quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Nascido em 31 de Outubro: Carlos Drummond de Andrade.

RELIGIÃO

Bichinho quer ir s'embora da sala
pra dormir no sol do dia bonito.
Mas a porta da sala está fechada
e ele não pode abrir a porta.
Bichinho planta-se de cócoras muito solene
diante da porta
e põe-se a adorá-la.
põe-se a adorá-la para que ela se compadeça.


Fonte: Folha de São Paulo on line 6.10.2019


Tem mais de Drummond no blog, passa

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Nascido em 30 de Outubro: Raul de Leoni

     Raul de Leoni (Petrópolis, 30 de outubro de 1895 — Itaipava, distrito de Petrópolis, 21 de novembro de 1926) foi um poeta brasileiro.
Concluiu os cursos primário e secundário no Rio de Janeiro, viajando ainda adolescente pela Europa. Tornou-se diplomata em 1917. Com Ode a um poeta morto, 1919, conquistou fama nos meios literários. Pouco depois de eleito deputado fluminense, retirou-se para Itaipava, onde pretendia curar-se da tuberculose que o vitimou. Antes, publicou Luz Mediterrânea, 1922. Após a sua morte em Itaipava seu corpo foi conduzido para Petrópolis, que lhe prestou suas últimas homenagens, sepultando-o à sombra do Cruzeiro das Almas, erigindo-lhe um mausoléu e dando o seu nome a um trecho da Rua Sete de Setembro.
Mais de oitenta anos da sua morte, Raul de Leôni é venerado por seus inúmeros leitores, mas ainda não chegou às carteiras universitárias dos cursos de Letras do nosso pais, onde por mérito poético, e para o bem dos estudantes da poesia brasileira, já deveria estar presente.
Escola Literária: (Pré-Modernismo,Simbolismo)





Velha Natureza

de 

Tudo que a velha Natureza gera
Vai sempre rumo do melhor futuro;
Ela fecunda com o ânimo seguro
De quem muito medita e delibera…

O seu gênio de artista mais se esmera
Na teoria sutil do claro-escuro,
Com que exalta a verdade mais austera,
Frisando em tudo o símbolo mais puro…

Só faz o Mau e o Hediondo para efeito
De projetar mais longe e sem nuance
A alma cheia de luz do que é perfeito,

Como cavou o Abismo nas entranhas,
Para dar mais relevo e mais alcance
À soberba estatura das montanhas…


Imagem: Natureza, do artista plástico Luiz Fernando de Aquino

domingo, 27 de outubro de 2019

Nascido em 27 de Outubro: Graciliano Ramos

    A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho  queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa nas base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
     Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
    Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que advinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
        – Vão bulir com a Baleia? 
      Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
       Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se difereciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiquiro das cabras. 
      Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinhá vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-­se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
     Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
     Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
     Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
     – Capeta excomungado.
   Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
     Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
     Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou um pedaço da cabeça.
     Fabiano percorreu o alpendre, olhando as barúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:
     -Ecô! ecô!
     Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha.  Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a e esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs latir desesperadamente.
     Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na caca chorando alto. Fabiano recolheu-se.


     E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí por um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
     Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
     Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha as folhas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteira, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-­se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latina: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tomavam-se quase imperceptíveis.
     Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
     Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava­-se.
     Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.
     Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
     Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
     O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
     Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
     Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
     Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a importância em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades.
     Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo.
     Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
     Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
     Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
     A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
     Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
     Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

Caricatura de Fábio Abreu.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Nascido em 24 de Outubro: Ziraldo, O Escritor Malucão do Menino Maluquinho


Ziraldo (1932) é um cartunista, desenhista, jornalista, cronista, chargista, pintor e dramaturgo brasileiro. É o criador do personagem de quadrinhos infantil “O Menino Maluquinho”. Foi um dos fundadores da revista humorística “O Pasquim”.
Ziraldo Alves Pinto nasceu em Caratinga, Minas Gerais, no dia 24 de outubro de 1932. Seu nome vem da combinação dos nomes de sua mãe, Zizinha e o de seu pai Geraldo. Desde criança já mostrava seu talento para o desenho. Com seis anos teve um desenho seu publicado no jornal Folha de Minas. Estudou no Grupo Escolar Princesa Isabel. Em 1949 foi com a avó para o Rio de Janeiro, onde estudou por dois anos no MABE (Moderna Associação de Ensino). Em 1950 retornou para Caratinga e concluiu o científico no Colégio Nossa Senhora das Graças.

