quinta-feira, 30 de março de 2017

Alguma Coisa Urgentemente, João Gilberto Noll

    
Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:
     — Quando é que você vai morrer?
     — Não vou te deixar sozinho, filho!
    Falava-me com o olhar visivelmente emocionado e contava que antes me ensinaria a ler e escrever. Ele fazia questão de esquecer que eu sabia de tudo o que se passava com ele. Pra que ler? — eu lhe perguntava. Pra descrever a forma desta árvore — respondia-me um pouco irritado com minha pergunta. Mas logo se apaziguava.
      — Quando você aprender a ler vai possuir de alguma forma todas as coisas, inclusive você mesmo.
       No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (Dizem que passava armas a um grupo não sei de que espécie.) Tinha na época uma casa de caça e pesca em Ponta Grossa e já não me levava a passear.
      No dia em que ele foi preso, eu fui arrastado para fora da loja por uma vizinha de pele muito clara, que me disse que eu ficaria uns dias na casa dela, que o meu pai iria viajar. Não acreditei em nada mas me fiz de crédulo como convinha a uma criança. Pois o que aconteceria se eu lhe dissesse que tudo aquilo era mentira? Como lidar com uma criança que sabe?
      Puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. O padre-diretor me olhou e afirmou que lá eu seria feliz.
      — Eu não gosto daqui.
      — Você vai se acostumar e até gostar.
     Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar a comida dos padres. Eu ficava de pau duro e mostrava aos colegas. Mostrava as maçãs e os doces do roubo. Contava do meu pai. Um deles me odiava. O meu pai foi assassinado, me dizia ele com ódio nos olhos. O meu pai era bandido, ele contava espumando o coração.
      Eu me calava. Pois se referir ao meu pai presumia um conhecimento que eu não tinha. Uma carta chegou dele. Mas o padre-diretor não me deixou lê-la, chamou-me no seu gabinete e contou que o meu pai ia bem.
      — Ele vai bem.
     Eu agradeci como normalmente fazia em qualquer contato com o padre-diretor e saí dizendo no mais silencioso de mim:
      — Ele vai bem.
       O menino que me odiava aproximou-se e falou que o pai dele tinha levado dezessete tiros.
      Nas aulas de religião o padre Amâncio nos ensinava a rezar o terço e a repetir jaculatórias.
      — Salve Maria! — ele exclamava a cada início de aula.
      — Salve Maria! — os meninos respondiam em uníssono.
     Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. O padre-diretor me perguntou:
      — Você quer ir?
      Olhei para meu pai e disse que eu já sabia ler e escrever.
      — Então você saberá de tudo um dia — ele falou.
     O menino que me odiava ficou na porta do colégio quando da nossa partida. Ele estava com o seu uniforme bem lavado e passado.
     Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. Lia um jornal.
      Em São Paulo fomos para um quarto de pensão onde não recebíamos visitas.
     — Vamos para o Rio — ele me comunicou sentado na cama e com o braço que lhe restava sobre as pernas.
      No Rio fomos para um apartamento na Avenida Atlântica. De amigos , ele comentou.  Mas embora o apartamento fosse bem mobiliado, ele vivia vazio.
      — Eu quero saber — eu disse para o meu pai.
      — Pode ser perigoso — ele respondeu.
      E desliguei a televisão como se pronto para ouvir. Ele disse não. Ainda é cedo. E eu já tinha perdido a capacidade de chorar.
      Eu procurei esquecer. Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. Comia a empregada do Alfredinho, um amigo do colégio, e, na praia, precisava sentar às vezes rapidamente porque era comum ficar de pau duro à passagem de alguém. Fingia então que observava o mar, a performance de algum surfista.
      Não gostava de constatar o quanto me atormentavam algumas coisas. Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento da Avenida Atlântica sem que ninguém tomasse conhecimento. E eu já tinha me acostumado com o mistério daquele apartamento. Já não queria saber a quem pertencia, porque vivia vazio. O segredo alimentava o meu silêncio. E eu precisava desse silêncio para continuar ali. Ah, me esqueci de dizer que meu pai tinha deixado algum dinheiro no cofre. Esse dinheiro foi o suficiente para sete meses. Gastava pouco e procurava não pensar no que aconteceria quando ele acabasse. Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai sem remorsos a cada exigência do colégio.
