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Mostrando postagens com o rótulo insônia

Os Cães da Aclimação, Cecília Meireles

     A primeira noite que passei nestes arredores da Aclimação foi uma noite de assombros. Descobri que havia verão em São Paulo: que a cidade da garoa desaparecera; que aqui, como no Rio, se podia sentir um calor sufocante, sob um céu sem promessas de chuva. Mas o assombro maior seria mais tarde, quando depois do apito do guarda-noturno, levantou-se nos ares um enorme alarido de cães, alarido que, a princípio, parecia uma simples exibição de vozes, um ensaio de sons, como quando as orquestras experimentam seus instrumentos - e que pouco a pouco se foi acomodando em lugares determinados, separando  essa espécie de sopranos, contraltos, tenores e barítonos, quem sabe sob a reg6encia de um maestro invisível.      Eram vozes extremamente numerosas e de qualidades variadíssimas; umas para efeito profundos e solenes; outras leves e fúteis, risonhas e brincalhonas. E, entre esses dois pólos, elevam-se as de timbre sentimental  e aveludado, as metálicas ...

As Flores, Leon Eliachar

Há dois meses que Iracema recebia flores, sem cartão. Colocava tudo nas jarras, vasos, copos; mesas, janelas, banheiro e até na cozinha. Quando o marido lhe perguntava por que tantas flores, todos os dias, ela sorria: — Deixe de brincadeira, Epitácio. Ele não percebia bem o que ela queria dizer, até que um dia: — Epitácio, acho bom você parar de comprar tanta flor, já não tenho mais onde colocar. Foi aí que ele compreendeu tudo: — O quê? Você quer insinuar que não sabia que não sou eu quem manda essas flores? Foi o diabo, ela não sabia explicar quem mandava, ele não conseguia convencê-la de que não era ele. — Um de nós dois está mentindo — gritou, furioso. — Então é você — rebateu ela. No dia seguinte, de manhã, ele decidiu não sair, pra desvendar o mistério. Assim que as flores chegassem, a pessoa que as trouxesse seria interpelada. Mas não veio ninguém: — Já são duas horas da tarde e as flores não chegaram, Epitácio. É muita coincidência. Vai me dizer que não era você. Ele não tinha...

Prezado Sargento. Marcelo Valença

Há pouco mais de três semanas nos conhecemos. Você trouxe um olhar de dúvida que encontrou meus ouvidos cansados. Dois noctívagos desconhecidos num canto qualquer nos fundos de um prédio caixão. Você podia passar por mim com um grunhido qualquer de cumprimento desinteressado, ao qual eu devolveria um arrulho por mera educação. Estou beirando os quarenta e você tem cara de sessenta. Já tivemos tempo suficiente nesta vida para desenvolver aquela camaradagem fática a que todos os homens das nossas gerações foram paulatinamente treinados. Barulhos pré-históricos que demonstram como podemos ser desimportantes uns para os outros. Mas você puxou uma pergunta. Quer saber como funciona o aplicativo do governo para ter a carteira de habilitação digital no celular. Tudo bem, entendo. Seus cabelos brancos te fazem mais velho que minha calvície e o instinto de ajuda aos idosos já me compele a interromper o vídeo genérico a que eu assistia e abrir o aplicativo no meu celular. O seu é Android...