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Perdoando Deus, Clarice Lispector

Eu ia andando pela avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via. Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenh...

Autobiografia de Um Só Dia, João Cabral de Melo Neto

     No engenho Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, moravam Luiz Antônio Cabral de Mello e sua mulher Carmem Carneiro Leão Cabral de Mello, meus avós paternos, que preparavam uma viagem para ao Recife, para que Carmem, às vésperas do parto de seu segundo filho (ou filha, na época não dava para saber), seguisse o que decretou seu pai: "Meus netos haverão de nascer todos no sobrado da família às margens da maré", como era conhecido por eles o estuário do Capibaribe, que enche e vaza com as marés do oceano.       São Lourenço da Mata fica a menos de vinte quilômetros do Recife, mas dá para imaginar como deveriam ser as estradas nessa época.      Chegaram de noitinha. Posso sentir o desconforto de minha vó, em final de gravidez fazendo uma viagem dessas.      Ao chegarem, o quarto principal do casarão ainda não tinha sido arrumado para o parto, portanto acomodaram minha avó e sua barriga no quarto dos santos, misto de qua...

Memória de Livros, João Ubaldo Ribeiro

Aracaju, a cidade onde nós morávamos no fim da década de 40, começo da de 50, era a orgulhosa capital de Sergipe, o menor estado brasileiro (mais ou menos do tamanho da Suíça). Essa distinção, contudo, não lhe tirava o caráter de cidade pequena, provinciana e calma, à boca de um rio e a pouca distância de praias muito bonitas. Sabíamos do mundo pelo rádio, pelos cinejornais que acompanhavam todos os filmes e pelas revistas nacionais. A televisão era tida por muitos como mentira de viajantes, só alguns loucos andavam de avião, comprávamos galinhas vivas e verduras trazidas à nossa porta nas costas de mulas, tínhamos grandes quintais e jardins, meninos não discutiam com adultos, mulheres não usavam calças compridas nem dirigiam automóveis e vivíamos tão longe de tudo que se dizia que, quando o mundo acabasse, só íamos saber uns cinco dias depois. Mas vivíamos bem. Morávamos sempre em casarões enormes, de grandes portas, varandas e tetos altíssimos, e meu pai, que sempre gostou das últim...

Por que Cantor e Atriz Na Academia Que é de Letras?

Fiz essa pergunta quando, por acaso, descobri que Santos Dummont tinha sido eleito Imortal para a cadeira 38. Era óbvio para mim que só quem fosse escritor poderia entrar para a Academia Brasileira de Letras. Aprendi que não.  Esse ano, por causa das eleições de Fernanda Montenegro (cadeira 17) e de Gilberto Gil (cadeira 20), a polêmica, na verdade, o desconhecimento voltou a ocupar espaço.  Trago por isso o que recortei e colei do site da própria A.B.L: Criada por iniciativa de Lúcio de Mendonça, reuniu um grupo de 40 escritores, dentre os quais Machado de Assis, à época um de seus mais idosos fundadores. Autor já consagrado, com inconteste ascendência sobre os mais jovens, presidiu a Casa até morrer, em 1908. Desde cedo a Academia povoou o imaginário da intelligentsia brasileira, provocando reações extremadas de amor e ódio, estas, muitas vezes, provindas de candidatos que não lograram êxito em tentativas eleitorais. De todo modo, no crepúsculo do século XIX o surgimento de...

Poemas da MPB: Tempo Rei, Gilberto Gil

Não me iludo Tudo permanecerá do jeito que tem sido Transcorrendo, transformando Tempo e espaço navegando todos os sentidos Pães de Açúcar, Corcovados Fustigados pela chuva e pelo eterno vento Água mole, pedra dura Tanto bate que não restará nem pensamento Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei Transformai as velhas formas do viver Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei Pensamento Mesmo o fundamento singular do ser humano De um momento para o outro Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos Mães zelosas, pais corujas Vejam como as águas de repente ficam sujas Não se iludam, não me iludo Tudo agora mesmo pode estar por um segundo Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei Transformai as velhas formas do viver Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei CD: Raça Humana - 1984 Caricatura de Genildo   ...

Católico Apostólico Piauiense, Carlos Castelo

Fui uma criança educada sob o catolicismo apostólico piauiense. O cristianismo do Meio Norte difere do romano apenas em um aspecto: o fervor.  O que é coerente com a temperatura média do estado, sempre beirando os 40 graus. A grande mentora da minha espiritualidade foi a avó materna. Dona Alzira, pelas minhas contas, só perdeu em número de leituras da Bíblia para Johannes Gutenberg – pai do famoso Livro Sagrado produzido em tipos móveis. Fora a sua exegese bíblica, ainda havia os terços diários, os rosários apressados e os jejuns. Minha mãe reproduzia, de modo mais suave, as práticas místicas. Era devota de Santa Teresinha do Menino Jesus. E, como boa meio-nortista, com grande fervor. Nosso pastor alemão, para que o leitor tenha ideia, se chamava Tom: era xará do cachorro de Teresa de Lisieux. Era natural que eu tivesse influências das duas. Até os 11 anos, quando me perguntavam o que queria ser quando crescer, respondia, sem titubear: “papa”. Quando estava com 16 anos, em pleno M...

Valsa Dos Cogumelos, Rogério Medeiros.

      Pois é, eu escrevi um livro. Comecei muitos anos atrás, como projeto de conclusão de jornalismo, mas na época não achei que ele estivesse completo o bastante para ser publicado. Dois anos atrás, no meio do lockdown, resolvi retomar as pesquisas, e agora, 22 meses depois, estou colocando ele no mundo. Quer dizer, quase. Hoje, comecei uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a publicação do livro. É tipo uma vaquinha virtual, em que criadores mostram sua ideia num site e pessoas interessadas financiam o projeto em troca de uma recompensa que chega um tempo depois. No meu caso, a recompensa se chama Valsa dos Cogumelos – A Psicodelia Recifense 1968/1981, onde conto a história de uma turma de malucos cabeludos que fez música experimental aqui no Recife. Foram grupos como Laboratório de Sons Estranhos, Nuvem 33, Aratanha Azul, Phetus e Ave Sangria, e compositores e cantores como Flaviola, Lula Côrtes, Marconi Notaro, Ricardo Uchôa, Robertinho de Recife, Alc...