      Eu não dava bola para a limpeza do apartamento. Ele estava bem sujo. Mas eu ficava tão pouco em casa que não dava importância à sujeira, aos lençóis encardidos. Tinha bons amigos no colégio, duas ou três amigas que me deixavam a mão livre para passá-la onde eu bem entendesse.
     Mas o dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite, quando notei um grupo de garotões parados na esquina da Barão de Ipanema, encostados num carro e enrolando um baseado. Quando passei, eles me ofereceram. Um tapinha? Eu aceitei. Um deles me disse olha ali, não perde essa, cara! Olhei para onde ele tinha apontado e vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. Vai lá, eles me empurraram. E eu fui.
      — Quer entrar? — o homem me disse.
      Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro.
      — Trezentas pratas — falei.
      Ele abriu a porta e disse entra, o carro subiu a Niemeyer, não havia ninguém no morro em que o homem parou. Uma fita tocava acho que uma música clássica e o homem me disse que era de São Paulo. Me ofereceu cigarro, chiclete e começou a tirar a minha roupa. Eu pedi antes o dinheiro. Ele me deu as três notas de cem abertas, novinhas. E eu nu e o homem começando a pegar em mim, me mordia de ficar marca, quase me tira um pedaço da boca. Eu tinha um bom físico e isso excitava ele, deixava o homem louco. A fita tinha terminado e só se ouvia um grilo.
      — Vamos — disse o homem ligando o carro.
      Eu tinha gozado e precisei me limpar com a sunga.
     No dia seguinte meu pai voltou, apareceu na porta muito magro, sem dois dentes.   Resolvi contar:
      — Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas.
     Meu pai me olhou sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo:
     — Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura. Vão te descobrir mas não dê uma única declaração, diga que não sabe de nada. O que e verdade.
      — E se me torturarem? — perguntei.
      — Você é menor e eles estão precisando evitar escândalos.
     Eu fui para a janela pensando que ia chorar, mas só consegui ficar olhando o mar e sentir que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Virei a cabeça e vi que meu pai dormia. Aliás, não foi bem isso o que pensei, pensei que ele já estivesse morto e fui correndo segurar o seu único pulso.
      O pulso ainda tinha vida. Eu preciso fazer alguma coisa urgentemente, a minha cabeça martelava. É que eu não tinha gostado de ir com aquele homem na noite anterior, meu pai ia morrer e eu não tinha um puto centavo. De onde sairia a minha sobrevivência? Então pensei em denunciar meu pai para a polícia para ser recebido pelos jornais e ganhar casa e comida em algum orfanato, ou na casa de alguma família. Mas não, isso eu não fiz porque gostava do meu pai e não estava interessado em morar em orfanato ou com alguma família, e eu tinha pena do meu pai deitado ali no sofá, dormindo de tão fraco. Mas precisava me comunicar com alguém, contar o que estava acontecendo. Mas quem?
      Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. E eu não tinha arranjado mais um puto centavo. Ainda bem que tinha um amigo vendedor daquelas carrocinhas da Geneal que me quebrava o galho com um cachorro-quente. Eu dizia bota bastante mostarda, esquenta bem esse pão, mete molho. Ele obedecia como se me quisesse bem. Mas eu não conseguia contar para ele o que estava acontecendo comigo. Eu apenas comentava com ele a bunda das mulheres ou alguma cicatriz numa barriga. É cesariana, ele ensinava. E eu fingia que nunca tinha ouvido falar em cesariana, e aguçava seu prazer de ensinar o que era cesariana. Um dia ele me perguntou:
      — Você tem quantos irmãos?
      Eu respondi sete.
      — O teu pai manda brasa, hein?
     Fiquei pensando no que responder, talvez fosse a ocasião de contar tudo pra ele, admitir que eu precisava de ajuda. Mas o que um vendedor da Geneal poderia fazer por mim senão contar para a polícia? Então me calei e fui embora.
