quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma Senhora, Marques Rebelo

     Dona Quinota não se importava com a aspereza do ano inteiro. Com ela era ali no duro - trabalho, trabalho e mais trabalho. O ordenado das empregadas, na verdade, era uma pouca vergonha que a polícia devia pôr um paradeiro. Não punha. Vivia metida com a maldita política. Falta duma boa revolução!.. Ah! se ela fosse homem!... Enquanto a revolução não vinha para botar tudo nos eixos, obrigando-a a endireitar empregadas, fazia de criada - cozinhava, varria, cosia, Encerava a casa também, aos sábados, depois que disseram pelo rádio ser higiênico e muito econômico.
     - Econômico? Então se encera mesmo.
     O marido, que já estava acostumado àquelas resoluções, largou no melhor pedaço o volume de Os Miseráveis, meteu sobre o pijama a gabardine cheirando a gasolina na gola e foi telefonar para a loja de ferragens, pedindo duas latas de cera - da boa, vê lá! - chorando um abatimentozinho na escova e na palha de aço: está ouvindo, seu Fernandes?
     Estava sempre para tudo, que,  graças a Deus, era mulher forte. Saira à mãe, que também o fora, morrendo velha de desastre, desastre doméstico, uma chaleira de água fervendo para o escalda-pé do marido, um coronel reformado, que lhe virou por cima do corpo.
     Nunca se queixava da vida. Não ia à cidade passear, as suas compras eram em regra feitas pelo marido, precisava que a fita fosse muito falada para ela se abalar até o cinema do bairro, onde cochilava a bom cochilar; contavam-se os domingo em que ia à missa, não fazia visitas, nem recebia.
     Não reclamava o trabalho que lhe davam os filhos, três desmazelados que andavam na escola pública, Élcio, Élcia e Elcina, respectivamente quinze, quatorze e treze anos, o que atesta bem a força do marido e dá  ideia o que seria depois de dez anos de casada, se depois de Elcina não tomasse as devidas precauções.
     - Não se esqueçam de dar lembranças à Dona Margarida - aconselhava na hora da saida, enquanto punha nas bolsas as bananas e o pão com manteiga da merenda.Dona Margarida fora sua amiga no colégio das Irmãs, uma bicha no francês, cearense, um talento! Mandar lembranças para ela equivalia a dizer: Olha que são meus filhos, Margarida; filhos de tua amiga Quinota.
     E os exames estavam perto, comprêmios de cadernetas da Caixa Econômica dados pelo prefeito, ridicularizados pelos jornais oposicionistas, elogiados pelos do governo - a Folha  dizia que era um gesto de mecenas mas enfim fartamente anunciados em todos os jornais para incentivo da meninada estudiosa. Ela queria ser mordida por um macaco se não arranjasse três cadernetas para casa. Os filhos é que não faziam fé.
     Bordava para fora,cuidava do Joli, o bichano para sujar a casa era um desespero, e sobrava tempo ainda para ter ciúmes do marido com as vizinhas, principalmente Dona Consuelo, uma descarada, é certo, mas muito chique, confessava.
     Chegando o carnaval, tirava a forra.
     As economias  acumuladas saiam do Banco Popular juntas com os juros. Não ficava nada. Metia-se numa fantasia de baiana e inundava a capota do seu automóvel com seus  oitenta e cinco quilos honestíssimos. As meninas iam de baianas também, menos saias, mais berloques, e o menino de pierrô, cada ano de uma cor, porque não é para outra coisa que o dono do Tintol gasta aquele dinheirão em anúncios.Tirava do cabide a casaca do casamento, dezesseis anos por isso (como o tempo corre!), dava um jeito nas manchas:
     - No automóvel, ninguém repara, meu filho- dizia com um sorriso,ora para a casaca, ora para o marido, que se traduzia: lembras-te?
     Ele, então, com uma faixa vermelha na cintura, brincos em forma de argola, pendentes das orelhas demasiadas, enfiava na cabeça um turbante de seda branca com pérolas em profusão, e ia em pé, no carro, de rajá diplomata.
     No terceiro dia, graças a Deus não choveu em nenhum dos três, perguntava para o marido:
     Quanto temos ainda?
     Ele remexia a carteira (bolso da casaca é o tipo de coisa encrencada!), fura-bolos trabalhava passado na língua, e cantava a quantia:
     - Duzentos e oitenta.
     - E os oitocentos do automóvel?
     - Já estão fora.
     - Ah! Bem... - Para fazer contas no ar era um assombro: ... pode gastar mais cento e cinqüenta.