Carreira 

A carreira de Ziraldo começou na revista “Era Uma Vez”, quando fazia colaborações mensais. Em 1954, Ziraldo começou a trabalhar no jornal “Folha da Manhã” (hoje Folha de S. Paulo), desenhando em uma coluna de humor. Em 1957 foi para a revista O Cruzeiro, publicação de grande prestígio na época. Nesse mesmo ano, formou-se em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1958, casou-se com Vilma Gontijo. Com quem teve três filhos, Daniela, Antônio e Fabrízia.
Em outubro de 1960, Ziraldo lançou a primeira revista brasileira de quadrinhos e colorida, de um só autor, intitulada “Pererê”. As histórias da revista já vinham sendo publicadas em cartuns nas páginas da revista O Cruzeiro, desde 1959. As histórias se passavam na floresta fictícia “Mata do Fundão”. A publicação da revista durou até abril de 1964, quando foi suspensa pelo regime militar. Em 1975, a revista foi relançada com o nome de “A Turma do Pererê”, mas só durou um ano.
Em 1963, Ziraldo ingressou no Jornal do Brasil. Nessa época, em plena ditadura militar, lançou os personagens “Supermãe”, “Mineirinho” e “Jeremias, o Bom”, homem atencioso, elegante, vestido com terno e gravata e que estava sempre disposto a ajudar os outros. O personagem marcou as charges fazendo críticas os costumes e o comportamento da época.
Em 22 de junho de1969, foi lançado o semanário “O Pasquim”, um tabloide de humor e de oposição ao regime militar, que renovou a linguagem jornalística, do qual participavam diversas personalidades importantes, como os cartunistas Jaguar e Henfil, os jornalistas Tarso de Castro e Ziraldo, entre outros. Em novembro de 1970, toda a redação do jornal foi presa depois da publicação de uma sátira do célebre quadro do Dom Pedro às margens do Rio Ipiranga. A publicação, que fazia muito sucesso, circulou até 11 de novembro de 1991.
Em 1969, Ziraldo lançou seu primeiro livro infantil “Flicts”, que relata a história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo. Nesse livro usou o máximo de cores e o mínimo de palavras. Nesse mesmo ano, recebeu o Prêmio Nobel Internacional do Humor, no 32º. Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas.
Em 1980, Ziraldo lançou o livro "O Menino Maluquinho" um dos maiores fenômenos editoriais no Brasil. O menino maluquinho é uma criança, que vive com uma panela na cabeça, é alegre, sapeca, cheio de imaginação e que adora aprontar e viver aventuras com os amigos. Em 1981, o livro recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Em 1989, começou a publicação da revista e das tirinhas em quadrinhos do personagem. A obra serviu de inspiração para adaptações para o teatro, televisão, quadrinhos, videogames e cinema.
As obras de Ziraldo já foram traduzidas para diversos idiomas e publicadas em revistas conhecidas internacionalmente, como a inglesa Private Eye, a francesa Plexus e a americana Mad. Em 2004, Ziraldo ganhou, com o livro "Flicts," o Prêmio Internacional Hans Christian Andersen. Em 2008, Ziraldo recebeu o VI Prêmio Ibero Americano de Humor Gráfico Quevedos. Em 2009, foi lançado o livro “Ziraldo em Cartaz”, que reúne cerca de 300 ilustrações para peças elaboradas pelo cartunista. Em 2016, Ziraldo recebeu a Medalha de Honra da Universidade Federal de Minas Gerais.