     Quando cheguei em casa entendi de vez que meu pai era um moribundo. Ele já não acordava, tinha certos espasmos, engrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. Mas dessa vez eu não fiquei assistindo e procurei ajudar o velho. Levantei a cabeça dele, botei um travesseiro embaixo e tentei conversar com ele.
      — O que você está sentindo? — perguntei.
      — Já não sinto nada — ele respondeu com uma dificuldade que metia medo.
      — Dói?
      — Já não sinto dor nenhuma.
      De vez em quando lhe trazia um cachorro-quente que meu amigo da Geneal me dava, mas meu pai repelia qualquer coisa e expulsava os pedaços de pão e salsicha para o canto da boca. Numa dessas ocasiões em que eu limpava os restos de pão e salsicha da sua boca com um pano de prato a campainha tocou. A campainha tocou. Fui abrir a porta com muito medo, com o pano de prato ainda na mão. Era o Alfredinho.
      — A diretora quer saber por que você nunca mais apareceu no colégio — ele perguntou.
       Falei pra ele entrar e disse que eu estava doente, com a garganta inflamada, mas que eu voltaria pro colégio no dia seguinte porque já estava quase bom. Alfredinho sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada.
      Quando ele sentou no sofá e que eu notei como o sofá estava puído e que Alfredinho sentava nele com certo cuidado, como se o sofá fosse despencar debaixo da bunda, mas ele disfarçava e fazia que não notava nada de anormal, nem a barata que descia a parede à direita, nem os ruídos do meu pai que às vezes se debatia e gemia no quarto ao lado. Eu sentei na poltrona e fiquei falando tudo que me vinha à cabeça para distraí-lo dos ruídos do meu pai, da barata na parede, do puído do sofá, da sujeira e do cheiro do apartamento, falei que nos dias da doença eu lia na cama o dia inteiro umas revistinhas de sacanagem, eram dinamarquesas as tais revistinhas, e sabe como é que eu consegui essas revistinhas?, roubei no escritório do meu pai, estavam escondidas na gaveta da mesa dele, não te mostro porque emprestei pra um amigo meu, um sacana que trabalha numa carrocinha da Geneal aqui na praia, ele mostrou pra um amigo dele que bateu uma punheta com a revistinha na mão, tem uma mulher com as pernas assim e a câmera pega a foto bem daqui, bem daqui cara, ó como os caras tiraram a foto da mulher, ela assim e a câmera pega bem desse ângulo aqui, não é de bater uma punheta mesmo?, a câmera pertinho assim e a mulher nua e com as pernas desse jeito, não tou mentindo não cara, você vai ver, um dia você vai ver, só que agora a revistinha não tá comigo, por isso que eu digo que ficar doente de vez em quando é uma boa, eu o dia inteiro deitado na cama lendo revistinha de sacanagem, sem ninguém pra me aporrinhar com aula e trabalho de grupo, só eu e as minhas revistinhas, você precisava ver, cara, você também ia curtir ficar doente nessa de revistinha de sacanagem, ninguém pra me encher o saco, ninguém cara, ninguém.
      Aí eu parei de falar e o Alfredinho me olhava como se eu estivesse falando coisas que assustassem ele, ficou me olhando com uma cara de babaca, meio assim desconfiado, e nem sei bem o que passou pela cabeça dele quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, eu mesmo levei um susto de ouvir meu pai me chamar pelo meu nome, e me levantei meio apavorado porque não queria que ninguém soubesse do meu pai, do meu segredo, da minha vida, eu queria que o Alfredinho fosse embora e que não voltasse nunca mais, então eu me levantei e disse que tinha que fazer uns negócios, e ele foi caminhando de costas em direção à porta, como se estivesse com medo de mim, e eu dizendo que amanhã eu vou aparecer no colégio, pode dizer pra diretora que amanhã eu converso com ela, e o meu pai me chamou de novo com sua voz de agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, e eu disse tchau até amanhã, e o Alfredinho disse tchau até amanhã, e eu continuava com o pano de prato na mão e fechei a porta bem ligeiro porque não aguentava mais o Alfredinho ali na minha frente não dizendo nem uma palavra, e fui correndo pro quarto e vi que o meu pai estava com os olhos duros olhando pra mim, e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.