Carro alegórico dos Democráticos.Sta.Rita do Sapucaí RJ
     O resto ficava para agastar depois do carnaval - mas entrava na verba dele - com o fígado do marido, porque depois da pândega ( a experiência de Dona Quinota é que falava) Seu Juca tinha rebordosas. vômitos biliosos, uma dor do lado danada, de tanta canseira, tanta serpentina e tanta cerveja gelada.
     Não faz mal. Não fazia não. A vida era aquilo mesmo: três dias - falava. Mas pensava: por ano. Podia dizer, mas não dizia. Deixava ficar lá dentro. O  " lá dentro" de Dona Quinota era uma coisa complicada, complicadíssima, que ninguém compreendia. Só ela mesma e o marido, às vezes.
     Desciam do automóvel à porta da casa, quando o vizinho veio vindo com o rancho da filhaada.
     - Assim, assim...
     Dona Quinota dizia aquele "assim-assim" de propósito.que lhe importava os outros saberem se ela tinha gozado ou não? Quem gozava era ela. Mas gostava de ficar deliciando-se  por dentro coma inveja dos vizinhos: assim, assim... Ah! Ah! Ah!
     Seu Adalberto exultava:
     É isso mesmo. Fez-se despesas enormes ( e Dona Quinota sorria) e não se diverte nada. (Dona Quinota olhava para o céu).É sempre assim. Pois olhe: nós fomos a pé mesmo. Estivemos ali na Avenida na esquina do Derbi, apreciamos o baile do Clube Naval, muita fantasia rica, muita, vimos perfeitamente as sociedades, tomamos refrescos, brincamos à grande. Não foi?
     As mocinhas fizeram que sim, humilhadas, mas os guris foram sinceros:
     Aquele carro do girassol que rodava, hem, papai!
     Seu Adalberto corrigiu logo:
     -Girassol, não, Artur; crisântemo.
     Depois que corrigiu, ficou azul, sem saber ao certo se era crisântemo ou crisântemo - quer ver que eu disse besteira?
     Seu Juca não havia meio de encontrar o raio da chave. Esses bolsos da casaca!...
     -O ano que vem - Dona Quinota falou firme - nós iremos também a pé.
     O marido até se virou. Ficou olhando espantado.Que diabo é isso? - ia perguntando. Por um triz não perguntou. Mas ficou assim... Compreendeu? Parece... Esta Quinota!...
    Foi quando Seu Adalberto, evidentemente mortificado, se refez e sentenciou como experiente na matéria, apesar de nunca ter entrado num automóvel pelo carnaval: é melhor mesmo.
     A tribo sumiu pela porta do 37. A maçaneta fechou por dentro. Torreco torreco.Agora foi a chave - duas voltas. O pigarro do Seu Adalberto, ainda com o acento do crisântemo a fuzilar-lhe na cabeça, veio até cá fora se misturar com um resto de choro, pandeiro e chocalhos, do bonde que passava mais longe. Passos apressados no fundo da rua. O burro do inglês estava na janela do apartamento fumando para a lua. dona Quinota ficou olhando-o um pouco, depois cerrou a porta bem e fixou o marido que dava por falta dum brinco: Que cretinos!
     Seu Juca parou no meio do corredor, cara de ressaca, pernas abertas, o turbante nas mãos e esperou mais. Mas Dona Quinota era hermética. O resto ficou lá dentro onde ninguém ia buscar, porque o marido, o único interessado na ocasião, mais morto do que vivo, preferiu tirar o colarinho e a casaca.
     Dona Quinota atirou-se na cama escangalhada e feliz, só acordando na quarta-feira de cinzas ao meio dia.
     Quando o resto da família se levantou, o almoço (feito por ela) já estava na mesa, e dona Quinota se desesperava porque tinha lido no Jornal do Brasil  que foram os Fenianos  que pegaram o primeiro prêmio, quando todo mundo viu perfeitamente que só o carro-chefe dos Democráticos...

(Em: Contos Reunidos.Ed.José Olympio. 1997)

(O blog manteve a grafia original)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

VII Festa Literária Infantil de Porto de Galinhas - FLIPORTINHO

SÁBADO – 25 DE AGOSTO DE 2012
TENDA – "ASA BRANCA"
Horário: 16h às 22h

  • 16h – Carroça do Encantado – Contando e Cantando Luiz Gonzaga – Circulando pela VILA
  • 17h30 – Vinicius Viramundos – Recife
  • 18h – Lançamento do concurso Literário – Entrega de Prêmios
  • 19h – Circo dos Astros – Mariane Bigio
  • 20h – Bate papo sobre Luiz Gonzaga
  • 21h – Seu Rodolpho com Jazz, Pop, Maracatu, Samba Rock e Coco de Roda cantando Gonzagão
ESPAÇO – "LUAR DO SERTÃO"
  • 16h às 18h - Chapeuzinho Vermelho do Nordeste - Fajolca - 5° período – Pedagogia – Prof Suellen e Bunge com contação de Historias
  • 18h as 22h – Viramundos Contador – Vinicius Viramundos
TENDA – "BAIAO DE DOIS"
Espaço Assum Preto 16h às 21h

  • 16h – Sala de Reboco – Fajolca – 6º período – Pedagogia – Prof Amanda Pinto
  • 17h30 – Sala de Reboco – Fajolca – 6º período – Pedagogia – Prof Amanda Pinto
  • 18h30 – "Jardim da saudade" – Criando com papel
  • 19h30 – "Mamulengo" – Criando com papel
  • 20h30 – "Deixa a tanga voar" – Criando com papel
Espaço – "Lua"
Horário: 16h às 22h

  • Livraria Fliportinho
ESPAÇO – "ARTE NA RUA"
Horário: 16h às 22h


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues por ele mesmo.

“Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne. Mas por que “espiã de um seio só?” Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional.
Mas a belle époque não é a defunta que, de momento, me interessa. Tenho mortos e vivos mais urgentes. Por outro lado, minhas lembranças não terão nenhuma ordem cronológica. Hoje posso falar do kaiser, amanhã do Otto Lara Resende, depois de amanhã do czar, domingo do Roberto Campos. E por que não do Schmidt? Como não falar de Augusto Frederico Schmidt? Seu nome ainda tem a atualidade, a tensão, a magia da presença física. Todavia, deixemos o Schmidt para depois. O que eu quero dizer é que estas são memórias do passado, do presente, do futuro e de várias alucinações”. (p.11)
“Toda a minha primeira infância tem gosto de caju e de pitanga. Caju de praia e pitanga brava. Hoje, tenho 54 anos bem sofridos e bem suados (confesso minha idade com um cordial descaro, porque, ao contrário do Tristão de Athayde, não odeio a velhice). Mas como ia dizendo: - ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou raptado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos regressivos e fatais”. (p.15)
“1913. O que a memória consciente preservou de Olinda foi um mínimo de vida e de gente. Eu me lembro de pouquíssimas pessoas. Por exemplo: - vejo uma imagem feminina. Mas é mais um chapéu do que uma mulher. Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam não ter nada a ver com a vida real. Vagavam, diáfanos, por entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me espanta é que essa primeira infância não tem palavras. Não me lembro de uma única voz. Não guardei um bom-dia, um gemido, um grito. Não há um canto de galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio mar era silêncio”. p.15-6)
“Já falei da louca, filha da lavadeira. Foi a primeira mulher nua que vi na minha infância. E, ainda agora, ao bater estas notas, tenho a cena diante de mim. Eu me vejo, pequenino e cabeçudo como um anão de Velásquez. Empurro a porta e olho. O espantoso é que sinto uma relação direta e atual entre mim e o fato, como se a memória não fosse a intermediária. A demente tem a tensão e o cheiro da presença viva. Mas como ia dizendo: - no fundo, encostada à parede, está a nudez acuada”. (p.39)
“No primeiro momento, a glória é casta. Desde garotinho, a minha vida fora a desesperada busca da mulher primeira, única e última. No período da fome, o amor passara a um plano secundário ou nulo. Mas a glória é ainda mais obsessiva, mais devoradora do que a fome. Eis o que eu queria dizer: _ com o artigo de Manuel Bandeira, só eu existia para mim mesmo. Tudo o mais era paisagem.” (...)
“Sim, ainda me lembro do primeiro dia do artigo de Manuel Bandeira. Depois do trabalho, fui para casa. Tranquei-me no quarto como se fosse praticar um ato solitário e obsceno. Comecei a reler o poeta. Primeiro, repassei todo o artigo, da primeira à última linha. Depois, reli certos trechos. O final dizia assim: - “Vestido de noiva, em outro país, consagraria um autor. No Brasil, consagrará o público”. Antes de mais nada, o poeta influiu na minha auto-estima”. (p.162)
“Uma meia dúzia aceitou Álbum de família. A maioria gritou. Uns acharam “incesto demais”, como se pudesse haver “incesto de menos”. De mais a mais, era uma tragédia “sem linguagem nobre”. Em suma: - a quase unanimidade achou a peça de uma obsessiva, monótona obscenidade. Augusto Frederico Schmidt falou na minha “insistência na torpeza”. O dr. Alceu deu toda razão à polícia, que interditaria a peça; meu texto parecia-lhe da “pior subliteratura.
Assim comecei a destruir os meus admiradores. Foi uma carnificina literária. Mas não me degradei, eis a verdade, não me degradei”. (p.215)
“O número de ex-admiradores aumentava. E, pouco a pouco, ia fundando a minha solidão. Fora proibida a representação de Álbum de família. Em seguida, houve a interdição de Anjo negro. De peça para peça, me tornava, e cada vez mais, um caso de polícia. Escândalo nos jornais. E, um dia, encontro-me com Carlos Lacerda. Pediu o meu novo texto: - “Você me dá, que eu escrevo contra a censura”. Ótimo. No dia seguinte, fui levar-lhe uma cópia.” (...)
“Desde aquela época, cada um, na vida literária, tinha que ser um engajado. Ninguém ia à rua sem a sua pose ideológica. Lembro-me de Isaac Paschoal me perguntando, depois de um discurso de Prestes: - “E você? Qual é a sua contribuição?”. Baixei a vista, rubro de vergonha. E, como ainda não contribuíra, senti-me um fracassado nato e hereditário. Daí porque não posso ver, hoje em dia, o Guimarães Rosa, sem uma sensação de deslumbramento. Durante anos, pratiquei a solidão com certo pânico e certa vergonha. E eis que vem o autor de Sagarana e ergue a sua torre de marfim, assim como um cigano põe a sua barraca. Nada existe: - só a sua obra. Estão brigando no Vietnã? Pois o nosso Rosa escreve. Há a guerra nuclear, o fim do mundo? Guimarães Rosa funda outro idioma. A torre de marfim fez dele o maior artista brasileiro do século”. (p.218)
(Excertos de A menina sem estrela - Memórias, de Nelson Rodrigues; São Paulo: Companhia das Letras, 1999, Coleção das Obras de Nelson Rodrigues, sob a coordenação de Ruy Castro).

