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Mostrando postagens de 2020

O Afinador de Silêncios,(Excerto) Mia Couto.

A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

— Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, com…

Nascido em 18 de fevereiro: Lêdo Ivo.

Soneto da Aurora
Quando a aurora se for, não mais seremos o que ora somos, entre a Noite e o Dia, cegos contempladores da magia que no aquário da noite surpreendemos; 
Somos flamas do instante, e em luz ardemos presos eternamente ao que seria  o amor em nossos corpos, alegria do perpétuo horizonte em que nascemos.
Das corolas do céu extraio ardente forma de redenção cativa à hora  em que ao puro lilá fui entregar-me.  . Que somos nós senão a eternidade?  o amor transfigurou-se como a aurora e se extinguiu após enfeitiçar-me.
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Carta de Anyde Beiriz.

Trechos de carta de Anyde Beiriz ao seu grande e verdadeiro amor, Heriberto Paiva (À época, estudante de medicina, 1926) e que a história equivacadamente guardou como haja sido o advogado João Dantas.
"(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor, será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentidos, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela altura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tinhamos sonhado eternos.

Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, …

O Pai Sequestrado, Moacyr Scliar

Os sequestros estão voltando à moda. É verdade que o último terminou bem, mas um dos receios que a gente tem é que a coisa possa se generalizar, passando, por exemplo, da polícia internacional para a polícia familiar.      Imagine a seguinte situação. Num sábado à tarde você está em casa, lendo. Sua mulher saiu. De repente vem seu filho e pede que você o leve ao cinema, ou ao parque ou a qualquer lugar. Você diz que não, que está lendo, e que tem tanto direito à leitura como ele à diversão. Ele insiste, você finca pé. Ele sai, fechando a porta atrás de si. Você, ainda que aborrecido, volta à leitura.      Um minuto depois, um discreto ruido chama sua atenção. É a chave girando na fechadura. Você dá um pulo, corre até a porta - mas é tarde demais: seu filho acabou de trancá-lo no quarto. Abre esta porta, você ordena, no tom imperioso que sua autoridade paterna exige. Não abro, diz o garoto, e estabelece suas condições: só lhe dará a liberdade se você levá-lo ao cinema ( ou ao parque, ou …

Um Sonho de Juana, Eduardo Galeano

Ela perambula pelo mercado dos sonhos. As vendedoras
estenderam sonhos sobre grandes panos no chão.
chega ao mercado a avô de Juana, muito triste
porque faz muito tempo que não sonha. Juano o
leva pela mão e ajuda-o a escolher sonhos, sonhos 
de marzipã ou algodão, asas para voar dormindo, e
vão-se embora os dois tão carregados de sonhos que
não haverá bastante noite.

Quadrinhos Para Reletir.

Por que negligenciamos o vizinho  ou até  o familiar com quem moramos?  É mais fácil justamente porque  sabemos não ter responsabilidade pelos filmes, programas de TV?        Ter como referências pessoas que nunca conhecemos não seria injusto com aqueles filhos que sempre estiveram do nosso lado e são um exemplo de dignidade?   

Fonte: Estadão.

A Arte da Oração, Rubem Alves

Hoje vou escrever sobre a arte de rezar. Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disto. Falam sobre outras coisas, dez mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T. S. Eliot, temos conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte.      A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração.      Por detrás da nossa tagarelice (fal…

Cogito, Torquato Neto

Eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

Eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

Eu sou como eu sou
presente
desfarrolhado indecente
feito em pedaço de mim

Eu sou como sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.


Imagem: caricatura de Torquato Neto, por Acácio Júnior

Alma Nua, Vander Lee

Ó Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestes
Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempo
Pro templo do amor
Que se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorando a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela rua
Deixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cima
Ó meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido
De me apaixonar todo dia
De ser mais jovem que meu filho
E ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho
Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta

Encanto, Marcelo Valença

Umas duas noites atrás choveu. Ainda tem sereno no ar quando o sol começa a nascer e o barro da estrada ainda está razoavelmente assentado. Agora bem cedo seu Ulisses está com as vacas na beira da estrada e os três me parecem contentes. Quando passo ele me acena breve com a cabeça, deixando o sorriso suave durar um pouco mais.
Já a professora Irene me encontrou mais à frente no caminho da escola, como sempre. Ela sorria também e parecia que continuava o sorriso de seu Ulisses. Como se sorrissem no gerúndio.        -Tu pensou na pergunta do consultor?      Ela me perguntou assim bem devagar. E ainda ficou parada como um mandacaru para esperar resposta.      Ora, se pensei! Claro que pensei. Estou pensando ainda agora mesmo e já pensei tanto pensamento que você nem imagina. A Irene é bem intencionada, coitada. Gostou da conversa do consultor e quer sair fazendo da escola uma revolução. Mas não é ela quem tem que responder na secretaria. Quem responde por aquele bando de criança sou eu. …

A Jornalista Suzana Valença Recomenda.

