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Crônica de Fernando Sabino


Esmulambado, barbudo, cabelos desgrenhados, seria o tipo acabado do
 mendigo, não fosse certo ar de
dignidade que emana de seus movimentos. Vive rondando a porta do botequim, ali na rua Visconde de Pirajá. Outro dia tomou coragem e se dirigiu ao balcão:
- Uma cachaça, por favor.
- Pinga primeiro - resmungou o dono do botequim, com maus modos.
- Ele pensou um pouco, compenetrado e ordenou:
- Está bem, suspende. Não fica bem um sujeito da minha categoria beber cachaça.

Limito-me a transcrever o resto de um diálogo que ouvi entre uma mulher e o empregado de um supermercado em Ipanema:
- Há pessoas que pagam o mal com o bem - dizia ela.
- A mão que afaga é a mesma que que apedreja - respondeu ele
- É, mas nada como um dia atrás do outro - acrescentou ela
- Esse é bom - concordou ele. E tem outro assim: não diga desta água não beberei.
- Não é sopa não?
- Não: é água mesmo.
- E tem aquele: cuidado, jacaré, que a lagoa há de secar.
- É isso aí
- Pois então até logo
- Até logo. Passe bem.
E se despediram, satisfeitos.


Em: Dito e Feito.

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