu papel de bom guardião expulsa a brincadeira.”
     “Afasta-se a outra menina, enquanto ela, serena e quieta, entra, como se de direito, entre as crianças descalças que, bilhete na mão, esperam bem-comportadas a vez de penetrar no cosmos. Não pede, não olha para ele. Balança de leve a cabeça acompanhando a música do parque. Depois se aquieta, a máscara vermelha já levantada em coroa. E devagar, chamando por ele em silencioso silvo, o brilho da língua descola os lábios, hesita no canto, e segue acariciante lambendo restos de batom, passando, forçando, insistindo, sugando em seu próprio sumo escamas de carmim.”
     “Esgotou-se o tempo lunar das minhas meninas, que paridas entre ventos pelo talho vêm a mim afogueadas. Avança ordenada a fila. Entre as outras crianças que, cabeça à frente, mergulham no bafo quente, o homem deixará enfim que ela entre. Mas será a última, retida até o fim, para que ele possa meter o braço na fenda fingindo ajuda, e alcançá-la entre plásticos. Depois deixará que pule seus vinte minutos no macio da bolha, grito afogado, sem sequer olhar no visor.”
     Agora saia você do parque. Mãe de dever cumprido, a caminho de casa, com as filhas pela mão. A menina vai sozinha. Para ela também o sábado acabou. Voltará no domingo, para colher mais onde plantou.
     Acabou, se eu quiser. Aguentei até aqui calado, engolindo teus desaforos. Mas o fim chegou, dono da história. E não é mais uma história, é um conto. O que é que você tinha? Um fato? Mas fato todo mundo tem, acontece a toda hora na cara da gente. O que você não tem é voz para contar. E isso quem tem sou eu. Está aí teu fato, como você viu ou inventou. Mas agora é meu conto, história das minhas palavras, que eu acabo como quiser.
     “É tarde quando saio, levando minhas filhas pela mão. Ela fica. Lá longe, na canoa que sobe esticando correntes, sua figura vermelha sangra o ar.”

Em: Um espinho de marfim e outras histórias, L&PM, 1999
Fonte: Revista Prosa e Verso
Ilustrção:Gaelle-Boissonnard


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