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Aniversariantes leoninos (final) Por Um Mundo Millor*

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a, do Ápice à Base,
uma figura ímpar:
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo octogonal, seios esferóides.
Fez da sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar,
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

(*O tpitulo  Por Um Mundo Millor ,que eu usei acima é da Toledo Propaganda e está no site oficial do artista)


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Aniversariantes leoninos 2

 Manaus,AM - 19 de agosto








José Cândido de Carvalho 
Campos de Goitacazes-RJ  5 de agosto








Lajes - SC 21 de agosto










Este blog já publicou texto de e sobre os leoninos acima, para ver clique no nome do autor.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Aniversariantes leoninos (1): Jorge Amado e Cora Coralina

Cora Coralina: 20.08. 1889  e  Jorge Amado: 10.08.1912

Visita de J.A a Cora Coralina em 1977





Meti o peito em Goiás
e canto como ninguém.
Canto as pedras,
Canto as águas,
As lavadeiras também.

Cantei um velho quintal
com murada de pedra.
Cantei um portão alto
com escada caida.
(Cantoria -Meu livro de cordel)







Carta de Jorge Amado, agradecendo o envio de doces feito por Cora Coralina.

     A foto e a carta foram postadas aqui pelo que me comovem.
    Essa troca que fizeram, ela enviando doces pra Jorge Amado e ele agradecendo em carta, é, de ambas as partes, um belo exemplo de afeto desinteressado e de felicidade. 
     A visita de Jorge Amado a Cora Coralina, foi de um cavalheirismo cativante. Ele já não precisava dessa imagem por já ser famoso mas se deu a felicidade de ir encontrar outra cabecinha branca e dividir gentilezas.
     O encontro aconteceu em 1977 dois anos depois do envio dos doces. Salve os leoninos! Esse povinho exagerado, porém sincero também no carinho.



Questão de Pontuação, João Cabral de Melo Netto


Uma biografia. Cartunista:Caulos
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.



sábado, 18 de agosto de 2012

Crônica cantada:Estranho Natural - Maria Gadú

Será que te conheço desde a infância
Será que na infância eu parti
Prum mundo imaginado por você
Ou por você um mundo veio
E a infância assim se foi


Meu canto hoje dobra as tuas notas
Me olhas como se fosse normal
Me coro ao seguir a tua rota
Meu abraço te amarrota
Meu estranho natural

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pai Não Entende Nada, Luis Fernando Veríssimo

Um biquini novo?
- É, pai.
- Você comprou um no ano passado!
- Não serve mais, pai. Eu cresci.
- Como não serve?No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
- Não serve, pai.
- Está bem, está bem. toma o dinheiro. Compra um biquini maior.
 - Maior não, pai. menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.


Luis Fernando.Veríssimo
L&PM 1991






terça-feira, 14 de agosto de 2012

O Livro Branco do Álbum Branco dos Beatlemaníacos e de todos nós.


