quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Louvação, Rubem Braga



Já escrevi sobre isso: mas a coisa me impressionou, e além do mais ainda não recebi os jornais, são seis e quarenta, e Chico Brito combinou de passar às 8 horas para irmos às enxovas. Se começar a procurar assunto, acabo perdendo  a pescaria. E acontece que há pouco , quando acordei,eu estava sonhando com isso. Via um homem de avental e touca, como se fosse um sacerdote, mas um sacerdote em paramentos brancos de padeiro. E ele erguia à luz um pequeno pão branco. A luz era a mesma de meu quarto, um raio de sol fraco e louro: e o pequeno pão brilhava  como hóstia e o homem dizia: “É puro, é puro.”
      O jornal deu esse caso do padeiro de Brás de Pina que foi autuado por estar fabricando pão com farinha de trigo pura. Entende-se que a Prefeitura tem razão. Temos pouco trigo – precisamos misturá-lo. O padeiro será punido, mas que ele ouça esse canto matinal em seu favor.
     Glória a ti, padeiro de Brás de Pina, padeiro do pão puro.
     Entre o falso leite, a falsa arte, a falsa crítica de arte, o falso dinheiro do governo, a falsa palavra do político; entre a falsa mulher, a falsa meia de nylon, a falsa campanha e a falsa democracia – glória a ti.  Mergulhamos no frenesi das falsificações; nossos panos são de falsos tecidos, os sapatos de falso couro, as garrafas de falsa bebida, as palavras de falsa moral. Há orquestras tocando falsas músicas e oradores com voz embargada, pela falsa emoção; e o chefe da Polícia resolve punir falsos crimes. Os partidos fazem falsa coalizão ou se colocam em falsa oposição ou hipotecam falso apoio; e todos comem a falsa manteiga, bebem água de falsa pureza e tomam falsos banhos sem água. De tudo nos queixamos aos falsos amigos; e todos nos fazem falsas promessas, e nos oferecemos falsos banquetes; quando tudo piora, o povo nas ruas promove falsos distúrbios, quebrando falsos artigos de falsos comerciantes.

Tú, só tu, fazes o puro pão. Às escondidas, nesta cidade pecaminosa; contra as posturas municipais e contra os costumes; é aí, na penumbra de Brás de Pina, que formas a tua massa pura e a levas ao forno de verdadeiro fogo do ideal, ao fogo do teu coração. Glória a ti, verdadeiro padeiro, último preparador da branca hóstia da verdade eterna e terrena do pão dos homens: glória a ti.
     Sim, glória ao padeiro que acredita no pão. Não acreditam na paz os homens que a fazem; até a guerra a fizeram sem acreditar. Glória a ti, padeiro que fazes pão.
(In:Braga, Rubem,200 crônicas escolhidas - Ed.Record)

2 comentários:

  1. Olá Neto,
    Fico feliz com sua visita. Rubem Braga, me impressiona. Um crônica por dia duarante anos! Talento de usar as palavras, com poesia, ironia, bom humor... e, especificamente em Louvação, a crítica é atual, não?

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