Obras de Ziraldo

  • Flicts (1969)
  • Jeremias, o Bom (1969)
  • O Planeta Lilás (1979)
  • O Menino Maluquinho (1980)
  • A Bela Borboleta (1980)
  • O Bichinho da Maçã (1982)
  • O Joelho Juvenil (1983)
  • Os Dez Amigos (1983)
  • O Menino Mais Bonito (1983)
  • O Pequeno Planeta Perdido (1985)
  • O Menino Marrom (1986)
  • O Bicho Que Queria Crescer (1991)
  • Este Mundo é Uma Bola (1991)
  • Um Amor de Família (1991)
  • Cada Um Mora Onde Pode (1991)
  • Vovó Delícia (1997)
  • A Fazenda Maluca (2001)
  • A Menina Nina (2002)
  • As Cores e os Dias da Semana (2002)
  • Os Meninos Morenos (2004)
  • O Menino da Lua (2006)
  • Uma Menina Chamada Julieta (2009)
  • O Menino da Terra (2010)
  • Diário de Julieta (2012)
Veja mais Ziraldo neste blog


Fonte: ebiografia.com
Nota:  Ziraldo desmentiu no Instagran notícia de sua morte.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A Maçã de Mariana, Ronaldo Wrobel

O metrô parou na estação Botafogo enquanto a criança mordiscava a maçã no colo da mãe: come a frutinha, Mariana! Come a frutinha! Estávamos todos cansados, vagão lotado, sete da noite. Quando o alto-falante avisou que as portas iam se fechar, a menina não perdeu tempo. Atirou a maçã lá fora. Gesto certeiro, estudado. Portas fechadas, assunto encerrado. A mãe ainda teve tempo de ver a fruta rolando na plataforma, perplexa. Nada a ser feito. O que não tem solução, solucionado está. Tchau frutinha!

Risada geral. Até a mãe riu, meio constrangida. Mariana olhou a plateia, toda-toda, envaidecida. Alguém comentou qualquer coisa sobre crianças e a mãe admitiu que a menina era “terrível”. Outro alguém contou a última travessura do neto, gargalhadas de auditório. Me lembrei de um menino no ombro do pai, tempos atrás, metrô abarrotado, hora do rush. A cada freada o menino berrava: estamos chegandoooo!!! Graças a Mariana éramos uma alegre irmandade de estranhos. Em Copacabana, o vaivém desfez o clima e a vida voltou ao normal. Mariana e a mãe saltaram na Siqueira Campos, segui para o Leblon com a alma risonha.
Gosto de conviver com estranhos. Adoro cenas vadias. Toda cidade grande traz o anônimo como coadjuvante forçoso e rotineiro. Legiões de anônimos vão e vêm como flechas entrecruzadas. É para eles que nos vestimos, que ajustamos a camisa, o penteado, é deles que esperamos reações triviais, boas ou más, seja uma cortesia ou um olhar hospitaleiro, às vezes uma grosseria ou um muxoxo indigesto. O que é um metrô lotado senão um festival de impressões mútuas? Tendências, peculiaridades, belezas e feiuras, o mundo sem os protocolos e condicionamentos de encontros marcados. O olhar de um desconhecido pode ter muitos encantos. Ninguém é totalmente indiferente ao se flagrar na mira de uma espiada ou, digamos, de uma contemplação mais atenta. Estar sozinho entre estranhos tem seu ar libertário, descompromissado, até consolador: quem nunca deu um vexame em público, grato a Deus por não ser identificado? Quem nunca revisitou memórias e sentimentos adormecidos, observando desconhecidos? Quem nunca viveu um prazer gratuito, teve um devaneio baldio ou preferiu ser anônimo na multidão, cercado por gente de quem nada se espera? Outro dia um amigo interiorano disse que evitava desavenças com conterrâneos por saber que passaria o resto dos anos com eles. De vez em quando o amigo sai pelo mundo só para ver estranhos – e ser um deles.
Viagens solitárias costumam ser um tributo ao anonimato. Quase tudo é assumidamente fortuito, provisório, avulso, alegórico. A finitude não faz rodeios, você é apenas mais um. Gente, fatos, lugares, sensações, mistérios. Aquele semblante no elevador do hotel? Nunca mais. Aquela interlocução amistosa, aquela paisagem do quarto, aquele esplendor fugaz? Adeus. Guarde nos olhos a água mais pura da fonte, canta Ivan Lins. Corra os campos pela última vez porque tudo vai virar lembrança - na melhor das hipóteses. Certa vez me senti vagamente destratado por alguém que me recebia em sua terra natal. Ciúme bobo, nada demais. A verdade sacudiu meus ombros: amanhã tudo isto será passado, seus céus e infernos não moram aqui, quais lembranças você quer levar para casa? Ou para o metrô.
Ainda vou rir bastante daquela maçã rolando na estação, a mãe, a porta, a cara triunfal de Mariana coroando nossa alegria, a repentina confraternização de estranhos até a próxima parada. Adeus, Mariana. Tomara que você encontre soluções para as maçãs que virão. Caso não as encontre, que ao menos possa rir de outras Marianas para distrair seus cansaços.
Texto extraido da página do autor no Facebook.