     A expressão 4ever  é dos Beatles e ninguém tasca. Ever inspirando, Ever influenciando, ever emocionando... forever!  Falo porque foi ever inspirado que Henrique Rodrigues,  convidou e reuniu 20 escritores beatlemaníacos  para uma antologia  que nos deixa, no mínimo, curiosos.  André Boreli, Ana Paula Maia,André Leones,André Moura,Andrés Sant'Anna, Carola Saavedra, Fernando Molica,Felipe Pena,Godofredo de Oliveira Neto,Henrique Rodrigues,Lúcia Betencourt,Marcelino Freire,Marcelo Moutinho,Marcia Tiburi,Márcio Renato,Maurício Almeida,Rafael Rodrigues,Smone Campos,Stella Florence e   Zeca Camargo  são  fãs que assinam contos inspirados em músicas do Album Branco.
 O Livro Branco, tem 20 textos e ele, Henrique Rodrigues, o organizador, assina o conto que tem inspiração em Hey Jude e que narra  a volta de um filho à casa do pai doente. 
Nelson Motta, dá uma canjinha, sem escrever conto algum, e confessa quem é seu Beatle preferido.
Blackbird, leva Stella Florence a um conto bastante forte; André Leones ficou com Carry That Weight; um personagem de Ana Paula Maia mora na Rua Penny Lane.  Paul McCartney faz festa comemorativa de seus 100 anos na casa do sobrinho gay de tia Eleonora, na imaginação de Marcelino Freire.
Ainda não li o livro e estou curiosa para saber se alguém escreveu inspirado em While My Guitar Gentle Weeps.
Sessão de autógrafos no Rio (27, na Travessa) e São Paulo (29, na Cultura), entre outras cidades.
O LIVRO BRANCO
Org.: Henrique Rodrigues
Autores: Vários
Ed.: Record -R$29,90

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Apelo - Drummond em defesa de Nara Leão

     A fama de tímido erguia em torno do poeta uma muralha que nem celebridades confessadamente admiradas pelo próprio Drummond ousavam transpor. 
     Nara Leão viu uma vez Drummond  andando pela rua, em Ipanema. “Não tive coragem de falar com ele. Fiquei encabulada. Fico com uma certa taquicardia ao lembrar”, confessa. Nara Leão tinha todos os motivos para, pelo menos uma vez, falar com Carlos Drummond pessoalmente. Antes, com lágrimas nos olhos, ela já dera um telefonema  de agradecimento a um gesto de solidariedade que Drummond lhe prestara.   
     Numa entrevista dada por telefone a um repórter de jornal, em 1965, no início de um governo fardado  que terminaria se estendendo por duas décadas, Nara pedia aos militares que entregasse o poder aos civis. 
     As manchetes de jornais alardeavam, numa época em que os censores ainda não tinham desembarcado nas redações: “Nara é de opinião: esse Exército não vale nada”; “Nara pode ser presa mas não muda de opinião”; “Nara: sou contra militar no poder”; “Entrevista abalou os alicerces do Exército Nacional”; “Considero os exércitos, no plural, desnecessários e prepotentes”; “Meu violão é a única arma que tenho; meu campo de guerra é o palco.”
     Ameaçada de prisão,Nara Leão recebeu, pelo jornal, a solidariedade de Carlos Drummond de Andrade, através  de um poema de circunstância chamado Apelo. (Dossiê Drummond-Geneton Moraes Neto)

 “Meu honrado marechal
Dirigente da nação
Venho fazer-lhe um apelo
Não prenda Nara Leão

Soube que a Guerra, por conta,
Lhe quer dar uma lição. Vai enquadrá-la
– esta é forte –
Artigo tal... não sei não

A menina disse coisas
De causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
Abala a revolução?

Nara quis separar
O civil do capitão
Em nossa ordem social
Lançar desagregação?

Será que ela tem na fala,
Mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
Em vez de Nara, é leão?

Se o general Costa e Silva,
Já nosso meio-chefão
Tem pinta de boa praça,
Porque tal irritação?

Ou foi alguém que, do contra,
Quis criar amolação
A seu
Artur, inventando

Este caso sem razão?
Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo cão?
Que é pela paz e amor
E contra a destruição?

E, depois, se não há preso,
Político na ocasião,
Por que fazer da menina
Uma única exceção?

Ah, marechal, compre um disco
De Nara, tão doce, tão
Meigamente brasileira,
E remeta ao escalão;
 
Ao ouvir o que ela canta
E penetra o coração,
O que é música de embalo
Em meio a tanta aflição.

O gabinete zangado
Que fez um tarantantão,
Denunciando Narinha,
Mudava de opinião.

De música precisamos
Para pegar o rojão,
Para viver e sorrir,
Que não está mole não.

Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
Para a voz que pelos ares,
Espalha sua canção.

Meu ilustre general,
Dirigente da nação,
Não deixe, nem de brinquedo,
Que prendam Nara Leão.

sábado, 11 de agosto de 2012

Mais que música: Coração Leviano, Paulinho da Viola


Trama em segredo teus planos
Parte sem dizer adeus
Nem lembra dos meus desenganos
Fere quem tudo perdeu
Ah coração leviano não sabe o que fez do meu
Ah coração leviano não sabe o que fez do meu (mas trama)
Este pobre navegante meu coração amante
Enfrentou a tempestade
No mar da paixão e da loucura
Fruto da minha aventura
Em busca da felicidade
Ah coração teu engano foi esperar por um bem
De um coração leviano que nunca será de ninguém.
 
