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Amor de Menino, crônica de Fabrício Carpinejar

     Falava errado no Ensino Fundamental, com dificuldade de pronunciar o r ou diferenciar o b do p e o f do v.
   Ninguém respeitava minha algaravia, língua enrolada, presa ao céu da boca. Nasci no país estrangeiro do ventre de minha mãe.
     Virei motivo de piedade escolar.
   Os amigos debochavam de mim, pediam para que repetisse tênis a qualquer momento, para que soasse como aquilo... vocês me entendem.
     – Fabrício, teu tênis está desamarrado!
     E o pior é que não sabia amarrar o tênis, o que facilitava a reincidência da piada.
    Fiz fonoaudiologia (por que um nome tão complicado para quem pena com a dicção?) por cinco anos; pisava, contrariado, os palcos do colégio; apresentava, nervoso, trabalhos em grupo no quadro-negro.
     Ia, cumpria os objetivos de modo mediano, satisfatório, no limite das notas.
    Enfrentei meu medo com muito medo. Em algum lugar de mim, todas as ofensas estão guardadas e chaveadas. Nem procuro para não chorar.
     Se eu perdoei as agressões? Acho que não. Não me lembro, não me esforço para lembrar, que é o mais próximo que cheguei do perdão.
     Meu pai dizia que precisava imitar Demóstenes, que era gago. Ele colocava pedras na boca e rugia mais alto que o som das ondas. Tornou-se o maior orador da Grécia.
     Fui um pouco Demóstenes no quintal de casa: em vez de pedras, mastigava as minhas dores. Em vez do mar, disputava meus gritos com o canto do quero-quero.
     Tropeçava no idioma e seguia em frente. Sou o único brasileiro naturalizado brasileiro.
   Assimilei macetes de sobrevivência. Evito sons perigosos, decorei enormidade de sinônimos do dicionário Aurélio para não me incriminar novamente. Assumi um papel de liderança verbal para não sofrer com a timidez.
     Amadureci armado de defesas.
    Mas há um único momento em que relaxo; um único em que me torno vulnerável, ao lado de minha mulher.
     Ela é minha tradutora quando estou cansado e demolido e as palavras custam a sair legíveis.
     É minha intérprete no carro, na rua, nas festas.
    Com imensa paciência, me explica aos amigos, como se eu estivesse discursando em inglês.
    Completa minhas frases sem sentido, arruma os contextos, fundamenta a loucura de meu raciocínio.
    Fico coerente em seus lábios, organizado, biblioteca em ordem alfabética.
    Transpõe nosso dialeto, corrige ambiguidades e me protege de incompreensões.
   Entende que, exausto, regrido e abro a boca preguiçosamente, não termino o pensamento, sou um isqueiro que somente produz faíscas.
    Ela me soletra, minha letra de sol, meu fogo inteiro.
   Queria ter conhecido Katy na minha infância, porque hoje meu amor por ela também é um amor de menino.





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