Fonte: Releituras


segunda-feira, 27 de março de 2017

Segunda-feira poética: Supremo Anelo, Leodegária de Jesus


Voltar a ti, ó terra estremecida,
E ver de novo, à doce luz da aurora,
O vale, a selva, a praia inesquecida,
Onde brincava pequenina outrora;

Ver uma vez ainda essa querida
Serra Dourada que minh'alma adora;

E o velho rio, o Cantagalo, a ermida,
Eis o que sonho unicamente agora.

Depois… morrer fitando o sol no poente,
Morrer ouvindo ao desmaiar fagueiro
Da tarde estiva o sabiá dolente.

Um leito, enfim, bordado de boninas,
Onde dormisse o sono derradeiro,
Sob essas verdes, plácidas colinas.


Sobre a autora:Conforme alguns autores, teria nascido em Caldas Novas (GO), em 08.08.1889, mas teria adotado Jataí como sua cidade natal (1891). Estudou no Colégio Santana, de Goiás Velho. Leodegária foi criada em Jataí, onde colaborou com a imprensa, passando por outros estados como Espírito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas. Um de seus escritos poéticos que foi intitulado “Voo cego” chegou a ser reproduzido e comentado por Joaquim Osório Duque Estrada. Foi uma das redatores do jornal “A Rosa” ao lado de Cora Coralina, em 1907. Depois de passar por várias cidades goianas, mudou-se para Minas Gerais. Faleceu em Belo Horizonte (MG) em 12/07/1978. Escreveu, entre outros livros, Orquídias (1928), Coroa de lírios (1906). Foi criteriosamente estudada por Basileu Toledo França, no livro Poetisa Leodegária de Jesus; e por Darcy França Denófrio em Lavra dos Goiases III Leodegária de Jesus




domingo, 26 de março de 2017

História bonita (18): Dona Leonides era analfabeta até os 67 anos.

Idosa aprende a ler aos 67anos e, aos 79, se forma em universidade do Rio

Dona Leonides Victorino cursou História da Arte na Uerj.
Ela não sabia ler até os 67 anos: 'Era triste, falavam que era analfabeta'.

Dona Leonides passou a infância na lavoura. Começou a trabalhar como doméstica e lavadeira, mas nunca perdeu o foco. “Eu era meio triste, as pessoas falavam que era analfabeta, parecia que tinha uma faca que cortava o coração”, contou ela.
Foi quando ela, aos 67 anos, decidiu botar em prática o sonho de aprender a ler e escrever, junto dos cinco netos.
Em 2014, mais uma conquista. Dona Leonides se formou em História da Arte na Universidade da Terceira Idade, na Uerj. “Eu sonho grande, não sonho pequeno, não”, brincou ela.

Veja matéria aqui
Imagem: Verdi Comunicação 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Quarta-feira é dia de: Viagem Ao Fim do Mundo, Marlene Canarim Danesi



 Quando depois de muito mar, de muito amor.
Emergindo de ti, ah,que silêncio pousa. Ah,que tristeza cai sobre o mergulhador. 
Vinícius de Moraes.

