sábado, 30 de março de 2013

Fechando Março e o Verão Com As Águas de Tom Jobim







Composta por Tom Jobim há 41 anos, foi eleita pela Folha de São Paulo (juri com jornalistas, músicos e  outros artistas) em 2001 como a melhor canção brasileira de todos os tempos.  Águas de Março, ganhou notoriedade na voz do autor e de Elis Regina.

Música e literatura, nunca estiveram distantes e com a grande música de Tom Jobim não é diferente. A composição foi feita numa época em que o autor estava bastante triste, sentindo-se acabado como artista. Esse sentimento pessoal somado a um poema de Olavo Bilac: O Caçador de Eseraldas ¹  e um ponto de macumba ² que lhe inspiraram, resultaram nessa beleza de música que você pode ouvir aqui com Maria Rita.


(1) - Foi em março, ao findar da chuva, quase à entrada
do outono, quando a terra em sede requeimada
bebera longamente as águas da estação...  (Olavo Bilac)

(2) É pau, é pedra, é seixo miúdo, roda a baiana por cima de tudo (grav. J.B de Carvalho)


 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Hoje é dia de Nelson Rodrigues



 O Ex-covarde

Entro na redação e o Marcelo Soares de Moura me chama. Começa: - "Escuta aqui, Nélson. Explica esse mistério." Como havia um mistério, sentei-me. Ele começa: - "Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve sobre política?" Puxo um cigarro, sem pressa de responder. Insiste: - "Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas "confissões". É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: - Por quê?"
Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcelo foi apanhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigarro no fundo do cinzeiro. Digo: - "É uma longa história." O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Couto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcelo me fustigava: - "Por quê?" Quero saber: - "Você tem tempo ou está com pressa?" Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcelo já estava insuportável.
Começo assim a "longa história": - "Eu sou um ex-covarde." O Marcelo ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcelo interrompe: - "Somos todos abjetos?" Acendo outro cigarro: - "Nem todos, claro." Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salve e só Deus sabe como. "Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo." E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça nem por acaso.
O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a "Razão da Idade". Somos autores da impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.
Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitários curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão. No hospital, sofreu um tratamento que foi quase outro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, ninguém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estupro todo o silêncio da nossa pusilanimidade.
Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários medos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de parecer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o Dr. Alceu renegar os dois mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a "Grande Revolução" russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a "Revolução Brasileira". Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.
Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrompe: - "E você? Por que, de repente, você mergulhou na política?" Eu já fumara, nesse meio-tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: - "Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc, etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rússia: - "Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra." E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da "Grande Revolução", que o Dr. Alceu chama de "o maior acontecimento do século XX", sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo,
Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri muito na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, espécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era "filho de Mário Rodrigues". E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: - "Essa bala era para mim." Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gêmeos. Durante 15 dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a euforia de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mário Filho. Eu dizia sempre: - "Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Mário." Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Morreu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, D. Marina. Todos morreram, todos, até o último vestígio.
Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o Dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na calçada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.
Eis o que eu queria explicar a Marcelo: - depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: - "Sou um ex-covarde." É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Velho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comigo, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam cartazes com a palavra "Muerte", já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol - posso chamá-los, sem nenhum medo, de "jovens canalhas".
 
RODRIGUES, Nélson. In A cabra vadia (novas confissões), Livraria Eldorado Editora S.A., Rio de Janeiro, s/data, págs. 7-10.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O blog apresenta: Fernando Farias.

     Conheci o escritor Fernando Farias, lá no Facebook e me interessei por seu texto rápido, simples, às vezes lírico, irônico, erótico, divertido. Sempre preciso e inteligente. 

     O trabalho de Fernando  tem apresentação original: O autor dividiu em 5 cores e nelas distribuiu contos e poesias.  
    
Na verdade, ele, é que se dividiu em cores,  assim:








O livro verde de Fernando Farias - Fantasia Manchada de Batom Carmim

O livro azul de Fernando Farias - Entre Sete Estrelas

O livro amarelo de Fernando Farias - Salada Mista

O livro vermelho de Fernando Farias - A Escolha dos Anjos

O livro laranja de Fernando Farias - Espelhos Obscenos.

