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Ajuricaba do Nascimento, Regina Ruth Rincon Caires

− Aceita um refrigerante? Água? Ao mesmo tempo em que meneia a cabeça negativamente, coloca a mão à frente reforçando recusa para a comissária. Ajeitando-se na poltrona, procura afastar o incômodo. Desde a decolagem, o estômago trava uma batalha insólita com os bons costumes. Sem dúvida, se tivesse o corpo mais sadio e aguentasse a longa viagem por estradas, o retorno seria menos sofrido. Nem de longe imaginaria entrar num avião. E agora está ali. Desconfortável, sentado ao lado do passageiro que tem fone atolado nos ouvidos e come amendoim salgado num mastigar desembestado, enquanto vê numa das telas, entre as muitas dependuradas no teto, um filme cheio de explosões, tiro para todos os lados. O cheiro do óleo torrado é nauseante. É. Talvez tenha demorado muito a regressar.  Fecha os olhos para embaçar a luz intensa. E leva um tremendo susto com o balanço forte do avião. Não tolera altura, não queria estar ali, e essa brincadeira não estava combinada. Segura firme nos braço...

Recomendo o Blog: Como Conversar Com Seres Humanos

 A jornalista Suzana Valença, tem um blog bem legal.  Em Como Conversar Com Seres Humanos , ela fala de Cancelamento ,   Luta contra o racismo ,    Empatia , Ser ouvinte...  Coisinhas de nosso dia a dia sobre as quais poderíamos pensar melhor.

Fábulas de Millor Fernandes: A Causa da Chuva

      Não chovia há muitos e muitos meses, de modo que os animais ficaram inquietos. Uns diziam que ia chover logo, outros diziam que ainda ia demorar. Mas não chegavam a uma conclusão.       – Chove só quando a água cai do teto do meu galinheiro, esclareceu a galinha.       – Ora, que bobagem! disse o sapo de dentro da lagoa. Chove quando a água da lagoa começa a borbulhar suas gotinhas.       – Como assim? disse a lebre. Está visto que chove quando as folhas das árvores começam a deixar cair as gotas d’água que tem dentro.       Nesse momento começou a chover.       - Viram? gritou a galinha. O teto do meu galinheiro está pingando. Isso é chuva!       – Ora, não vê que a chuva é a água da lagoa borbulhando? disse o sapo.      – Mas, como assim? tornava a lebre. Parecem cegos? Não vêem que a água cai das folhas das árvores?  MORAL: ...

Maria Sapeba, Histórias à Brasileira recontadas por Ana Maria Machado

     Há muitos e muitos anos, num lugar que era aqui, tudo era muito diferente.      Tinha muitas árvores com pássaros, muito bicho na mata, muito peixe nos rios e no mar.      E pouca gente, morando em casas de palha e andando sem roupa - os índios. Esses índios caçavam e pescavam muito bem. Com flechas, com armadilhas, ou com um cipó que eles jogavam na água e deixava os peixes tão tontos que dava para pegar com a mão.      Um dos peixes mais gostosos era o que nós chamamos de linguado. Os índios chamavam de marassapé.      É um peixe achatado, que gosta de ficar deitado no fundo do mar, disfarçado de areia. e para disfarçar, ele foi ficando todo esquisito. Não é como os outros peixes, com um olho de cada lado e uma boca no meio da cara. O lado de baixo dele é inteiro liso e branco. No lado de cima, cor de areia, ficam a boca e os dois olhos. Bem torto e diferente.      Um dia, os índios estavam ...

O Sim e o Não, Francisco Azevedo

     Nossa língua tem coisas engraçadas. Exemplo? Aqui, no Brasil, não damos o sim como resposta. Damos o verbo. Você lembra o que aconteceu? Lembro. Quer lembrar mais? Quero. Sae o que isso significa? Sei. E por aí vai sem nunca pronunciarmos um único sim. Com a negativa é diferente. Dizemos não e pronto. Você lembra do que aconteceu? Não. O não é imediato, preciso, definitivo. O sim se omite. O não se impõe. Cismo. Se até no gesto o sim vem antes do não. O recém-nascido, primeiro, diz sim ao peito. Só depois, farto, diz não. Vou mais fundo e me dou conta de que o sim é movimento para cima e para baixo. O não é movimento para os lados. Por isso, para bem ninarmos um bebê, é preciso balançá-lo de leve com sins e não alternados. Ao se familiarizar com os dois polos, ele dormirá tranquilo. Aprendi essa lição nas madrugadas que passei com o Nuno e a Rosário. Vou adiante, descubro possibilidades. A paixão diz sim. A castidade diz não. A tentação diz sim. A virtude diz não. A ...

O Macaco e a Viola (Histórias à Brasileira)

     Antigamente, a cutia tinha rabo mais comprido que o macaco. um dia, os dois estavam na beira da estrada conversando e o rabo dela estava estendido no chão. Veio uma charrete, passou por cima e cortou fora. A cutia ficou cotozinha e começou a chorar:      - Ai! Buá, Buá...      Tem dó       fiquei cotó.      A charrete era de um fazendeiro, que ficou com pena da coitada. E prometeu dar um saco de ouro para compensar o rabo cortado. E disse que todo dia ia mandar dar comida para ela no terreiro da fazenda. E que ia deixar uma mata inteirinha nas terras dele para a cutia correr e fuçar quanto quisesse. Ela podia passar o dia inteiro catando frutas e raízes para comer. Ninguém nunca ia caçar por lá.      A cutia topou, parou de chorar e lá se foi, toda pimpona na charrete com o fazendeiro, receber seu ouro, sua comida e sua mata.      O macaco ficou pensando naquilo. Achou que a cut...

Bateu Vontade de Ler: Deixem Falar As Pedras, Davi Machado

     Não bastasse a fila de livros que tenho para ler, fui apresentada por minha filha e esse autor português de quem nunca tinha ouvido falar.  Vício em livros e curiosidade são uma combinação perfeita. Bateu vontade de ler e, que breve vou na casa dela buscar em prestado.  Que jeito? Esse livro é sobre verdade, mas não necessariamente A verdade. Um velho talvez já caduco conta uma história de décadas passadas para um adolescente que talvez esteja, mentalmente, exagerando tudo que ouve. Talvez. . Deixem Falar as Pedras pergunta quantas verdades podem existir. O que os fatos significam para cada pessoa, como cada um os entende, as diferentes possíveis interpretações da mesma história, e como a memória (afetiva ou real) pode mudar tudo. . O velho conta ao neto o passado ocorrido durante a ditadura em Portugal. Daí, como nós sabemos bem, entram em jogo também as mentiras fabricadas e as versões mal contadas que movem regimes assim. . O que realmente aconteceu? Tem...