Ushuaia, cidade do fim do mundo. Destino decidido às pressas, por Helena, de acordo com recomendação médica. Depois de uma reação alérgica grave, Stevens Johnson, mesmo já recuperada, o dermatologista insiste: precisas abandonar o calor e procurar um lugar frio. Uma amiga recomenda a Terra do Fogo. Em 1979, só se chegava a Patagônia Argentina via marítima. A companhia italiana Costa C era a única que operava no Brasil. O navio que fazia a rota até Ushuaia era o Eugenio C. Quando compra as passagens, Helena não imagina que vai viver um dos mais tórridos romances de sua vida.
     O ambiente do navio é agradável, são apenas 800 passageiros. A programação é diversificada, para todos os gostos. Aulas de ginástica, de dança, de italiano, de culinária e natação. Almoço nos restaurantes ou na beira da piscina. À noite, depois do jantar, os hospedes se dividem, uns assistem shows ou vão ao cinema. Alguns preferem dançar e outros tentam a sorte no cassino. Férias muito boas, mas calma demais para o temperamento de Helena.
     Aproveita a monotonia da viagem para ler ou escrever no diário. Em uma tarde ensolarada, senta-se no balcão do bar. Entediada olha guias turísticos, conversa com o barman, um simpático jamaicano, que canta enquanto prepara o coquetel que ela prefere. De repente, vê um belo homem saindo da piscina.Helena coloca os óculos de aros negros, que contrastam com a túnica branca que veste. Prende com uma fivela dourada os cabelos,que o vento teima em embaraçar, e passa batom em seus lábios carnudos.
     O barman percebe o interesse de Helena, e comenta: se a Srta, gostou dele teve sorte, Giuseppe Donato,capo de máquina, quase não aparece por aqui. É o engenheiro mecânico responsável pela condução do navio.
Está sempre muito ocupado. Giuseppe veste um roupão branco, que realça com sua pele morena. Ele se aproxima, com um sorriso sedutor, e pede licença para oferecer o próximo drink. Imediatamente inicia uma conversação: você é muito elegante, tem um porte diferenciado, me chamou atenção desde a noite do coquetel do comandante. Adoro mulheres magras, morenas e altivas. Helena pensa: é um pouco atrevido este tripulante,mas homens audaciosos me atraem.
     Conversam um bom tempo. Foi amor a primeira vista. À noite, Giuseppe a aguarda no hall da boate.Helena está tensa. Ele se aproxima, passa os braços em sua cintura, e pergunta se ela não quer apoiar a cabeça em seu ombro. Sorri e a chama de querida. De forma carinhosa a conduz até a pista de dança. A música executada pela orquestra é Champanhe. Beija seu pescoço, enquanto as mãos descem pelo decote. Continuam a noite dançando músicas românticas. A viagem está perfeita. Durante o dia, Helena segue a programação do navio, as noites têm a companhia de Donato.
     Chegam a Ushuaia, a Cidade do Fim do Mundo, situada na Ilha Nacional da Terra do Fogo. Formada por montanhas, glaciares, bosques, lagos, pântanos, extensões de campos desérticos e rica fauna. De um lado os Andes, gigantes nevados. Do outro o oceano gelado, rico em espécies marinhas, pinguins, focas, baleias e orcas. Ushuaia é um verdadeiro deleite para os olhos.
     O navio atraca. É uma manhã fria, Helena veste meias de lã, botas, casaco e gorro de pele de foca. Donato já esteve muitas vezes lá. Convida Helena para embarcar no Trem do Fim do Mundo: é um passeio interessante, conta a história da cidade, que iniciou com a construção de um presídio, e leva ao Parque nacional.
Mas a noite, quero te levar a jantar no Elvira, especializado em frutos do mar, e a Centolla ( caranguejo gigante) é um dos pedidos obrigatórios.
     No dia seguinte navegam no Canal de Beagle, visitam a Ilha dos Lobos e vão até o Farol do Fim do Mundo. O jantar é um cordeiro patagônico. De volta ao navio, Giuseppe faz um convite: esta noite quero que você venha conhecer a parte reservada da tripulação. Ela aceita. Ouvem música, e se amam. Estão excitados pelo cheiro que vem do mar. Helena se entrega por inteiro e lhe oferece o corpo com generosidade. Ele sente uma espécie de triunfo inundados pelo orgasmo. Olha Helena que dorme profundamente como se dorme depois do amor.
Amaram-se durantes os dias e noites, enquanto durou a viagem. Quando se despedem, a grande revelação,Donato é casado.
     Helena adora a Patagônia, já retornou lá, mais três vezes. Conheceu outros lugares arrebatadores,apreciou o clima, as cores, os cheiros, os sabores, todos inconfundíveis. Mas a magia da primeira vez, não se repetiu. Fez falta o marinheiro experiente, que soube mostrar com maestria os encantos da Terra do Fogo,deixando ainda algumas lições. Uma delas Helena lembra sempre, quando retorna aos lugares onde viveu momentos tão intensos e que pareciam ser tão verdadeiros.

     Ouve então a voz agradável de Donato, acariciando seus ouvidos: existem muitos tipos de amores; todos parecem eternos enquanto novidade, mas cada um é único, se vivenciado intensamente. E nós acabamos de experimentar emoções inesquecíveis. Foi um presente em nossa viagem ao Fim do Mundo. 


