Caminho
Ele não tinha mais sapatos e seus, pés, àquela altura, já eram outra coisa: um par de bichos disformes.Dois animais dentados e imundos. Duas bestas, presas aos tornozelos, incansáveis, avante, um depois do outro, avante, conduzindo Samuel por dezesseis longos e dolorosos dias sob o sol.
Nos primeiros dias o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas ns seus pés chiavam em contato com o asfalto em brasa, inclemente. De tão secos, fizeram silêncio. Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra, esturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de piedade do inimigo. As pernas, gêmeos paradoxos: quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram, até nas canelas sujas que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desterrado, andando sempre em linha reta.
Dezesseis dias. Por vezes olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na história do homem caído que a mãe, Miriinha, contava. Dizia que foi num dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre, quando ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta.
Um vez li numa rápida entrevista, Gabriel Garcia Márquez dizer que só europeu poderia chamar a literatura dele de fantástica. Só que não conhecia a América Latina falaria assim. Noutra ocasião ele diz que tudo o que aparece em Cem Anos de Solidão, aconteceu realmente, ele "apenas" deslocou os fatos. Bem, esse "apenas" era genial. Quando li
Oração Para Desaparecer, vi traços dele e adorei saber que a autora foi da escola de roteiristas. Agora acabei de ler o inteligente e divertido
A Cabeça de Santo, tive o mesmo sentimento e pensei... "dá um filme". Pois não é que dá mesmo? Segue matéria do G1 sobre o livro, o filme e a formidável Socorro Acioli:
Romance da autora Socorro Acioli se baseia em estátua de Santo Antônio que ficou incompleta na
cidade de Caridade, no Ceará. Por causa do calor, longa vai precisar construir cabeça cenográfica. Por: Thaís Brito, g1 CE
São quase 40 anos de um Santo Antônio fragmentado no sertão central do Ceará. O corpo sem cabeça da estátua está no alto do morro no município de Caridade. A quase três quilômetros de distância, repousa a cabeça em meio às casas da rua Cento e Dois, no Conjunto Habitacional. A obra que nunca deu certo virou história de repercussão internacional e vai parar no cinema.
O projeto da estátua de Santo Antônio no pico do morro começou em 1984, e a ideia do então prefeito, Raul Linhares, era atrair o turismo religioso para a cidade, seguindo os passos da vizinha Canindé. Porém, a obra parou em 1986 por falta de recursos. E a cabeça, montada no chão, nunca foi levada até o corpo.
Em Caridade, há quem explique que ela ficou muito pesada e que não poderia subir o Morro do Serrote devido aos ventos fortes.
O que se sabe é que, até hoje, a cabeça faz as vezes de muro na casa de número 25, onde morava o engenheiro da obra. A estrutura foi montada ali com a ajuda de outros moradores. E virou uma lenda da cidade, tendo abrigado até mesmo um homem que morou lá dentro.
Ao reler esse detalhe em um recorte de jornal, a escritora cearense Socorro Acioli encontrou o que procurava: uma ideia original para um novo projeto de ficção.
"Foi a história que eu mais senti força das que eu tinha copiado e colado (em recortes de jornais). Era essa da cabeça do santo porque eu sabia que eu tinha ali muitos personagens para aparecer e possibilidades de desenvolvimento", contou a escritora ao g1.
Em menos de dois dias, Socorro esboçou a história de um homem que morava dentro da cabeça abandonada do Santo Antônio. Foi com essa ideia que ela conseguiu ser a única brasileira aceita para participar da oficina de criação orientada pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez. O curso foi realizado em Cuba, no ano de 2006.
Antes disso, a autora tinha vivências pelo interior do Ceará, principalmente por ter família na região do Cariri. Mas era apenas pelas reportagens locais que Socorro conhecia a história do santo sem cabeça no Sertão Central.
"Na semana anterior à viagem, eu recebi um convite para dar uma palestra em Tauá, e eu disse que iria com a condição de parar em Caridade. E aí eu parei e filmei porque eu queria ver a cabeça, ver as proporções, o tamanho real. E eu nem sabia que eu ia precisar dessa filmagem quando eu chegasse lá na oficina. Porque ele (Gabriel García Márquez) pediu para ver. Ele não acreditou que era verdade, achou que eu estava confundindo as coisas e pediu para ver", detalha a autora.
A partir da existência da cabeça abandonada, Socorro Acioli desenvolveu uma história original, com uma trama que criou sem procurar reproduzir o que aconteceu na cidade. Lançado como romance em 2014 e já traduzido para o inglês e o francês, o livro A Cabeça do Santo traz o personagem Samuel como um jovem que chega à fictícia cidade de Candeia em busca do pai que nunca conheceu. Sem ter onde dormir, Samuel encontra abrigo na cabeça da estátua. Ele não sabe que, estando ali, vai conseguir escutar as mulheres fazendo preces de amor para Santo Antônio, o santo casamenteiro.
A história fez sucesso nacional e internacional. E vai virar filme. O roteiro do longa está sendo trabalhado, e as gravações podem ser realizadas na cidade de Caridade.
Desde 2021, Caridade vive uma nova tentativa de homenagear Santo Antônio. Desta vez, o Governo do Ceará anunciou a construção de um complexo religioso no Serrote do Cágado, o ponto mais alto da cidade.
O projeto do Monumento de Santo Antônio deve trazer uma nova estátua com 36 metros de altura. O lugar deve ter, ainda, um museu, um mirante, uma capela, pontos comerciais, escadarias, rampas de acesso e estacionamento.
Por enquanto, os moradores da cidade seguem à espera de um santo completo. A previsão inicial de entrega era maio de 2022. Segundo a Superintendência de Obras Públicas, as obras do monumento estão com 50% de execução. A nova previsão é que o complexo fique pronto em 2024.
A pasta informa que partes da escultura da cabeça do santo e do revestimento da estátua são feitas em parceria com a Prefeitura de Caridade, que entrou com investimento municipal de cerca de R$ 350 mil. Por conta do Governo do Ceará, o investimento passa de R$ 7,86 milhões.
Os direitos autorais para adaptar "A Cabeça do Santo" como filme foram vendidos para a produtora Joana Mariani, que assumirá a direção do longa. Quem fez a primeira versão do roteiro foi a cearense Natália Maia, que também foi uma das roteiristas do premiado longa-metragem cearense "Pacarrete", de Allan Deberton.
Como detalha Socorro, o filme não deve ficar pronto antes de 2024. Isso porque o projeto ainda precisa passar por fases importantes, como financiamento, definição do elenco e início das gravações. O diálogo foi iniciado com a Prefeitura de Caridade para possíveis filmagens no município.
O que ela adianta é que a produção vai precisar construir uma cabeça do santo cenográfica. Quando Socorro esteve dentro da cabeça real para gravar uma entrevista para o Fantástico, o calor intenso mostrou que será impossível ficar no lugar por várias horas com equipes de produção e atores.
Outro fator é a diferença da ambientação real para a do livro: na história de Socorro, a cabeça do santo fica em uma parte isolada da cidade. Não é o caso real em Caridade, com a estrutura no meio de uma rua com várias casas.
A direção e o roteiro do filme ainda precisarão definir se outras cidades cearenses estarão na filmagem.
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