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Arrasando na Terceira Idade(70 anos da primeira edição): Grande Sertão, Veredas de Guimarães Rosa

Ler “Grande sertão: veredas”é uma experiência que se renova sempre a cada releitura, como ocorre com os livros que se tornam clássicos à medida que o tempo passa. Para Italo Calvino, um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, o que lhe assegura sobrevivida histórica, acrescentaria Walter Benjamin. É o que comprova a diversificada fortuna crítica do romance, da crítica sociológica à psicanalítica, da análise estrutural à antropológica, que atravessa gerações de pesquisadores e não para de crescer nos últimos 70 anos.

Resultado de quinhentos anos de cultura oral reelaborada com o apuro da mais alta cultura letrada, a obra do poliglota Guimarães Rosa é um desafio à inteligência e à sensibilidade do leitor. Vencida a dificuldade inicial diante de uma “língua”outra – neologismos, arranjos sintáticos inesperados, aliterações, metáforas inusitadas –, acabamos por participar do que lemos como coautores e recriadores. E não paramos mais de ler.

A leitura se abre, então, às suas inúmeras possibilidades de sentido, como indica o símbolo gráfico do infinito com que se encerra o livro-travessia. Nas palavras de Riobaldo, o narrador, “tudo é e não é”, para desespero do leitor antes habituado, como o próprio protagonista, a ter “todos os pastos demarcados”. Pelo relato das ações, entre outras tantas, de Medeiro Vaz, Joca Ramiro e o quixotesco Zé Bebelo, os grandes chefes jagunços que antecedem Riobaldo, escreve-se a história do Brasil de maneira muito peculiar – e espantosamente atual. Vale conferir.

Situada num enclave do sertão mineiro que, para nossa tristeza e remorso, vai desaparecendo ou já desapareceu, a narrativa da história do amor impossível entre Diadorim e Riobaldo é a moldura ou o retrato da luta entre o bem e o mal – Deus e o diabo em confronto no nosso “Fausto”sertanejo. Como no mito, apropriado por Goethe no livro homônimo, vende-se ou procura-se vender a alma ao diabo em troca de poder e conhecimento. No caso, a busca de vitória do bando do traiçoeiro – e pactário? – Hermógenes, nosso Mefistófeles, contra o de Riobaldo, a dar corpo à ideia do “Diabo na rua, no meio do redemoinho”, uma sorte de subtítulo de “Grande sertão: veredas”.

A alta carga inventiva do texto, como nenhum outro romance em língua portuguesa atingiu, encaminha o leitor para um território conflagrado por amor e morte, novamente como nos mitos. Através de imagens que vão tecendo a memória do que perdeu e busca recuperar, Riobaldo se põe a falar diante do visitante desconhecido que ouve sua história e nela atua como se fosse um interlocutor/anotador silencioso, mas atuante como o leitor que de certa forma configura, representa: “O que lembro, tenho”, diz ele, embora saiba que “para trás, não há paz”.

O sertão é, de início, um espaço bem determinado, com todos os seus lugares, rios, córregos, veredas, pássaros, animais, vegetação, fauna e flora nomeados de acordo com os mais minuciosos mapas geográficos da região onde a trama se desenvolve, não fosse Rosa um especialista no assunto de caminhos e fronteiras. Uma natureza assombrosa exige personagens à altura e vai muito além do local.

Sertão e veredas não são, pois, apenas cenário, pano de fundo da ação narrada. Participam dela desde o título do livro, com ela interagem e lhe dão forma, delineiam o sentido multidirecional do deslocamento dos personagens, são para eles ora abertura, ora obstáculo. Muitas vezes as imagens da natureza se confundem e se articulam com Diadorim e Riobaldo, aumentando a tensão homoerótica entre ambos. “Abracei Diadorim com as asas de todos os pássaros”, resume Riobaldo.

Por um efeito paradoxal, comum ao livro, o sertão passa a ser do “tamanho do mundo”, “está em toda parte”e “dentro da gente”, num processo narrativo de expansão e contração próprio da reminiscência. Afastamento e aproximação simultâneos à procura do sentido: “Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo”. Ser tão: uma demasia própria à relação estreita entre memória e imaginação, alicerces da narrativa que assim vai abrindo caminho para o impossível, como se levasse ao limite extremo os “causos”orais da tradição mineira.

Por isso também é que Diadorim é a “neblina”de Riobaldo – inapreensível imagem do que poderia ter sido e não foi. Os olhos do/a companheiro/a pontuam a “estória acabada”, mais uma vez recolhem e expandem o sentido do que é lembrado e se apresenta, a um só tempo, como luto e melancolia, alegria e exaltação. Impossível ficar imune aos olhos de Diadorim: “Que vontade era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos dele, ocultando, para não ter de tolerar de ver assim o chamado, até que ponto esses olhos, sempre havendo, aquela beleza verde, me adoecido, tão impossível”.

Mais uma vez, enfim, signo de amor e morte cuja visibilidade mais perturba do que deixa ver claro, o que é a razão de toda realização literária que vale a pena. E sempre da ordem do inesperado, como o arrebatamento de Riobaldo diante de Diadorim: “assim se fosse um cheiro bom sem cheiro nenhum sensível – o senhor represente”. Afinal, a tarefa de todo grande escritor não é dar nome ao que não tem nome?

WANDER MELO MIRANDA é professor emérito da Faculdade de Letras da UFMG e autor do livro “Os olhos de Diadorim e outros ensaios” (2019).

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