Paulinho da Viola, completa 70 anos neste mês de agosto

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Quarta-feira é dia de conto: Apenas Um Gesto, Diogo Valença


      Um lar bonito, finanças em ordem; tudo em paz. Essa paz era um problema. Queríamos quebrá-la, quebra-la com a alegria irrequieta de uma criança, de um filho que não vinha.
     Tantos anos já havíamos sonhado e sonhando tentado. Foram muitos os testes, exames laboratoriais, até proveta e nada. Nosso lar continuava sem herdeiros. Já não tinhamos vigor físico nem ânimo para tentar. Mas, se Sara e Abraão no ocaso de suas vidas, foram abençoados, tentaríamos outra vez. E se adotássenos?  Seríamos capazes de amar não provindo de nós mesmos? E, se depois de tudo, de nos capacitarmos para amá-la, seus pais biológicos quiserem-na de volta? Quantas dúvidas. Interrogações mil.
     Conversamos com amigo que tiveram igual dilema. Iriamos enfrentar obstáculos; preconceitos de nossos familiares. ainda tínhamos amor para dar.
     Final de tarde de um setembro marcante. Acabara-se a longa espera.
     Ela chegou. Nova, novinha, três meses de vida. Magra,muito magra veio em uma caixa de sapatos e ainda que tão pequeno, o espaço, lhe fora grande.
     Seus olhinhos bem azuis exprimiam insegurança, curiosidade. Medo
      Para quem a olhasse alcançando o futuro, veria beleza naquele corpinho frágil. Fora escolhida, isso mesmo. Escolhida entre tantas de igual pouca sorte.
     Sua chegada alegrou e a um mesmo tempo, perturbou seu novo universo, inspirou muitos cuidados, trouxe apreensões, modificou o viver rotineiro do lar antes "em paz". Crescendo, fez das plantinhas e sofás alvo preferido para exercitar seus atributos destruidores.
     Repreensões e palmadas deram-lhe algum limite. Só comia o que queria, fosse ou não do seu natural cardápio.  Fogão e geladeira recebiam sua visita fora de hora.
     Apetite estranho e descontrolado aquele. Olhar amedrontado e sofrido depois de uma boa reprimenda deixava qualquer ser pétreo liberar lágrimas de arrependimento.
    Cresceu, ganhou mais espaço. Não ganhou peso. Era só um risco de gente a espalhar alegria. Seu jeitinho amoroso de encostar-se conquistava pessoas. Sem dizer uma palavra fazia-se sempre ser compreendida ou irritava e irritava muito. Diversões esquisitas escolhia. Morcegos adentrados ao seu recinto tornavam- se objeto de suas duras brincadeiras, divertindo-se até matá-los. Só ela era capaz de pelos seus olhinhos azuis não ver a feiura de tais visitantes. Estava mais alta. Ouvir a campainha ou o interfone era o bastante para deixá-la aos saltinhos de curiosidade, e a seu modo, dar boas vindas a quem abrisse a porta.  Armários ou gavetas abertas eram irresistíveis para ela. Gritos ou choro alto eram talvez as únicas coisas que lhe despertavam uma certa agressividade.
     Vacina, médicos, banhos eram motivo de resistência: de nenhum deles gostava. O elevador lhe causava insegurança, desejo de voltar para seu mundinho seguro, conhecido. Fugiu algumas vezes para logo voltar arrependida, desconfiada, implorando um afeto e compreensão que sempre ganhava. Era linda.
    Adulta, não engordou. Não teve namorados nem conheceu os prazeres do sexo presa que vivia nas alturas do seu edifício. Vizinhos quase não a conheciam, nem parecia lhe fazerem falta. Inimigo só teve um, o cachorro do andar de cima, onde também morreu afogada na piscina a única parenta que conhecera. Andar sinistro aquele do alto!
     Aos 14 anos a vida transcorria monotonamente. De súbito uns nódulos. Junto com eles veio aquele medo. Será? Serão? Não é possível, ela não merece, não fez por onde, é tão jovem ainda.! Biópsia. Sim eram malígnos, sem dúvida alguma!
     Seis meses foi o prazo anunciado pelo médico. Seis meses é tão pouco para quem tem apenas 14 anos! Seis meses! Como o tempo pode ser a um só instante curto e precioso. Ou talvez por isso mesmo. Seis meses, seu olhinhos azuis já não brilham tanto,mas continuam azuis, azuis  como o céu do sertão ressequido.
     5,4 meses, o mal está vencendo, vitória certa, não desejada.3,2 meses, respiração difícil, corrida ao médico, sondas, agulhas, respirador artificial, recursos possíveis para tentar o impossível, deter uma vencedora, a doença, a sua malignidade.
     Aquele corpinho, ainda frágil, já não mais reage. Chegou a hora de autorizarmos o desligamento do equipamento. E aí? teríamos direito sobre a vida dela? Teríamos esse direito sobre aquela vida? Deixá-lo ligado não seria prolongar um inútil sofrimento? E aqueles olhinhos não mais tão azuis estariam entendendo a situação? Nunca saberemos.
     Impotentes para fazer mais qualquer coisa passamos outra vez, a última vez, as mãos pelo seu corpo já quase frio. Um gesto, "apenas um gesto" foi-nos possível na tentativa de dizermos "adeus minha filha", e,como se respondendo, ou assim gostaríamos que pudesse ter sido, duas lágrimas lhe escorreram. Não as enxugamos. Corremos da sala.
     Desligue doutor, desligue tudo. Liberte rápido a quem, por alguns anos nos libertou do vazio de um lar sem filhos. Desligue.
    A vida não pára. Cá fora, outros olhos azuis procuram entre lágrimas um novo sentido para continuar existindo. Mesmo só isso, continuar a  existir.
     De volta para casa, tela-e-mos por algum tempo retida na memória depois, uma a uma daremos destino às suas coisas e pertences, até as fotos, nos fixando nos momentos alegres havidos durante 14 anos.
Um dia talvez, quem sabe? encontrala-e-mos na vastidão do espaço. Quem sabe, há tantos mistérios debaixo do sol!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Agradável Surpresa: Dossiê Drummond,Geneton Moraes Neto.


