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Flor, crônica de Cícero Belmar

A flor do baobá é branca.De um branco que chega a brilhar,rasgando a penumbra do anoitecer. A flor do baobá sabe que os morcegos são o seu lobo da noite,mas,ainda assim,fulgurante. A enfermeira me disse vá para casa, nós cuidaremos dela. Qualquer coisa, eu lhe telefono. De nada adiantaria eu ficar pelos corredores.      A flor do baobá brota num silêncio profundo, no início da noite, e o silêncio é a voz do espírito. Anoitecia, estava frio. Fiquei ali na praça, sentado num banco, junto da enorme raiz da árvore da vida. É assim que falam dos baobás, árvore da vida, pela sua longevidade. O baobá zomba da morte.      Meses antes, você me disse vou ficar boa, vou sair dessa. Eu tinha a mesma esperança, respondi sim, meu amor, você vai ficar boa, embora ambos tivéssemos mais incertezas do que respostas.      A flor do baobá está consciente do legado de sua beleza e do perigo dos morcegos. Por isso exala um cheiro desagradável, na esperança de afug...

Flor-de-Açúcar, crônica de Maria Julieta Drummond de Andrade

     Palavra puxa palavra,crônica puxa crônica e o Guia  Turístico que espere.      No sábado passado escrevi sobre os meus mortos. No dia seguinte fui a um churrasco criollo (e admiravelmente bem temperado) em casa de uns amigos austríacos que depois de três anos de América aprenderam a dourar a carne com mais perícia do que muitos argentinos. Entre o vinho, chouriços, morcela e bifes excelentíssimos, a conversa flutuou sem rumo e sem preocupação. Finalmente alguém falou sobre os mortos.Era uma tarde luminosa e quente, tudo convocava à sonolência. Só uma senhora vienense, de 80 anos confessados, embora aparentando menos de 70, de pele estirada e olhos muito azuis, continuava insone e cheia de vida.Num castelhano fluido, que o acento germânico tornava mais saboroso comentou:      - Tive cinco maridos e uma infinidade de amigos. Muito poucas pessoas não gostaram de mim, e nunca entendi por quê. O pior é que elas me perseguiram, me faziam...

A Máquina do Tempo, Carlos Drummond de Andrade ( poema com 75 anos)

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto ...

Aniversariante do dia: Carlos Drummond de Andrade

O AMOR DETERMINA A Matilde e Mário da Silva Brito L'amour veut qu'aujourd'hui mon ami André Salmon se marie. (Apolinnaire) O amor determina hoje que se casem minha amiga Matilde e meu amigo Mário. Sua lei é sagrada. Cumpra-se com música de clavicórdios, clavicímbalos, espinetas, tiorbas, violas d'amore, harpas davídicas, sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais, e o saçaricante pinho carioca, mesmo que tais instrumentos não figurem ostensivamente no ato. Estarão soando no ar interior que respiram os enamorados conscientes. E seja esta quinta-feira de perfejta claridade e sombra mais suave a acarinhar os noivos de refletida vontade e lúcida escolha. Emoldure-os a luz. Doure-os o maravilhoso silêncio entranhado no som, em que a alegria do amor-conhcimento se entreabre à feição de flor nascida do chão mesmo da vida. E cantemos todos, em torno deles, em musical ciranda:      M de Matilda      M de Mário      M do centro da palavra amor....

Aos Nossos Filhos, Ivan Lins e Vitor Martins

Perdoem a cara amarrada Perdoem a falta de abraço Perdoem a falta de espaço Os dias eram assim Perdoem por tantos perigos Perdoem a falta de abrigo Perdoem a falta de amigos Os dias eram assim Perdoem a falta de folhas Perdoem a falta de ar Perdoem a falta de escolha Os dias eram assim E quando passarem a limpo E quando cortarem os laços E quando soltarem os cintos Façam a festa por mim E quando lavarem a mágoa E quando lavarem a alma E quando lavarem a água Lavem os olhos por mim Quando brotarem as flores Quando crescerem as matas Quando colherem os frutos Digam o gosto pra mim Digam o gosto pra mim Álbum  Nos Dias de Hoje 1978  

