Pular para o conteúdo principal

Postagens

Caso Pluvioso, Carlos Drummond de Andrade

A chuva me irritava. Até que um dia descobri que Maria é que chovia. A chuva era Maria. E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo. E meus ossos molhando, me deixava como terra que a chuva lavra e lava. Eu era todo barro, sem verdura... Maria, chuvosíssima criatura! Ela chovia em mim, em cada gesto, pensamento, desejo, sono, e o resto. Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa... Nossa! Não me chovas, Maria, mais que o justo chuvisco de um momento, apenas susto. Não me inundes de teu líquido plasma, não sejas tão aquático fantasma! Eu lhe dizia em vão - pois que Maria quanto mais eu rogava, mais chovia. E chuveirando atroz em meu caminho, o deixava banhado em triste vinho, que não aquece, pois água de chuva mosto é de cinza, não de boa uva. Chuvadeira Maria, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha! Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo, poças d'água gelada ia tecendo. Choveu tanto Maria em minha casa que a correnteza forte criou asa e um rio se formou...

Se Eu Fosse Esqueleto, Ricardo Azevedo

     Se eu fosse esqueleto não ia poder tomar água nem suco porque ia vazar tudo e molhar a casa inteira. Tirando isso, ia acordar e pular da cama feliz como um passarinho. É que ser uma caveira de verdade deve ser muito divertido. Por exemplo. Faz de conta que um banco está sendo assaltado. Aqueles bandidões nojentões, mauzões, armados até os dentões, berrando: - Na moral! Cadê a grana? Se eu fosse esqueleto, entrava no banco e gritava: bu! Bastaria um simples bu e aquela bandidagem ia cair dura no chão, com as calças molhadas de úmido pavor. O gerente e os clientes do banco iam agradecer e até me abraçar, só um pouco, mas tenho certeza de que iam. Se eu fosse caveira, de repente vai ver que eu ia ser considerado um grande herói. Fora isso, um esqueleto perambulando na rua em plena luz do dia causaria uma baita confusão. O povo correndo sem saber para onde, sirenes gemendo, gente que nunca rezou rezando, o Exército batendo em retirada, aquele mundaréu d...

O Caso do Espelho, Ricardo Azevedo

Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata. Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos.  Depois gritou, com o espelho nas mãos: - Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui? - Isso é um espelho - explicou o dono da loja. - Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai. Os olhos do homem ficaram molhados. - O senhor... conheceu meu pai? - perguntou ele ao comerciante. O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira. - É não! - respondeu o outro. - Isso é o retrato do meu pai. É ele, sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito? O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho Naquele dia, o homem que não sabia quase ...

Lições, Mia Couto

Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros. Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios. Careço da habilidade da onda, hei-de aprender a carícia da brisa. Trêmula, a haste me pede o adiar da noite. Em véspera da dádiva, a faca me recorda, no gume do beijo, a aresta do adeus. Não, não aprenderei nunca a decepar flores. Quem sabe, um dia, eu, em mim, colha um jardim? - Mia Couto, em "Idades cidades divindades".  Lisboa:  Editorial   Caminho, 2007. Imagem: Regina Porto

O Que Estou Lendo?

A Mesa da Ralé   Michel Ondaatje Aos onze anos, Michael não sabe o que o espera quando embarca no navio Oronsay com destino à Inglaterra, onde iria estudar e reencontrar a mãe. Ao lado de dois outros garotos que conhece a bordo, aprende a tirar proveito da dupla invisibilidade de que goza o trio, graças a sua condição de passageiros da classe turística e de crianças sem supervisão de adultos. Infiltram-se sem serem notados na primeira classe, em cabines particulares de outros passageiros; passeiam livremente pelos porões de carga.  O narrador é o próprio Michael, já adulto e entregue à rememoração de sua saída definitiva do Oriente. Ao longo desse processo, ele tem notícias de sua prima Emily, com quem havia perdido contato desde o desembarque do Oronsay , e com décadas de atraso reúne as peças que faltavam para compreender um evento misterioso ocorrido a bordo.  Como ele, Emily também ocupou um lugar nas “mesas da ralé”, distantes o quanto possí...

Aprendizagem, Flávio Carneiro

- Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?  - Hã?  - Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo?  - Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha.  A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas.  - Todo dia, mãe?  - É, só que a gente não repara.  - Por quê?  - Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha?  A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder.  - Você é muito ocupada, não é, mãe?  - Hã?  - Nada, não.  A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário.

Riscos Para Um Cartão de Rendeira, Joaquim Cardozo

Os bilros cantam, tecendo Tecendo de renda branca, Com meandros e meneios De folha de mamoeiro; Rastejos na areia solta, Volteios de espuma branca. Os bilros danam, tendo Requebros de saia branca; Pêndulos de sombra fina Nas palmas de um dendezeiro: Para o lá e para o aqui Que leva e traz vela branca. Os bilros cruzam, tecendo Um voo de garça branca... Tão leve! Um sonho? deixado Na fronha de um travesseiro; Um sonho. Linhas de sonho Fiadas de uma nuvem branca. Os bilros contam, tecendo, Segredos de moça branca Que em sal se chorou no mar De tanto amar marinheiro; Tanto sal, tanto chorou Que se fez salina branca. Os bilros param. Tecendo Durezas de pedra branca.   Gravando em letras vazadas O mesmo adeus derradeiro; - Vazio amanhã: sem dia - Futuro: saudade branca. Imagem do google