Um dos contos, já foi publicado no blog . Mais a respeito dos livros coloridos, o próprio Fernando Farias, fala melhor que eu:
      Concordo com o escritor Ítalo Calvino.Ele que muito me ensinou sobre a leveza, a rapidez e a exatidão na técnica de escrever, tanto que às vezes vou aos extremos, disse que "hoje em dia, escrever romances longos é um contra-senso: a dimensão do tempo foi estilhaçada, não conseguimos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam, seguindo cada qual sua própria trajetória, e logo desaparecem".
     Calvino  disse estas palavras no livro "Se um viajante numa noite de inverno", que tem 275 páginas.
Um contra-senso.
     Resolvo publicar meus contos em livrinhos de 36 páginas, formas breve, estórias curtas, para um público que nem sempre tem o hábito da leitura. Um tipo de leitor que tem que optar entre ler meus contos ou ver a televisão, navegar na internet, passear no shopping, além dos celulares,cinemas,namorar ou dormir. Uma luta desigual.
     Assim surge a leitura breve, rápida, entre comerciais de TV ou um tempo de viagem de metrô. Contos que se descartam e dissolvem no ar. Torpedos que espero que atinjam océrebro, principalmente pelo o que não foi escrito nas entrelinhas, nada inocentes.
     Aproveitem. O tempo e curto.
                                                    Fernando Farias.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Segunda Feira poética: Olegário Mariano

A Cigarra E A Formiga

Dona formiga, nesta redondeza
Rústica e solitária,
É tida
Como três vezes milionária,
Possuidora de esplêndica riqueza
Que levou a juntar durante toda a vida.

Acostumou-se desde criança à luta,
Ao sol de fogo e à aventura brava.
Vivia a trabalhar heróica e resoluta
Armazenando tudo o que ganhava.

Hoje está bem, mas é geralmente malquista
Faltam-lha uns poucos sentimentos nobres.
É em demasia egoísta
E odeia as raparigas que são pobres.

Dona Cigarra, por exemplo, alheia
A tudo, vive como pode, à toa ...
Canta os dias a fio...
Tem a garganta quase sempre cheia
E quase sempre o estômago vazio...
Entretanto,coitada! é humilde e boa.

Chega a passar misérias, mas que importa?
Só quer que a sua vida não se acabe.
Anda de porta em porta...
Se não trabalha, é só porque não sabe.

Entregou-se de vez à vida airada e quando
Se lhe fala em riqueza,
Ela responde, trêfega, cantando
Que o seu grande tesouro é a Natureza.

- Ora, um dia ... (chegara o inverno) a pobre
Foi ter à casa verde da vizinha
E apelou humilhada,
Para oseu grande sentimento nobre:
-"Mate-me a fome cruel que me espezinha,
Quero pão e mai nada."

Mas a irônica amiga.
Impassível britânica, solene,
Falou assim:
- "Sou a mesma Formiga
De que falava o velho La Fontaine,
Nada esperes de mim."

-"Tu que fizeste na estação ardente
Quando me extenuava, estrada a fora?"
-"Eu cantava - responde-lhe a inocente.
"Ah! cantavas? - pois canta e dança agora!"

Deus que ouvira, entretanto,
Sentenciou da alta abóboda vazia:
Canta,Cigarra, canta que o teu canto
Será teu pão de cada dia.

 Esta Lenda bizarra
Que o tempo não consome,
Vem aos poetas provar
Que a Cigarra
Nunca mais morreu de fome...
Mas morre é de cantar.

Em: Últimas Cigarras, 1920

Nota da blogueira (1): A fábula A Cigarra e a formiga é atribuida e Esopo e foi recontada por Jean De La Fontaine
 Nota da blogueira:(2) Cigarra é nome genérico para várias espécies de insetos da família dos Cicadídeos. Uma dessas espécies, a Carineta fasciculata, é a mais comum no Brasil.  O canto das cigarras vem do atrito das asas do macho, que usa desse expediente para atrair a fêmea. Acasalamento, postura e eclosão dos ovos acontecem no verão. A lenda é ilustrativa do provérbio "colhe-se o que é plantado", porém não faz jus ao inseto que, ao contrário, não é preguiçoso.Se fosse, não devastaria plantações.

sábado, 23 de março de 2013

Crônica cantada: Rap do Silva

                 Voltei a postar música no blog. Só há poucas semanas conheci  o grupo carioca Monobloco e só com eles prestei atenção à letra do funk  que coloco abaixo. É uma crônica urbana de letra simples e direta como a história que narra. Alguém mais conhecedor por favor me dê o nome dos autores. Vamos ao Rap do Silva 


Todo mundo devia nessa história se ligar
Porque tem muito amigo que vai pro baile dançar
Esquecer os atritos
Deixar a briga pra la
E entender o sentido quando o dj detonar