LivroErrante lê Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa

     O grupo LivroErrante está lendo Grande Sertão, Veredas de Guimarães Rosa.  As integrantes se reunem virtualmente todas as quartas-feiras  às 19h e leem em voz alta durante 1 hora.  No próximo dia 28/10 a leitura recomeçará a partir de: Aí mês de maio, falei, com a estrela-d'alva. O orvalho pripingando, baciadas. E os grilos nochirilim. De repente, de certa distância, enchia espaço auela massa forte, antes de poder ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros. Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem.Respirei: a gente sorvia o befejo - cheiro de crinas e rabos sacudidos, o pelo deles, de suor velho, semeado das poeiras do sertão.  Grande Sertão, veredas é um dos clássicos da literatura brasileira. Completou 70 anos de sua primeira edição.  ( imagem da primeira edição)  Se você quiser participar, faça contato com o blog.

Você Sabe O Que Significa a Expressão "Ao Vencedor As Batatas"?

Num de seus romances mais famosos,   Memórias póstumas de Brás Cubas   (1881), Machado de Assis apresenta a tese do filósofo Joaquim Borba dos Santos, nomeada Humanitismo. O Humanitismo, assim como a teoria da seleção natural, lançada por Charles Darwin entre 1842 e 1844, está baseado na sobrevivência dos mais aptos e enxerga a guerra como forma de seleção da espécie. A filosofia de Quincas Borba afirma que a substância da qual emanam e para a qual convergem todas as coisas é Humanitas. Portanto, Humanitas é o princípio único de tudo o que existe. Sua teoria é mais amplamente explorada no romance que Machado publica em 1891, Quincas Borba. Para explicá-la, a personagem de Quincas Borba criou a frase: “Ao vencedor as batatas!” No sexto capítulo de  Quincas Borba , Machado de Assis dá voz ao filósofo para que ensine ao amigo Rubião seus conceitos filosóficos: “Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que ass...

A Coruja Que Era Deus, fábula de James Thurker

Era uma vez numa meia noite sem estrelas uma coruja que estava numa galho  de um carvalho. Duas toupeiras, em silêncio, tentavam passar despercebidas.     -Vocês! disse a coruja ?    -Quem ? responderam com voz trêmula, de medo e de pasmo, porque não podiam acreditar que alguém pudesse ver naquela noite escura.    -Vocês duas! disse a coruja. As toupeiras fugiram correndo e disseram às outras criaturas do campo e da floresta que a coruja era o maior e mais sábio de todos os animais porque podia ver no escuro e responder a qualquer pergunta.     -Quero ver isso!", disse uma serpentário, e chamou a coruja uma noite quando estava muito escuro. - Quantas patas estou levantando?", perguntou o serpentário.    -Duas, disse a coruja, e estava certo.    -Pode você dar-me outra expressão que signifique 'ou seja' ou 'isto é'?" ,perguntou o serpentário.     -"a saber", disse a coruja.    -O que faz o ama...

Prêmio Nobel de Literatura 2026: Anne Carson ( Canadá)

Carson nasceu em 1950, em Toronto, no Canadá. Em 1981, publicou sua tese de doutorado em Estudos Clássicos, intitulada "Odi et Amo Ergo Sum".   Ao longo de toda a carreira, combinou a escrita de poesia com o trabalho de tradução e o ensino em diferentes universidades. A própria autora já identificou a etimologia das palavras como ponto de partida para todo o seu trabalho. (G1- Natuza Neri) Anne Carson é a 18º mulher Nobel de Literatura Livros de Anna Carson publicados no Brasil: Método do Albertine (2017) Autobiografia do Vermelho (2021) Sobre Aquilo Que Eu Mais Queria (2023) Eros, o Doce-Amargo(2022) A Beleza do Marido (2024) Antigonik (2026) Falas Curtas (2022) Vidro Ironia e Deus (2026)