In As Viagens de Helena, Danesi, Marlene Canarim
1ª ed., Porto Alegre, AGE 2016, pág.37-39.


Nota:  a postagem do texto foi gentilmente autorizada pela autora a quem agradeço também o envio do livro.

Imagem: Ushuaia 

segunda-feira, 20 de março de 2017

A Elegia do Outono, Olegário Mariano

No bailado das folhas amarelas
Velhinho trêmulo e setuagenário
Rico se sensações e de lendas singelas,
O outono aí vem...  Segundo reza o calendário.

Aí vem de novo o céu nevoento...
As árvores já estão tristes e pensativas:
O outono deve atuar no sentimento
Das crianças vibráteis e emotivas.

A alma de poeta que ama o silêncio e o abandono
Num reflexo diluído de ametistas,
Vendo e sentindo o outono,
Canta felicidades nunca vistas.

O outono aí vem sonâmbulo...Trescala
Com ele um cheiro novo de folhagem.
O outono é humano, o outono fala
Pelo gesto indeciso da paisagem...

Não há sol. A neblina passa rente
Da superfície azul da água estagnada.
As folhas cantam comovidamente
Canções de notas verdes pela estrada...

E vão morrer depois fracas e débeis
Contorcidas em gestos de ansiedade...
Vendo-a, afino as cordas flébeis
Da minha extrema sensibilidade.

O outono lembra frases murmuradas
Ao ouvido de alguém num gesto lento:
Levou o outono as tuas mãos fanadas
E atirou-as com pétalas ao vento...

O outono é a última nota agonizante
De um velho órgão plangendo, emocional,
No coração bruxuleante
De alguma velha catedral.

Outono! Evocação de coisas mortas!
.... Folha que andaste, asa perdida no ar,
Por que fugiste às outras portas
E vieste à minha porta agonizar?

Ah folha morta! Assim desiludida,
Rolando ao léu do acaso pelo chão,
És um farrapo trêmulo de vida...
Um velho trapo de recordação.

Mariano, Olegário
Toda uma vida de poesia, vol.1, pag 55-56

Nota: o blog atualizou a ortografia.
Imagem: Regina Porto.

domingo, 19 de março de 2017

História Bonita (17): Wemerson, filho de lavradores concorre ao Global Teacher Prize



Um dos dez melhores  professores do mundo tem apenas 26 anos, é filho de lavradores, nasceu e cresceu em uma cidade do interior do Espírito Santo e precisou lidar com traficantes de drogas e alunos que portavam armas de fogo nas escolas onde lecionou. O biólogo Wemerson da Silva Nogueira, natural de Nova Venécia, a 200 quilômetros da capital. Vitória, é finalista do Global Teacher Prize, uma espécie de Nobel do giz e lousa que recompensa com 1 milhão de dólares ao longo de dez anos um mestre que tenha feito grande contribuição à profissão. O anúncio do vencedor acontece neste domingo,19, em Dubai – será a primeira viagem internacional de Wemerson., Em cinco anos de carreira na educação básica,  o capixaba criou planos de conscientização conta o uso de drogas e lecionou com música e aplicativos para celular.
No projeto Filtrando as Lágrima do Rio Doce, implantado no ano passado, ensinou a tabela periódica por meio da análise de elementos químicos encontrados na água após o rompimento da barragem de Mariana. Também mobilizou estudantes para distribuir filtros entre as comunidades ribeirinhas. Pela iniciativa, tornou-se vencedor de prêmios como Educador Nota 10, uma realização da Fundação Victor Civita e da Fundação Roberto Marinho. Neste ano, mudou-se para Vitória, onde passou a trabalhar em uma faculdade privada nos ursos de pedagogia, engenharia elétrica e da computação.

Veja mais sobre o professor clicando em: Época ou G1 ou Gazeta on line ou Tribuna on line

Fonte:
Entrevista concedida a Meire kusumoto
Páginas Amarelas Revista Veja Ed.2522,22 de março de 2017.

Nota: O Global Teacher Prize, foi entregue a Maggie MacDonnel