Era só mais um silva que a estrela não brilha
Ele era funkeiro
Mas era pai de família
Era um domingo de sol
Ele saiu de manhã
Pra jogar seu futebol
Levou uma rosa pra irmã
Deu um beijo nas crianças
Prometeu não demorar
Falou pra sua esposa que ia vir pra almoçar
Era só mais um Silva
que a estrela não brilha
Ele era funkeiro mas era pai de família
 
Era trabalhador, pegava o trem lotado
E a boa vizinhança era considerado
E todo mundo dizia que era um cara maneiro
Outros o criticavam porque ele era funkeiro
O funk não é modismo
É uma necessidade
É pra calar os gemidos que existem nessa cidade
Era só mais um Silva...
 
E anoitecia ele se preparava
É pra curtir o seu baile
Que em suas veias rolava
Foi com a melhor camisa
Tênis que comprou suado
E bem antes da hora ele já estava arrumado
Se reuniu com a galera
Pegou o bonde lotado
Os seus olhos brilhavam
Ele estava animado
Sua alegria era tanta
Ao ver que tinha chegado
Foi o primeiro a decer
E por alguns foi saudado
Mas naquela triste esquina
Um sujeito apareceu
Com a cara amarrada
Sua mão estava um breu
Carregava um ferro
Em uma de suas mãos
Apertou o gatilho
Sem dar qualquer explicação
E o pobre do nosso amigo
Que foi pro baile curtir
Hoje com sua familia
Ele não irá dormir
Era só mais um Silva que a estrela não brilha
Ele era funkeiro mas era pai de família.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Doei livro e gostei.

Alguns de meus livros iniciaram ontem nova viagem. Eu mesma que levei  e fiz isso com muito prazer.  lembro de alguns:                  
O Centauro No Jardim, que comprei para ofertar num grupo de leitura formado só para  livros pedidos pela UFRS. Fui ler na maior empolgação porque gosto do autor, Moacyr Scliar. Não correspondeu à minha espectativa.Seguiu para São Paulo, Rio Grande do Sul e voltou tendo agradado aos outros leitores. A história fantástica do homem(?) que nasceu centauro e por meio de cirurgia volta a ser humano vai ser lida por outras pessoas.             
Estórias Mínimas é de Jose Rezende Júnior.  Conheci o autor em 2008 através de uma livreira charmosíssima do Distrito Federal. Rezende me enviou 2 exemlares: um para mim e outro para circular entre os amigos leitores virtuais. Fui obediente fiz circular  emprestando para cinco pessoas de cidades diferente, até que o exemplar chegou- por engano- em Natal-RN onde acabou na estante de Aline. Na terra dos potiguás a viagem das Estórias Mínimas encerrou.   Esse livro, de contos curtíssimos, é parte da história do meu grupo de leituta: a livreira e Aline são passado distante. O livro parou. O segundo exemplar que eu já tinha lido e até usado neste blog, hoje está numa das caixas que deixei na casa de Maria e vai ser lido também por outras pessoas.
Ontem pus na caixa, também, um livro de Josué Montello, não lembro o título. O autor conheci através de uma leitora do Recife que não gostava de emprestar livro com medo de perdê-lo. Tinha uma certa razão.
      A Casa de Papel de Carlos María Domínguez é bem fininho, foi rapidamente lido por um amigo que comprou por meu intermédio em 2011. Creio que hoje ele já sabe fazer compra pela internet. De Chico Buarque já havia lido, emprestado e em seguida doado Leite Derramado e Budapeste. Nenhum me agradou, mas sou minoria. Estorvo, de que gostei, há muito também foi parar em outras mãos. Ontem doei Fazenda Modelo.  Prefiro Chico Buarque compositor.  
     Numa das caixas que levei para a Biblioteca Comunitaria do Poço da Panela, coloquei
 O Tempo Entre Costuras de Maria Dueñas.  Foi assim: ví uma amiga elogiando esse livro e como a Ladyce tem bom gosto aproveitei uma promoção (sou boa nisso) e comprei. Adorei! emprestei e o livro seguiu, pelos correios, para São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, João Pessoa e voltou em perfeito estado para minha estante na Iputinga. Todos gostaram da história cheia de imaginação  da autora que fez sucesso logo na estreia. A aventura do livro vai ser lida por outras pessoas e já estou feliz por isso. 
      O Enterro da Cafetina de Marcos Rey: o que esse livro estava fazendo na minha estante? Comprei pelo círculo do livro, capa dura, anos 80!! foi lido por mim e por meu pai, estava em perfeitas condições, mas tomava espaço.  Passei adiante. Diz Que Fui Por Aí,  de Ronido Maia Leite  entrou na caixa também. Outros leitores vão gostar do estilo agradável e fácil do autor. Os Lusíadas, Camões, comprado para tarefa escolar de uma adolescente também saiu ao encontro de outros jovens.
Casseta e Planeta, um livro pra quando a gente só quer ler asneira. Aquele momento de zerar a cabeça, de não notar a maçada no consultório ou matar o tempo no banheiro. Sem brincadeira, às vezes um livro bobo, bobíssimo é que faz alguém interesar-se por leitura.  E por fim, falo de  A Condolência, Marcio  Souza, que só pode ser encontrado em sebos.  O que eu estava fazendo com esse livro tão interessante se três pessoas já tinham lido?  Cada exemplar que pus nas caixas,tinha uma história comigo. A de alguns eu já nem lembrava mais. Márcio Souza é um escritor amazonense, seu A Condolência, é de 1984 e quando lí, emprestado de meu cunhado, ele já tinha passado por mais de um leitor. Ontem, verificando se havia rasura, rabisco ou qualquer demonstração de falta de educação nos livros que ia doar, reparei que A Condolência, havia sido comprado por 16.528,00 cruzeiros.  Cr$16.528 era assim que se escrevia?   Vale a pena ficar com livro parado em casa não. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Arrasando na terceira idade: Fogo Morto