No último fim de semana, terminei de ler Dossiê Drummond, de Geneton  Moraes  Neto. Depois de ver, numa entrevista, que o livro não se tratava de mais uma antologia do poeta e como Geneton tem crédito comigo, comprei o livro.  Pra quê?  Tive que  ir até altas horas porque não consegui desgrudar.  O autor fez uma longa entrevista com C.D.A, a última dada pelo poeta,  e é essa entrevista que conduz o livro.  Conduz, não pensem que é só da entrevista que consta a obra. Não.  Geneton coloca a poesia que for citada ou trecho da poesia a que se refere o trecho da conversa tida;  Entremeia com explicações sociais  quando são necessárias.  No dossiê constam depoimentos de pessoas muitíssimo próximas a Carlos Drummond de Andrade,  que deixam suas impressões a respeito de um Drummond, que nós não conhecemos. Boas e más também, afinal o poeta não era, nem queria parecer, um deus.  
                                                                ***

“O controle era uma arma para conceder ou negar papel para jornal, para facilitar ou dificultar a importação. O governo exercia  uma pressão sobre os jornais sem necessidade de dar ordens ...)”..(página 133 - Carlos Drummond explicando como era feita a censura à imprensa na época de Getúlio Vargas  - coisa que acontece atualmente na Argentina e na Venezuela.
                                                              ***
 Alcindo Braga, Barba Azul, Carlos Alberto além de uma série de pseudônimos como El Caballero sentimental, foram usados pelo poeta (página161)
                                                              ***

Numa conversa com Roberto D’Ávila, gravada para a TV Manchete, Drummond exibiu de novo aquela modéstia constrangida: parecia um iniciante ao confessar que sonhava ver dois monstros sagrados do teatro brasileiro encenando o musical nos palcos... (página 194)
(refere-se a um musical que ele imaginou e até determinou os atores principais: Paulo Gracindo e Bibi Ferreira)
                                                               ***

Meu pai, convivi muito pouco com ele. Era uma relação de muito respeito, muito medo. A mãe da gente usava a figura distante do pai para aumentar sua autoridade sobre nós. E meu pai falava pouco, não me lembro do tom de sua voz. Ele morreu há muito e muitos anos, uma coisa muito longínqua no tempo. Pois, de repente, meu pai me voltou. Agora somos íntimos, ele caminha comigo, ao meu lado, ouço sua voz, sinto sua respiração, seu calor, como se ele estivesse andando ao meu lado...De repente, no melhor  da conversa Drummond pára e diz: Bem, até logo eu vou para lá...( Página 253-Narração do  cartunista Nássara)
                                                              ***

Drummond escrevera um livro infantil. A repórter pergunta a ele: -Quem é que vai ilustrar?
Ele respondeu, segundo O Globo, “estou com vontade de pedir a Ziraldo. Não sei se ele vai aceitar.
(Página 255 – o livro referido é  História de Dois Amores)

 ***

Algum tempo antes, eu preparava um livro de fotos de Pedro Henrique sobre o Brasil, uma coleção de fotos bonitas como pintura que chamei de Impressões do Brasil. Pedro Henrique sugeriu que eu pedisse ao Drummond para fazer um texto, um poema, em Cia das fotos. Drummond concordou!!! Mandei-lhe a boneca do livro, ele começou o poema, parou no meio e me telefonou: “Não dá pra fazer um livro a favor. O Brasil está uma esculhambação (sic).Minha impressão do Brasil é a pior possível. (Página 158)
 ***