sábado, 19 de outubro de 2019

Nascido em 19 de Outubro: Vinicius de Moraes


       
Poema de aniversário

Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte...
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.
Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito.
E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos saltos dançarinos para alcançar folhas, aves, estrelas – e a ti mesma, luminosa Lucina, e derramar claridade em mim menino.
Ah, pudesse eu dar-te o meu primeiro medo e a minha primeira coragem; o meu primeiro medo à treva e a minha primeira coragem de enfrentá-la, e o primeiro arrepio sentido ao ser tocado de leve pela mão invisível da Morte.
E o que não daria eu para ofertar-te o instante em que, jazente e sozinho no mundo, enquanto soava em prece o cantochão da noite, vi tua forma emergir do meu flanco, e se esforçar, imensa ondina arquejante, para se desprender de mim; e eu te pari gritando, em meio a temporais desencadeados, roto e imundo do pó da terra.
Gostaria de dar-te, Namorada, aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-la com tudo o que nela havia de silencioso e inefável - o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores a se tocarem sob a Lua.
E também o instante anterior à tua vinda, quando, esperando-te chegar, relembrei-te adolescente naquela mesma cidade em que te reencontrava anos depois; e a certeza que tive, ao te olhar, da fatalidade insigne do nosso encontro, e de que eu estava, de um só golpe, perdido e salvo.
Quisera dar-te, sobretudo, Amada minha, o instante da minha morte; e que ele fosse também o instante da tua morte, de modo que nós, por tanto tempo em vida separados, vivêssemos em nosso decesso uma só eternidade; e que nossos corpos fossem embalsamados e sepultados juntos e acima da terra; e que todos aqueles que ainda se vão amar pudessem ir mirar-nos em nosso último leito; e que sobre nossa lápide comum jazesse a estátua de um homem parindo uma mulher do seu flanco; e que nela houvesse apenas, como epitáfio, estes versos finais de uma canção que te dediquei:
... dorme, que assim
dormirás um dia
na minha poesia
de um sono sem fim...


In: Para Viver Um Grande Amor.
Caricatura: Eric

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A Noite Dos Olhos, Heloisa Seixas