Dia do Nordestino: Conheço O Meu Lugar, canção de Belchior

O que é que pode fazer o homem comum Neste presente instante Senão sangrar tentar inaugurar A vida comovida Inteiramente livre e triunfante O que é que eu posso fazer com a minha Juventude Quando a máxima saúde hoje É pretender usar a voz O que é que eu posso fazer Um simples Cantador das coisas do porão Deus fez os cães da rua pra morder vocês Que sob a luz da Lua Os tratam como gente é claro Aos pontapés Era uma vez um homem e seu tempo Botas de sangue nas roupas de Lorca Olho de frente a cara do presente e sei Que vou ouvir a mesma história porca Não há motivo para festa Ora esta eu não sei rir a toa Fique você com a mente positiva Que eu quero a voz ativa Ela é que é uma boa Pois sou uma pessoa Esta é minha canoa Eu nela embarco Eu sou pessoa A palavra pessoa hoje não soa bem Pouco me importa Não você não me impediu de ser feliz Nunca jamais bateu a porta em meu nariz Ninguém é gente Nordeste é uma ficção Nordeste nunca houve Não eu não sou do lugar Dos esquecidos Não sou da nação ...

Não Entre Na Noite Pra Se Render, poema de Dylan Thomas ( trad. Jorge Pontual)

Não entre na noite pra se render, Velhice é pra arder até o fim, Lute, lute para a luz não morrer. O sábio aceita bem o escurecer Mas tem palavras de luz e por fim Não entra na noite pra se render. O justo, que ao partir irá sofrer Porque não lhe coube um melhor jardim, Luta, luta para a luz não morrer. O rude que põe o sol pra correr, E vê tarde demais o que é ruim, Não entra na noite pra se render. O sério, ao pé da morte, já sem ver, Acesos os olhos, alegre enfim, Luta, luta para a luz não morrer. E você meu pai, triste de se ver, Amaldiçoe, abençoe-me assim. Não entre na noite pra se render, Lute, lute para a luz não morrer.

Fingimento, conto de Ednice Peixoto

      Quando Tonha resolveu namorar Quincas às escondidas, resolveu também que teria de encontrar uma forma de manter o namoro adiantava falar com Quincas sobre qual maneira seria a melhor, porque sem que as pessoas de casa, principalmente o pai, descobrissem. Não para ele o melhor era fugir e acabar logo com essa história. O pai dela pensava o que, que ele era um cabra safado querendo a riqueza dele? Ele ia mostrar muito bem do que era capaz. Cuidava do gado, cumpria  todas as ordens, mas não era uma rês para andar de cabeça baixa. Estudava, estava terminando o Ensino Médio na escola da cidade, ia encontrar outro tipo de trabalho e casar com Tonha.      A melhor maneira de enganar os de casa era se fingir de triste por ter sido obrigada a acabar o namoro, deixar até de comer. Nem mesmo em Lucinda, a irmā mais velha, poderia confiar. Diabo que só vivia para xeretar a vida dos outros em vez de arranjar uma costela para casar logo, deixando o caminho liv...

As Flores de Novidade, conto de Mia Couto

      Novidade Castigo era filha de Verónica Manga e do mineiro Jonasse Nhamitando. Lhe apelidaram de Castigo pois ela viera ao mundo como uma punição. Se adivinhou logo na nascença pelo azul que a menina trazia nos olhos. Negra, filha de negros: de onde vinha tal azul?      Iniciemos pela moça: ela era espantadamente bela, com face de invejar aos anjos. Nem água fosse mais cristalinda. O porém dea, contudo: era vagarosa de mente, o pensamento parecia nela não pernoitar, Ficara-se assim, desacertada, certa vez em que, já moça, foi atacada por convulsões. Nessa noite, Verónica estava sentada na varanda quando sentiu o aranhiçar da insónia em seu peito.      - Esta noite vou contar estrelas , pressentiu-se.      A noite já roía as unhas à madrugada foi quando aconteceu. No cantinho da casa, a moça se despertou, em espasmos e esticões. Parecia a carne se queria saltar da alma. A mãe, na adiv...