Quando Ziraldo lançou Flicts, deu um exemplar com dedicatória  a C.D.A. que gostou e elogiou o livro no Correio da Manhã (1969):
“Fiquei sem saber como agradecer ao poeta. Peguei um desenho meu que ganhara o prêmio da 32ª Bienal de Humor de Bruxelas, um astronauta descobrindo um Deus negro no espaço.Era o desenho mais bonito que eu fizera na vida – na minha opinião – e mandei par ele com um bilhetinho, dizendo exatamente isto: eu estava mandando para ele o melhor de mim, uma vontade de dizer-lhe o tanto que eu o amava e a imensidão da minha alegria, minha total incapacidade de dizer-lhe muito obrigado...  (página 263- depoimento de Ziraldo)

Dossiê Drummond, mostra o poeta descontraido e tímido, burocrata e metódico,bígamo, brincalhão e apaixonado. Geneton Moraes Neto, finaliza o livro trazendo a bela história de Drummond e Lygia Fernandes um namoro que durou 36 anos e exibe um Carlos Drummond inesperado.   Confesso que Dossiê Drummond me emocinou.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Segunda-feira poética: Congresso dos Ventos, Joaquim Cardozo


Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto
Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;
Àquela planície clara, feita de luz aberta na luz e de amplidão
[cingida,
Onde o grande céu se encurva sobre verdes e verdes, sobre lentos
[telhados,
Chegaram os mais famosos, os mais ilustres ventos da Terra:
– Mistral, com seus cabelos de agulha, e os seus frios de dedos
[finos,
– Simum, com arrepiadas, severas e longas barbas de areia
[quente,
– Harmatã, em fúrias gloriosas e torvelinhos, trazidos da Costa
[da Guiné,
Representante das margens do Nilo credenciou-se Cansim,
E Garbino, enviado das praias catalãs.
Vieram as Monções das margens do Oceano Índico,
Os ventos da Tundra siberiana vieram. . .
E os Alísios desceram do Equador, clandestinos,
Num grande transatlântico.
Chegaram ainda os ventos da América:
– Barinez, respirando doçuras de rios azuis, afluentes do
[Orenoco,
– Pampeiro, eremita e solidão de horizontes sub-andinos,
– Minuano, assobiando longamente a tristeza ritmada das
[coxilhas..
Também os ventos nordestinos se acharam presentes:
O Nordeste e o Sudeste; os ventos Banzeiros,
O Aracati das praias cearenses,
O vento Terral, velho boêmio das madrugadas.
Ventos, muitos e todos, ventos de todos os desertos,
De tempestades selvagens, de escuramente outonos. . .
Nesse congresso em tantas veemências se afirmaram
Quanto em glória e rebeldia se exprimiram. . .
Com açoites e eloqüentes rajadas falou Harmatã;
Com citações de Esopo e de La Fontaine
Comparou as vantagens da energia do sol e a do vento,
Descreveu com minúcia os modernos fornos solares
E admitiu o emprego futuro de ventos magnéticos.
Depois que Cansim relembrou o seu feito guerreiro
Envolvendo em altas nuvens de areia as legiões do rei Cambises
– Isto, há mais de dois mil anos –
Garbino repetiu com sopros noturnos e vagarosos
A velha história do abandono e desprezo dos ventos
Agora, solitários, vagando por todos os quadrantes.
A assembléia inteira levantou-se amotinada;
Um vendaval sem freio, um furacão,
Percorreu aquelas instâncias de planície tranqüila;
Uma onda de revolta se ergueu contra os motores,
Contra os ventiladores e os túneis de vento.
Mas apesar daquele tumultuoso debater de línguas meteóricas
Podia-se ouvir muito bem a voz lamentosa do Nordeste:
– Eu que, há trezentos anos, desembarquei das velas do almirante
[Loncq
Na praia de Pau Amarelo,
Que tremulei nas flâmulas e nas bandeiras das naus de D. Antônio
[de Oquendo
Aqui estou, nesta várzea, reduzido a professor de meninos:
Hoje vivo ensinando a empinar papagaios. . .
Voltando a calma, em alentos de aragens murmuradas,
Terral contou como ajudava as plantas nos amores:
– Levando nas dobras do seu manto o pólen das anteras,
Velivolvendo e suspirando entre ramagens.
Por fim, sucederam-se festas, danças de roda. . .
Músicas e cantos de longes mares tempestuosos,
Rodopios, volteios, caprichos, remoinhos, piões e parafusos. . .
– Com sestros de capoeira exibiram-se o vento Banzeiro e o
[Sulão.
Barinez leu uma mensagem de Romulo Gallegos,
Minuano disse um poema de Augusto Meyer.
E já pelos dias finais daquele mês todos partiram. . .
Erguendo o seu vôo sobre as nuvens varzinas
Regressaram, um após outro,
Para as noites e as tormentas das suas terras natais.
O último que se pôs a caminho foi o vento Aracati:
– Cortou uns talos de chuva
Com eles fez uma flauta
E se foi, tocando e dançando,
E se foi pela estrada de Goiana.