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Mostrando postagens com o rótulo devoção

O Retrato da Santa Ficou Na Parede da Sala, crônica de Marcos Cirano

     Certo dia ele acordou e notou que ela não estava mais em casa. Também não deixou um bilhete, nem de uma só palavra: simplesmente sumiu. E fez questão de levar tudo o que era dela, coisas poucas é verdade: roupas, alguns pares de sapatos, um estojo de maquiagem, a coleção de cartas que ele lhe enviara enquanto ainda eram namorados muitos anos atrás e uma pulseira de ouro que ela ganhou no dia em que os dois casaram. O quadro com a imagem de Nossa Senhora de Fátima que ficava na parede da sala, esse ela deixou no mesmo lugar: até porque, embora comprado por ela, aquele objeto sagrado a ninguém pertencia e era preciso que ele continuasse ali, protegendo a casa onde os dois viveram uma bonita e intensa vida por quase seis décadas.      Ele não chorou naquele dia, nem resmungou como de costume quando algo lhe contrariava. Apenas ficou sem entender por que ela partiu em completo silêncio e, justo, num tempo em que a vida seguia sem qualquer desgosto... Fosse...

Autobiografia de Um Só Dia, João Cabral de Melo Neto

     No engenho Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, moravam Luiz Antônio Cabral de Mello e sua mulher Carmem Carneiro Leão Cabral de Mello, meus avós paternos, que preparavam uma viagem para ao Recife, para que Carmem, às vésperas do parto de seu segundo filho (ou filha, na época não dava para saber), seguisse o que decretou seu pai: "Meus netos haverão de nascer todos no sobrado da família às margens da maré", como era conhecido por eles o estuário do Capibaribe, que enche e vaza com as marés do oceano.       São Lourenço da Mata fica a menos de vinte quilômetros do Recife, mas dá para imaginar como deveriam ser as estradas nessa época.      Chegaram de noitinha. Posso sentir o desconforto de minha vó, em final de gravidez fazendo uma viagem dessas.      Ao chegarem, o quarto principal do casarão ainda não tinha sido arrumado para o parto, portanto acomodaram minha avó e sua barriga no quarto dos santos, misto de qua...

Católico Apostólico Piauiense, Carlos Castelo

Fui uma criança educada sob o catolicismo apostólico piauiense. O cristianismo do Meio Norte difere do romano apenas em um aspecto: o fervor.  O que é coerente com a temperatura média do estado, sempre beirando os 40 graus. A grande mentora da minha espiritualidade foi a avó materna. Dona Alzira, pelas minhas contas, só perdeu em número de leituras da Bíblia para Johannes Gutenberg – pai do famoso Livro Sagrado produzido em tipos móveis. Fora a sua exegese bíblica, ainda havia os terços diários, os rosários apressados e os jejuns. Minha mãe reproduzia, de modo mais suave, as práticas místicas. Era devota de Santa Teresinha do Menino Jesus. E, como boa meio-nortista, com grande fervor. Nosso pastor alemão, para que o leitor tenha ideia, se chamava Tom: era xará do cachorro de Teresa de Lisieux. Era natural que eu tivesse influências das duas. Até os 11 anos, quando me perguntavam o que queria ser quando crescer, respondia, sem titubear: “papa”. Quando estava com 16 anos, em pleno M...