 Amanhecia quando ele chegou, e eu estava aqui, exatamente aqui, nesta cadeira de balanço onde me recosto agora, a cadeira de onde contarei — pela última vez — a história.
     Primeiro, ouvi um ruído na porta. Apenas um roçar, um murmúrio, mas que me pôs em alerta, sem que eu soubesse por quê. Com as costas eretas, fiquei à espera.
Antes de me levantar, queria a confirmação de que ouvira de fato um som. Passara uma noite inquieta. Adormecera na sala, cansada demais para subir os degraus, um a um, rumo ao quarto onde Carlos me aguardava, em nossa cama fria. E tivera sonhos agitados, nos quais me vira voando e dançando e sangrando nas mãos. Sentia‑me exaurida, como se houvesse caminhado no sono.
Apurei os ouvidos.
Nada.
     Olhei em torno. Meus olhos, virgens ainda, inocentes do que viria, percorreram estas mesmas paredes que hoje me cercam, conspurcadas. Vi seus ângulos e junções, os cantos onde a penumbra se adensa, mesmo se a madrugada vai alta. Observei o arco que divide as duas salas. Revi mentalmente a porta do corredor, a escada em curva, com seu corrimão de madeira torneada e escura. E esperei.
     Logo, o ruído se repetiu, dessa vez mais forte. E decidi levantar‑me. Ainda olhei pela janela o dia que nascia, rasgando em tiras vermelhas o último céu, da última madrugada. Senti que minhas mãos estavam frias. Fechei o roupão sobre o corpo, mas por um motivo qualquer não calcei as pantufas. Foi descalça que trilhei o chão de tábuas corridas, cuja frialdade me subiu pelas plantas dos pés em pequenos choques, ínfimos raios. Quando caminhava, fui tomada por um sobressalto, talvez porque voltassem os baques na porta, talvez porque eles ressoassem em meu peito. Ou quem sabe era apenas meu coração, que batia descontrolado. Mas pode ser também que eu já pressentisse que ele estava lá, do outro lado da porta.
     Pela fresta entreaberta, a princípio enxerguei apenas as silhuetas das árvores, brotando das sombras com seu brilho pálido. Quando a madrugada espalha na vegetação suas luzes, a natureza se reveste de um manto delicado e translúcido, que nos faz ver fantasmas. Assim nascia aquela manhã. E foi em meio à penumbra assombrada que eu vi, pela primeira vez, o brilho dos olhos.
     Eles faiscaram a poucos metros de mim e já — naquele instante — minha reação foi uma ruptura: não me assustei. Ao contrário. O sobressalto que sentia desapareceu por encanto. Ao ver‑lhe os olhos, permaneci imóvel, junto à porta, aguardando, composta.
Hoje, olhando para trás, penso se aquele momento de calmaria já não seria o prenúncio de tudo o que estava por acontecer, pois me senti pacificada demais, como os condenados sem esperança. No rosto dos que estão morrendo surge uma força incomum, em seu semblante resplandece uma grandeza ímpar. Se eu pudesse ver meu rosto então, acho que o veria assim. Senti minha expressão refazer‑se, meu corpo estancar o medo, meu coração recomeçar a bater com mansidão. O universo inteiro pareceu mudar de ritmo quando eu olhei, pela primeira vez, aqueles olhos.
Olhos que brilharam no escuro, com uma fosforescência de matizes ora verdes ora amarelos. Não piscaram. Estavam fixos em mim.
     Há quanto tempo foi isso? Quantas horas, quantos dias? Não sei. O tempo é organizado, partido em pedaços exatos, ordenado pelo homem em sua busca vã por tentar vencer o desconhecido. E eu nada sei de exatidão ou sistemas. Conheço apenas o caos. Meu coração se transformou no epicentro de uma tormenta desde que ele entrou aqui. Dentro e fora de mim, todo o universo foi afetado. Os planetas singram sem sentido algum no espaço, o sangue envereda por veias e artérias na busca cega de caminhos. A única coisa que há, que sempre houve, a única constância — é o silêncio. Nele há sentido, verdade, ordem.
     O silêncio foi a marca, sempre. Nenhuma palavra, nenhum som, nada. Os primeiros segundos, dramáticos, definitivos, foram de quietude absoluta. E eu logo percebi que havia naquela mudez um propósito. Era como se já esperasse por ela. Sabia que nosso contato se daria, todo o tempo, sem o amparo de sons. Aceitei seu silêncio porque era parte do jogo. E, com um gesto de corpo, fiz sinal para que entrasse. Eu o introduzi. Havia, em algum ponto de mim, um alerta, me avisando da imensidão daquele gesto. Mas nada me deteve. Virei‑me e caminhei de volta até o centro da sala, sem medo de dar as costas ao desconhecido.
     E ele entrou. Carlos dormia no quarto, lá em cima. Carlos nada ouviu, nada ouve. Carlos dorme, ainda, seu sono profundo. E o desconhecido entrou. Seus passos não fizeram ruído ao tocar o chão, mas neles nada havia de furtivo. Havia, sim, altivez, domínio. A quietude daquele andar era, como o silêncio de palavras, premeditada e necessária. E no mesmo instante eu percebi que estava pronta para fazer tudo o que ele ordenasse.
     Como pude? E por quê? Por que deixei que acontecesse? Não sei. Sei apenas dos olhos, que ardiam. E de como me prenderam, por um longo tempo. Sei que me curvei, me espojei no chão, rendida, à espera de sua aproximação. E sei de um bloco imenso que cresceu em meu peito, enquanto aguardava, sem tirar os olhos dele. Um bloco feito de fogo e desejo, mas também da mais completa entrega, de devoção e amor, um amor incondicional, que tomou forma dentro de mim, instantaneamente. Sei de como, trêmula, vi que ele se chegava, as narinas dilatadas, me farejando, os olhos cada vez maiores, as pupilas tomando quase toda a íris, enchendo de negror a superfície esbraseada.

