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A Terra Desolada: T.S.Eliot

  Abril é o mais cruel dos meses, germina Lilases da terra morta, mistura Memória e desejo, aviva Agônicas raízes com a chuva da primavera. O inverno nos agasalhava, envolvendo A terra em neve deslembrada, nutrindo Com secos tubérculos o que ainda restava de vida. O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten, Tomamos café, e por uma hora conversamos. Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch. Quando éramos crianças, na casa do arquiduque, Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó. E eu tive medo. Disse-me ele, Maria, Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos. Nas montanhas, lá, onde livre te sentes. Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno. Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham Nessa imundície pedregosa? Filho do homem, Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces Um feixe de i...

O Agente Secreto Está na Minha Casa

Jaime Bunda - agente secreto , de Pepetela saiu de minha casa para ser lido por alguns amigos chegou de volta ontem, pouco mais de uma ano depois de passar pelo Rio de Janeiro, São Paulo, João Pessoa e Minas Gerais. Sim, mas quem é Jaime Bunda? É um investigador angolano cujo apelido faz óbvia referência à sua anatomia, e que tem a missão de desvendar um crime de dimensões internacionais.   Com esse investigador meio atrapalhado Pepetela estreia em romance policial. Também nesse livro o autor escancara a corrupção e desigualdade social de Angola, mas de forma mais bem humorada.   Tem quantos livros com esse detetive? Somente dois:  Agente Secreto (2001)  e A Morte do Americano (2003) Meu exemplar de O Agente Secreto mal chegou e já vai ser enviado para outra leitora no Rio de Janeiro. Tomara que passe mais um ano sendo apreciado.  Gosto muito dos autores africanos de língua portuguesa e Pepetela é um deles. Recomendo a leitura...

A Noite, Varlam Shalámov

                          O jantar terminou. Gliébov lambeu a tigela demoradamente; juntou com cuidado as migalhas de pão da mesa na palma da mão esquerda, ergueu a mão até a boca e lambeu-a com zelo. Sem engolir, sentiu na boca como a saliva densa e ávida envolvia a bolinha de migalhas de pão. Gliébov não poderia dizer se isso era saboroso. Sabor era outra coisa, pobre demais em comparação com aquela sensação apaixonada e desprendida dada pela comida. Gliébov não tinha pressa de engolir: o próprio pão derretia na boca, e derretia rapidamente. Os olhos brilhantes e encovados de Bagrietsov olhavam fixamente para dentro da boca de Gliébov; não havia em ninguém força de vontade poderosa o bastante para fazer desviar os olhos da comida que desaparecia na boca de outro ser humano. Gliébov engoliu a saliva, e, no mesmo instante, Bagri...

Penetração do Poema das Sete Faces, Elisa Lucinda

                          A Carlos Drummond de Andrade Ele entrou em mim sem cerimônia Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu Na primeira fala eu já falava como se fosse meu O poema só existe quando pode ser do outro Quando cabe na vida do outro Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada Há apenas frases e desabafos pessoais Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz A letra que eu sei que você escreveu  com lágrimas Te amo porque nunca nos vimos E me impressiono com o estupendo conhecimento Que temos um do outro Carlos, me escuta Você que dizem ter morrido Me ressuscitou ontem à tarde A mim a quem chamam viva Meu coração volta a ser uma remington disposta Aprendi outra vez com você A ouvir o barulho das montanhas A  perceber o silêncio dos carros Ontem decorei um poema seu Em cinco minutos Agora dorme, Ca...

Samba do Crioulo Doido, Sérgio Porto

Este é o samba do crioulo doido. A história de um compositor que durante muitos anos obedeceu o regulamento, e só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de inconfidência, abolição, proclamação, Chica da Silva, e o coitado do crioulo tendo que aprender tudo isso para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado: a atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu este samba : Foi em Diamantina onde nasceu j.k. Que a princesa Leopoldina lá resolveu se casar Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes E obrigou a princesa a se casar com Tiradentes Laiá, laiá, laiá, o bode que deu vou te contar Joaquim José, que também é da Silva Xavier Queria ser dono do mundo E se elegeu Pedro Segundo Das estradas de Minas, seguiu pra São Paulo E falou com Anchieta O vigário dos índios Aliou-se a dom Pedro E acabou com a falseta Da união deles dois ficou resolvida a questão E foi proclamada a escravidão Assim se conta essa história Que é ...

O filósofo Platão, Alcântara Machado

(Senhor Platão Soares) Fechou a porta da rua. Deu dois passos. E se lembrou de que havia fechado com uma volta só. Voltou. Deu outra volta. Então se lembrou de que havia esquecido a carta de apresentação para o diretor do Serviço Sanitário de São Paulo. Deu uma volta na chave. Nada. É verdade: deu mais uma. - Nhana! Nhana! Nhana! Nhana apareceu sem meias no alto da escada. - Estou vendo tudo. - Ora vá amolar o boi! Que é que você quer? - Na gaveta do criado-mudo tem uma carta. Dentro de um envelope da Câmara dos Deputados. Você me traga por favor. Não. Eu mesmo vou buscar. Prefiro. - Como queira. E foi buscar. Saiu do quarto e parou na sala de jantar. - Ainda tem geléia ai, Nhana? - No armário debaixo de uma folha de papel. - Obrigado. Escolheu cuidadosamente o cálice. Limpou a colherinha no lenço. Nhana ia passando com o ferro de passar. Mas não se conteve. - Platão, Platão, você não vai falar com o homem, Platão? - Calma. Muita calma....

Espiral, Mia Couto

  No oculto do ventre, o feto se explica como o Homem: em si mesmo enrolado para caber no que ainda vai ser. Corpo ansiando ser barco, água sonhando dormir, colo em si mesmo encontrado. Na espiral do feto, o novelo do afecto ensaia o seu primeiro infinito. No livro Tradutor de Chuvas