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A Estranha Quiromante, crônica de Thiago de Mello


     Sou um homem incrédulo às profecias que não sejam as anunciadas pela boca das nuvens. Apesar
disso, na tarde de domingo, entreguei afinal minha mão à quiromante, de quem a amiga querida me falava aconselhando-me a visitá-la, pois se tratava de "uma pessoa diferente".
     Ela pegou minha mão, ficou olhando, e de repente disse que eu era um caso perdido: haveria de viver sempre seguindo as falas do meu coração, que isso nos tempos modernos dava em sofrimento, mas eu nascera assim, assim morreria - não adiantava querer desentortar a vida. Fez uma pausa, fitou-me nos olhos com um jeito que me calou fundo, de tanta e doce ternura, e logo prosseguiu a falar de mim e de meus fados, com o rosto de novo inclinado sobre a minha mão direita.
     Confirmou a história dos sofrimentos: ainda me estavam reervados alguns, além dos muitos já curtidos, mas que não tardaria muito, não senhor, soprariam ventos meljores, melhorando sempre até a velhice, que. seria tranquila e feliz: Que viveria muito, ora essa, então eu guardava temores a esse respeito? fez a pergunta, sorriu, e deixou cair a advertência: minha vida dependeria sempre de minhas mãos. Disse, e ficou-me olhando. foi então que eu vi como aquea mulher era linda, envelhecida de cinquenta anos, mas linda, que vi quanta delicadeza de traços havia em seu rosto, iluminado por uma estranha e envolvente bondade, o semblante que irradiava uma serena confiança nas coisas que dizia, uma voz meiga e amiga.
     Não me lembro do que ela me falou em seguida, recordo vagamente de ter ouvido a palavra "ideal". É que, intiramente descurioso de minha sorte, eu contemplava os seus bonitos cabelos que rebrilhavam, nas entressombras da sala, próximo ao crepúsculo, com o grave e belo brilho de prata muito antiga. Voltei a escutá-la, mais atento. Ela me disse que a saúde andava trôpega, nada de grave, ficasse eu descansado: pulmão firme, pulmão era o de um boi, o estômago, para o qual jamais liguei, é que não ia muito bem, que eu abolisse terminantemente a pimenta, fosse a malagueta, fosse a do reino ou qualquer outra; e que eu tratasse de dormir mais.
     Depois começou a rir, de contente, e foi quase em segredo que ela me revelou que eu não tinha mais jeito não, que eu era um poeta mesmo, coitado de mim, que pela poesia daria o meu reino terrestre. Depois falou de parentes distantes,que todos iam bem; em seguida foram as viagens; disse que eu faria uma dentro em breve, que a deixasse ver se era curta ou longa: longa sim senhor, e demorada, mas, vamos devagar, que dependia da moça morena, por quem eu andava de muita querença, sim, senhor, que estava gostando de ver meu afeto pela moça morena, e disse que os passos da moça, para mim, eram como se fossem um ímã, nada disso, eram como se fossem uma bússula, e que eu fazia muito bem, que eu amasse, porque o amor era a grande verdade do mundo, e queeu, vivesse sem deixar que a esperança fenecesse em meu coração, acreditando sempre na vida porque a vida era bela, acreditando sempre nos homens porque os homens, no fundo, são todos de boa índole, e mesmo os mais vazios de ternura e de respeito pelos seus semelhantes estavam todos à espera de uma oportunidade, de uma palavra fraterna e amiga.
     Subitamente percebi que havia muito tempo que ela já não estava olhando mais para minha mão, que vinha falando com seus olhos carinhosamente pousados nos meus. Foi quando descobri que essa mulher extraordinária avançara além do comum na sua aprendizagem de vida: ela não precisava das linhas de mão nem de ajuda de cartas; simplesmente pela face e pelos olhos dos homens ela podia conhecer-lhes o destino; no jeito de olhar, nos vincos do rosto, nas comissuras dos lábios, no imponderável, afinal, que existe em toda criatura, ela aprendera a distinguir as origens das marcas deixadas pela vida.
     Saí de casa sentindo-me como se bruscamente eu voltasse a ser criança, de coração limpo e bom. Antigamente, eu acreditava somente nas nuvens. Hoje acredito também nessa bondosa mulher, que não diz como se chama porquenos anjosnão têm nome.

Em: Um Século Em Cem Crônicas, org. Maria Amélia Mello, págs. 98-100

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