Olá!

   Este mês eu li Factfulness, do médico e pesquisador Hans Rosling (que eu fiquei chamando de velhinho sueco). O livro é um maravilhoso descanso para o monte de notícias ruins que lemos todos os dias. Rosling mostra todo o progresso que a humanidade fez nos últimos séculos e aponta caminhos possíveis para continuarmos evoluindo.  
        Terminei a leitura com uma visão melhor do mundo mas sem "dourar a pílula". O livro é uma coleção de dados, gráficos e estudos. Quando você tiver com vontade de dizer "vem, meteoro", lembre-se que já erradicamos doenças, aumentamos o acesso de crianças à educação, e fazemos arte. Temos a capacidade e a inteligência para resolver os problemas que enfrentamos hoje. 
A jornalista Suzana Valença recomenda o livro Factfulness e eu recomendo o site da jornalista

Só Cinco Vezes Na Vida, José Cândido de Carvalho

Vinte anos poliram o falecimento de Fifi Mendonça. Foi nessa época que a viúva Mendonça confessou para uma amiga do peito:
     — Marido bom era Fifi! Chegava cedo em casa, todo recoberto de pacotes de manteiga e pão quente. Tinha a mania de seguro de vida. Fui a esposa mais segurada de São João de Meriti. Só na hora de dormir é que Mendonça mudava. Vinha de revólver engatilhado e indagava com boca de lobo e olho em fogo: “dona Jurubaldina, onde está o mancebo teu amante, dona Jurubaldina?”. E danava a percorrer os armários de não deixar uma só peça sem vistoria. Quando dava na veneta, subia de gato pelo teto em risco de quebrar a canela. Uma vez foi parar no forro da casa em ceroulas e de garrucha na mão. Como sou mulher direita, em quinze anos de casamento só cinco vezes Mendonça pegou gente dentro do meu guarda-vestido. No mais, foi rebate falso.
Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicom
Caricatura de: Agripino Grieca

Nascido em 12 de janeiro: Rubem Braga

Madrugada

     Todos tinham-se ido, e eu dormi. Mesmo no sonho me picava, como um inseto venenoso, a presença daquela mulher. Via os seus joelhos dobrados; sentada sobre as pernas, na poltrona, descalça, ela ria e falava alguma coisa que não podia perceber, mas era a meu respeito. Eu queria me aproximar; ela e a poltrona recuavam, passavam sob outras luzes que brilhavam em seus cabelos e em seus olhos.      E havia muitas vozes, de homens e de outras mulheres, ruído de copos, música. Mas isso tudo era vago: eu fixava a jovem mulher da poltrona, atento ao jogo de sombra e luz em sua testa, em sua garganta, nos braços: seus lábios moviam-se, eu via os dentes brancos, ela falava alegremente. Talvez fosse alguma coisa dolorosa para mim, eu percebia trechos de frases, mas ela estava tão linda assim, sentada sobre as pernas, os joelhos dobrados parecendo maiores sob o vestido leve, que o prazer de sua visão me bastava; uma luz vermelha corou seu ombro esquerdo, desceu pelo braço com uma …

Nascido em 9 de janeiro: João Cabral de Melo Neto

O Poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, faria hoje 100 anos. Para quem está acostumado a ligar o autor  a Morte e Vida Severina,  recomendo assistir a essa obra em animação.  Nunca viu?  Vai lá. 

Mas se você quiser vê-lo como um avô ou até como apreciador de futebol, tenho essas sugestões:

Esta criancinha é Dandara que teve um avô apaixonado, como a maioria dos netos, mas com o privilégio deste avô ser um poeta. Me devo isso esse livro.
A filha do poeta, Inês Cabral, estava fazendo o filme O Auto do Frade, baseado no poema do mesmo nome, em 2013 quando fiz essa postagem. O poema de João Cabral de Melo Neto conta a história de Frei Caneca. Não sei se o filme ficou pronto. Alguém me informa?
Aprendi com Juca Kfouri  e com Inês Cabral sobre o atleta e torcedor João Cabral.  Como sabemos João Cabral de Melo Neto foi jogador do Santa Cruz F.C do Recife porque a mãe dele queria, mas ele torcia por outro time o América.  Na postagem, um poema típico do apaixonado pela seleção brasileira.

Vej…

Morte e Vida Severina | Animação - Completo

Nascido em 4 de janeiro: Casimiro de Abreu

Desejo Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só’ por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então! Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão; Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução; Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão; Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão; Se a voz fosse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção; E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação; …