domingo, 22 de setembro de 2013

Quem dá e volta a tomar...., Regina Porto

     Vira as costas para o mar.   
     Além de perder a bela visão, não sei qual o castigo que pode sofrer alguém que, por ventura, dê as costas para o mar.  Minha mãe, de quem ouvi o provérbio português, também não sabia... 
    Bem, morando em cidade litorânea tenho mais chances de estar de frente, como agora que tenho a Oceano Atlântico numa visão de 180°, mas ocasionalmente vou ficar de costas, mesmo que não tivesse pedido de volta algo que dei há 37 anos.   
     Regina, que coisa feia!! Deu e  tomou? Sim, dei um livro lá longe em anos passados e pedi de volta. Não queria sabê-lo abandonado sem leitura transformado em pó pelas traças. 
     Com o exemplar nas mãos, me vi muito muito jovem, estudante na Unicap.  Lembro muito bem: professora Irandé, cobrava lição, explicava gramática a partir daquelas crônicas. Era exigente, mas amável e usava uns colares de contas grandes e coloridas. Um dia contou que teve sua casa  assaltada e um colega mais gaiato, perguntou se os ladrões tinham deixado os colares.  Professor Leonildo: brincalhão, jovem, permanentemente encantado por todas as mulheres. Ambos, com a mesma didática, usavam o livro Elenco de Cronistas Modernos.  
     Apesar do mau estado de conservação, o reencontro  com o exemplar me deu alegria. Revi boas crônicas e dei de cara comigo mesma estudante de vinte e poucos anos. Achei engraçado descobrir que eu desconhecia o significado de dezoito  palavras de um só texto.       
     Eu não sabia o que era eloqüente! Sim, naquela época  com o charmoso trema.           Como eu era ignorante!  Paulo Mendes Campos me apresentou a muitas palavras novas, dentre elas, barafunda e lisura.



Ahhhhhhh, mas também fiquei orgulhosíssima de saber que minhas conhecidas monocotiledôneas, dicotiledôneas e fanerógamos estavam lá em Fábula Eleitoral Para Crianças, que este blog vai trazer quarta-feira dia 25.  Eu era estudante de biologia, essas palavras tinham belos sons. Botânica!!! 




  "... De olhos  muito menos redondos, mais secretos, mais aos risos e na cara prognata e..."  É assim que Clarice Lispector se refere a Lisette, uma macaquinha... do livro A Legião Estrangeira. E eu sabia o que era prognata?   Nessa crônica que li na juventude vi apenas a história de 2 macacos, sendo que a Lisette foi comprada na rua.  Ontem, quando reli, tive um olhar bem diferente e voltado para a autora. Notei bom humor e ternura em Clarice. 





Gostei de ver tudo o que aprendi com Elenco de Cronistas Modernos. No livro estão também minha dedicatória, com uma letra que há muito já não tenho; a letra da música: Sonho Impossível, que eu não sei porque está na última folha, escrita a lápis. Diversas anotações sobre quais os textos para quais provas e a marca da assinatura do primeiro dono. Eu comprei num sebo que naquele ano se instalou no andar térreo do Bloco A da Unicap. 





Dei o livro a uma sobrinha tão logo terminei os dois períodos escolares em que precisei dele. Esperava que em algum momento ela lesse e gostasse de algum autor ou texto. 
Nunca leu. Não lembrava que muito de mim estivesse com ele, mas imaginando que devido ao abandono se ela ainda possuísse o livro, este  poderia estar alimentando traças, não temi virar as costas para o mar. Pedi de volta. Fiz bem. Ah, neste momento continuo com o mar à minha frente.




Monocotiledônea - angiosperma que tem um só cotilédone. Ex. cana de açúcar,milho

Dicotiledônea- angiospermas que tem dois cotilédones. Ex. feijão, amendoim.

Fanerógama- um dos dois grupos nos quais Lineu dividiu o reino vegetal, constituído pelas angiospermas e gimnospermas [Como grupo sistemático, é ultrapassado; no entanto, permanece o uso do termo para designar qualquer vegetal que se reproduz através de sementes, em vez de esporos ou gametas.]
Prognata- o que tem o queixo projetado pra frente.