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Aos Namorados do Brasil, Carlos Drummond de Andrade

Dai-me, Senhor, assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil. Será que namorado algum escuta alguém? Adianta falar a namorados? E será que tenho coisas a dizer-lhes que eles não saibam, eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento? Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa, quando perdem os olhos para toda paisagem , perdem os ouvidos para toda melodia e só vêem, só escutam melodia e paisagem de sua própria fabricação? Cegos, surdos, mudos - felizes! - são os namorados enquanto namorados. Antes, depois são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia. Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará à sublime invalidez que é signo de perfeição interior. Namorado é o ser fora do tempo, fora de obrigação e CPF, ISS, IFP, PASEP,INPS. Os códigos, desarmados, retrocedem de sua porta, as multas envergonham-se de alvejá-lo, as guerras, os tratados internacionais encolhem o rabo diante dele, em volta dele. O tempo, afiando sem pausa a sua foice, e...

Ruth Rocha Para Adultos:Dois Idiotas Sentados Cada Qual Em Seu Barril

     Ruth Rocha escreveu um simpático livro mostrando a briga entre dois homens (Teimosinho e Mandão) que, mesmo estando cada um sentado num barril de pólvora e com uma vela acesa na mão,  ambos correndo exatamente o mesmo risco,  exigiam que o outro apagasse a vela para que ele não explodisse, mas não queriam apagar a própria para o outro não explodir.       Depois, ainda sentados nos seus barris e ambos de vela na mão, eles brigam por causa da cor da camisa do outro. Sem, em momento algum, considerarem o barril e a vela como o real perigo para ambos, eles ainda pedem aos filhos que tragam as bombas guardadas em suas casas. São atendidos. Então, um deles espirra, o outro se assusta, derruba a vela e faz tudo explodir.

Quarta-feira é dia de: O Doido da Garrafa, Adriana Falcão

     Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido .        Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.      O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco comum nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou 17 dias para ser construída.     Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Vai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doi...

Segunda-feira poética: Carta de Idalzira Para Joan

Minha casa era hospedagem Dos que moravam por fora Homem, criança e senhora Faziam camaradagem Todos fizeram viagem Em busca de outro torrão Deixando meu coração Cheio de saudades somente De uma casa cheia de gente Só resta um gato e um cancão. Foram embora meus cunhados Meus sobrinhos, meus amigos Foram enfrentar os perigos Que existe em outros estados Hoje estão espalhados Me dando recordação Vivo nesta solidão Velha, cansada e doente De uma casa cheia de gente Só resta um gato e um cancão. Fomos quatro irmãos unidos Todos morando por perto Porém Jesus achou certo Que ficássemos divididos Por isto fomos escolhidos Para esta separação A mana do coração Foi embora primeiramente De uma casa cheia de gente Só resta um gato e um cancão. Também um filho casado Minha nora carregou Meus netos também levou Ac...

Felicidade Conjugal, Tahar Ben Jolloun

           História de uma pequena família marroquina sob influência das culturas de um mesmo  país. Um pintor famoso vindo de uma região mais desenvolvida e rica e sua mulher oriunda de uma região árida e pobre do Marrocos. Ela bem mais nova que ele e bastante inteligente .      O livro pode ser lido da forma tradicional , começando pelas primeiras páginas quando uma mosca está na ponta o nariz do pintor que vai contar sua história verdadeira, afinal, pra quem não vê suas obras, poder se deleitar com sua vida intensa pode lhe valer  outro caminho para notoriedade... pode ser.        É boa ideia, também, começar o livro a partir da fala feminina. Assim, a narrativa da mulher  pode ser uma retificação do que disse o pintor, pode ser um livro independente , mais curto e menos poético, mais sincero. Pode ser, também, a confirmação de um relacionamento de loucura, conveniência ...

Pé, Fraga

     Segundo reza a lenda sem pé nem cabeça, o Homem começou a sua evolução com o pé direito.      No início era uma dúzia de pés-rapados, mas logo se organizaram socialmente em das castas: os pés-de-boi e os pés-quentes. Aos primeiros cabia não arredar pé do pé-de-pilão; aos segundos, cuidar do pé-de-meia.       Cada grupo cumpria ao pé da letra a sua tarefa. Afinal, o lucro era dividido em pé de igualdade. Não havia  ódios e todos faziam pé firme no regime.       A sociedade cresceu, porque dava pé. E evoluiu: inventaram o pedal (depois, a roda); o pé-de-moleque revolucionou a culinária; encontraram a cura pro pé-de-atleta; apareceram as ciências (Pediatria, para tratar dos pezinhos dos nenês, e Pedagogia, para educar do pé-de-chumbo ao pé-de-porco); nas letras, fizeram sucesso os versos de pé-quebrado; construiram-se os famosos jardins suspensos dos igarapés; o Homem sonhava com o futuro, ...

Segunda-feira poetica: Seis Quadrinhas Avulsas, Fraga

I Poeminha quando nasce esparrama pelo autor Menininha quando dorme acorda Morfeu pro amor. II "Amai-vos uns aos outros" é meu mandamento lapidar Mas aviso aos seguidores: só nas lápides é bom usar.  III Quem dá provas de caráter caráter não tem pra vencer. Mas se vender essas provas caráter de ricaço vai ter IV Sou amante da Boa Vida, da Natureza e da Santa Paz. As três sempre me dizem que como eu não fazem mais. V Pelo que conseguimos ver, o futuro será um talo pois castigo e presidente vieram num mesmo cavalo. VI Ah, senhores sérios e sisudos que se fecham para balanço: por que não imitam os poetas, que se abrem para o descanso? In: Punidos Venceremos, pag.29, Ed.Codecri, Rio de Janeiro 1981