Fogo Morto de José Lins do Rego foi publicado há 70 anos. O autor é um dos ícones da Literatura Regionalista  e este livro é o ultimo  da série denominada Ciclo da Cana de Açucar. Fogo Morto é ambientado na zona rural canavieira do Nordeste e o nome vem do fato de assim serem chamadas as usinas que já não moem mais. O livro tem três personagens principais: Mestre Amaro José que mora no Engenho Santa Fé, não quer ser dominado por ninguém, escolhe as pessoas para quem trabalha e um critério para sua escolha é que admire o cangaceiro Antônio Silvino. Mestre Amaro vive à beira da estrada e está sempre de conversa com os passantes. Seu Lula ( Luis Cesar de Holanda Chacon) é quem sustenta a segunda parte de Fogo Morto. Aqui o autor retrocede no tempo para explicar como Seu Lula passou a ser o dono do Engenho Santa Fé. Seu Lula tinha instrução, era autoritário e costumava tratar os escravos com severidade. Comanda o engenho e a família sem qualquer talento ou interesse, gastou todo seu dinheiro depois que entregou-se à religião por causa de um ataque de epilepsia e influenciado pelo negro Floripes.  Por fim, um terceiro personagem: Capitão Vitorino, este vive perambulando pela estradas exibindo poder e dignidade falsos.   Ele o Capitão Vitorino, Seu Lula e Mestre José Amaro vivem tentando se encaixar numa realidade criada por eles e que não existeFogo Morto é um clássico da literatura brasileira, que ainda é editado nos dias de hoje, aos 70 anos.

Fogo Morto no cinema
Ficha Técnica
Título original: Fogo Morto
Gênero: Drama
Lançamento (Brasil): 1976
Distribuição: Embrafilme
Direção: Marcos Faria
Música: Quinteto Armorial e Pedro Santos

Elenco
Jofre Soares (Zé Amaro)
Othon Bastos (Lula de Holanda)
Rafael de Carvalho (Capitão Vitorino)
Ângela Leal (Amélia)
Rodolfo Arena (Cego Torquato)
Fernando Peixoto (Antonio Silvino)
Procópio Mariano (Zé Passarinho)
Vicentina Amaral (Sinhá)
Mary Neubauer (Marta)
Waldemar Solha (Tenente Maurício)
João Signorelli
Ivan Cândido (Narração)


