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Flor, crônica de Cícero Belmar

A flor do baobá é branca.De um branco que chega a brilhar,rasgando a penumbra do anoitecer.

A flor do baobá sabe que os morcegos são o seu lobo da

noite,mas,ainda assim,fulgurante. A enfermeira me disse vá para casa, nós cuidaremos dela. Qualquer coisa, eu lhe telefono. De nada adiantaria eu ficar pelos corredores.

     A flor do baobá brota num silêncio profundo, no início da noite, e o silêncio é a voz do espírito. Anoitecia, estava frio. Fiquei ali na praça, sentado num banco, junto da enorme raiz da árvore da vida. É assim que falam dos baobás, árvore da vida, pela sua longevidade. O baobá zomba da morte.

     Meses antes, você me disse vou ficar boa, vou sair dessa. Eu tinha a mesma esperança, respondi sim, meu amor, você vai ficar boa, embora ambos tivéssemos mais incertezas do que respostas.

     A flor do baobá está consciente do legado de sua beleza e do perigo dos morcegos. Por isso exala um cheiro desagradável, na esperança de afugentá-los. Contraditoriamente, atrai a volúpia dos morcegos exatamente por aspergir esse odor.

     Um filme passando na minha cabeça: há menos de um ano, você pegou o resultado do exame e quem ficou arrasado fui eu. Você me disse tenha fé, não deixe que a tristeza murche sua vida. Eu respondi como ter fé se deu positivo, não está vendo isso aqui? Você, tranquilamente:

     - Quando a gente faz um exame, já sabe. Ele só poderia dar positivo ou negativo. Deu positivo, o que podemos fazer? Encarar o tratamento.

Simples assim, otimista e pra cima. Falou imperturbável, naturalmente, e eu nunca a admirei tanto como daquela vez. Fiquei olhando para o nada, refletindo sobre seu autocontrole, sua maturidade, sua aceitação das coisas inesperadas. Vamos homem, reaja, a vida continua, afirmou. Eu me senti obrigado a reagir, a vida continuava.

     - A gente renasce quando enfrenta esses momentos difíceis, você me disse, passando a mão em meus cabelos.

     Hoje, no início da tarde, quando ainda estava indo visitá-la no hospital, vi os pêndulos das flores do baobá. Pensei: acompanhei os casulos crescendo. Assim foram os dias, vi todo o processo. De pequenos, transformaram-se em grandes bolas verdes fechadas.

Abelhas picavam a parte de baixo dos pêndulos. O que as abelhas significam?

    - Será que as flores brotam hoje?

    As abelhas picavam o casulo que guardava a flor. Agora tenho a resposta, as picadas é que forçam o casulo a se abrir. A flor precisa das abelhas para sair de um mundo para o outro.

     Ao anoitecer, os casulos finalmente não resistiram ao ataque das abelhas. As cascas verdes retorciam-se para cima, expulsando a flor que havia dentro de cada  um deles.

     Flor de cabeça para baixo, de pétalas misteriosas. Beleza extraordinária, branca, branca, branca.

    Cada crise, cada obstáculo, representava um peso. Como se o peso fosse mais para mim do que para você, que estava doente. Eu sempre fui meio covarde. Você, não, doce e forte.

     Há días você, muito fraca, debilitada, deitada na cama do hospital, tomava drogas fortes. Dormia, e eu velava o seu sono, incerto de sua cura. Os médicos iriam fazer a cirurgia como última tentativa. Ainda havia uma possibilidade. E nessa possibilidade eu me agarrava.

     Chegaram os morcegos. Às centenas. Para receber a seiva da flor recém-nascida, beijar o branco incandescente. Os morcegos fazendo festa em torno da flor; a beleza das pétalas projetava-se na felicidade deles.

     Saí do hospital, não quis ir para casa. Preferi ficar vendo a flor e os morcegos. Fazer o quê, em casa, sozinho? Bater a cabeça nas quatro paredes, chorando, desesperado? Pelo menos ali, na praça, ao ar livre, o mundo me parecia menos sufocante. O forte odor das flores não é muito diferente do que sinto.

     De exausto, cochilo no banco. Sou despertado pelo telefonema. A voz da moça dizia venha com urgência para o hospital que sua mulher piorou. Entendi.

     Minha esperança era de que você voltaria a sorrir, a ser aquela pessoa que sempre foi, leve e feliz. restava a trágica constatação de que não havia mais nada a fazer.

     Minhas mãos tremendo, meus olhos eram incredulidade, não conseguiam derramar lágrima. Ai, meu Deus, por que isso está acontecendo? Uma pergunta tão boba e desnecessária, mas que a revolta exigia fazer: por quê? Uma vontade de gritar, mas para quem ouvir?

     Faltava-me o chão, nunca imaginei o mundo sem você, Flor.

     O corpo na laje, envolto num lençol verde. Diante do corpo, minhas fragilidades e impotências davam tapas no meu rosto. O gelo do ar-condicionado da sala me amortalhava.

      É humilhante ver o corpo de uma pessoa sem vida - uma pessoa tãp forte e tão doce - sobre a laje de um necrotério de hospital. O que é a vida? Tanto cuidado, tantas ponderações, tantas normas, tantas vaidades. E tanta história. Tudo ali sobre a laje. Tanta inteligência, tanta ideia, tanto sentimento. A morte luta contra a memória do afeto.

     Eu não acreditava no que via: seu corpo coberto da cabeça aos pés, inerte. Mas eu não via os pés, cabeça, nada. E alisava aquele pacote envolto no lençol verde. Seu corpo todo coberto, enfaixado.

     Ai, minha amada, minha querida. Minha grande amada, minha querida, meu amor. E o silêncio. E o engasgo. E as mãos trêmulas.

     O pacote verde na laje, acho que estes são seus braços dobrados sobre o corpo. Aqui, suas mãos. Rasgo o lençol, encontro seus dedos cor de cera. Toco neles, seus dedos longos e frouxos, que foram morenos. Eu ergui um pouco mais o pano verde, encontrei sua mão descoordenada, flácida, quieta. Estava fria, calor nenhum.

     Fiz o que era de se esperar. Chorei. Pela miséria humana, pelas nossas fraquezas, pelo ridículo de nossa natureza. Até que o meu ouviu o que  certamente você diria, otimista e alegre, numa situação como aquela.

     De manhã, muito cedo, aviso a alguém do  necrotério que preciso sair para resolver algumas burocracias próprias dessa situação. Necessariamente atravesso a praça onde está o baobá.

     Dizem que a flor do baobá dura vinte e quatro horas. O certo é que, durante a madrugada, a pétalas perderam a brancura incandescente. elas agora estão amarelas, com pintas de ferrugem.

     A flor do baobá dura apenas o tempo de sua própria eternidade. Enquanto há incandescência. Em poucas horas, vive todas as estações. O resto é resquício de sua vida. 

     Somente os poucos que tiveram a graça de assistir ao espetáculo do seu desabrochar podem falar de sua beleza.

   





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