quarta-feira, 20 de março de 2013

Juca Mulato (9): Ressureição



Ressurreição
1
Coqueiro! Eu te compreendo o sonho inatingível:
queres subir ao céu, mas prende-te a raiz...
O destino que tens de querer o impossível
é igual a este meu de querer ser feliz.
Por mais que bebas a seiva e que as forças recolhas,
que os verdes braços teus ergas aos céus risonhos,
no último esforço vão, caem-te murchas as folhas
e a mim, murchos, os sonhos!
Ai! coqueiro do mato! Ai! coqueiro do mato!
Em vão tentas os céus escalar na investida...
Tua sorte é tal qual a de Juca Mulato...
Ai! tu sempre serás um coqueiro do mato...
Ai! Eu sempre serei infeliz nesta vida!"
2
"Ser feliz! Ser feliz estava em mim, Senhora...
este sonho que ergui, o poderia por
onde quisesse, longe até da minha dor,
em um lugar qualquer onde a ventura mora;
onde, quando o buscasse, o encontrasse a toda hora,
tivesse-o em minhas mãos... Mas, louco sonhador,
eu coloquei muito alto o meu sonho de amor...
Guardei-o em vosso olhar e me arrependo agora.
O homem foi sempre assim... Em sua ingenuidade
teme levar consigo o próprio sonho, a esmo,
e oculta-o sem saber se depois o achará...
E quando vai buscar sua felicidade,
ele, que poderia encontrá-la em si mesmo,
escondeu-a tão bem que nem sabe onde está!"
3
E Mulato parou.
Do alto daquela serra,
cismando, o seu olhar era vago e tristonho:
"Se minha alma surgiu para a glória do sonho,
o meu braço nasceu para a faina da terra."

 
Reviu o cafezal, as plantas alinhadas,
todo o heróico labor que se agita na empreita,
palpitou na esperança imensa das floradas,
pressentiu a fartura enorme da colheita...
Consolou-se depois: "O Senhor jamais erra...
Vai! Esquece a emoção que na alma tumultua.
Juca Mulato volta outra vez para a terra,
procura o teu amor numa alma irmã da tua.
Esquece calmo e forte. O destino que impera
um recíproco amor às almas todas deu.
Em vez de desejar o olhar que te exaspera,
procura esse outro olhar que te espreita e te espera,
que há, por certo, um olhar que espera pelo teu..."

terça-feira, 19 de março de 2013

Juca Mulato (8) : A Voz das Coisas



A Voz das Coisas
 
E Juca ouviu a voz das coisas. Era um brado:
"Queres tu nos deixar, filho desnaturado?"
 
E um cedro o escarneceu: "Tu não sabes, perverso,
que foi de um galho meu que fizeram teu berço?
 
E a torrente que ia rolar no abismo:
"Juca, fui eu quem deu a água para o teu batismo".
 
Uma estrela a fulgir, disse da etérea altura:
"Fui eu que iluminei a tua choça escura
no dia em que nasceste. Eras franzino e doente.
E teu pai te abraçou chorando de contente...
- Será doutor! - a mãe disse, e teu pai, sensato:
- Nosso filho será um caboclo do mato,
forte como a peroba e livre como o vento! -
Desde então foste nosso e, desde esse momento,
nós te amamos seguindo o teu incerto trilho
com carinhos de mãe que defende seu filho!"
 
Juca olhou a floresta: os ramos, nos espaços,
pareciam querer apertá-lo entre os braços!
 
"Filho da mata, vem! Não fomos nós, ó Juca,
o arco do teu bodoque, as grades da arapuca,
o varejão do barco e essa lenha sequinha
que de noite estalou no fogo da cozinha?
Depois, homem já feito, a tua mão ansiada
não fez, de um galho tosco, um cabo para a enxada?"
 
"Não vás" - lhe disse o azul - "Os meus astros ideais
num forasteiro céu tu nunca os verás mais.
Hostis, ao teu olhar, estrelas ignoradas
hão de relampejar como pontas de espadas.
Suas irmãs daqui, em vão, ansiosas, logo,
irão te procurar com seus olhos de fogo...
Calcula, agora, a dor destas pobres estrelas
correndo atrás de quem anda fugindo delas..."
 
Juca olhou para a terra e a terra muda e fria
pela voz do silêncio ela também dizia:
 
"Juca Mulato, és meu! Não fujas que eu te sigo.
Onde estejam teus pés, eu estarei contigo.
Tudo é nada, ilusão! Por sobre toda a esfera
há uma cova que se abre, há meu ventre que espera.
 
Nesse ventre há uma noite escura e ilimitada,
e nela o mesmo sono e nele o mesmo nada.
Por isso o que te vale ir, fugitivo e a esmo,
buscar a mesma dor que trazes em ti mesmo ?
Tu queres esquecer? Não fujas ao tormento.
Só por meio da dor se alcança o esquecimento.
Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
que, na terra natal, a própria dor dói menos...
E fica que é melhor morrer (ai, bem sei eu!)
no pedaço de chão em que a gente nasceu!"