sábado, 12 de outubro de 2019

Nascido em 12 de outubro: Fernando Sabino


           
 Marcar um encontro com Fernando Sabino não era tarefa fácil — ainda mais se fosse um pedido de entrevista. Ele se desculpava gentilmente: "Ah, escreve você, coloca umas palavras bonitas na minha boca...".
O autor de "O encontro marcado" explicava que tudo que tinha a dizer estava em sua volumosa obra, que começou a ser construída aos 13 anos, quando escreveu um conto policial para uma revista da PM.
À época, ainda assinava Fernando Tavares Sabino. Aos 18 anos, ouviu de Mário de Andrade, com quem se correspondeu por muitos anos, o conselho: "Se você quiser continuar sendo escritor, tem que encurtar o nome." Ele acatou a opinião do amigo, encolheu a assinatura e esticou a carreira literária ao longo de mais de seis décadas, seja como autor de romances como "O grande mentecapto", seja como escritor de crônicas que narram com humor e lirismo os desacertos e os absurdos da vida cotidiana. Era um "Kafka de eletricidade positiva", nas palavras do poeta Paulo Mendes Campos.
Último dos "quatro mineiros do apocalipse" — os outros eram Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Mendes Campos — Sabino nasceu em 12 de outubro de 1923, em Belo Horizonte. "Dia da Criança que eu sou até hoje", apressava-se em completar. Desde cedo pedira que em seu epitáfio constasse a inscrição: "Aqui jaz Fernando Sabino, nasceu homem, morreu menino." Para ele, o ser humano tinha como tarefa "recuperar a inocência perdida e tornar a olhar o mundo com os olhos lavados de pureza, de quem vê a vida pela primeira vez".
O jeito moleque e o espírito brincalhão acompanhavam-no por toda a parte. Suas raras incursões à vida noturna nos últimos anos eram assim justificadas: "Meus amigos estão no São João Batista, que fecha às 18h", gracejava, numa referência ao cemitério de Botafogo.
O escritor não gostava de atender o telefone. Três secretárias — duas eletrônicas, além de Fabiana — encarregavam-se de filtrar os interlocutores indesejados. Depois das críticas que recebeu pelo livro "Zélia, uma paixão", Sabino restringiu sua vida social. Mas bronqueava quando o chamavam de recluso. Se é certo que era avesso a comemorações, que vivia afastado dos holofotes e que se mantinha arredio às homenagens, ele podia ser encontrado diariamente em caminhadas pelo calçadão de Copacabana ou batendo perna por Ipanema.
A verdade é que Sabino preferia o contato com porteiros, garçons, manobristas, moradores de rua — gente comum, tantas vezes transformada em crônica. Costumava mobilizar os amigos para ajudar figuras como Barbudo e Rubem, dois vendedores de livros das ruas de Ipanema. "Eles não são mendigos, mas o rapa vem e recolhe tudo. São discretos, não atrapalham, será que não tem como conseguirmos uma licença para eles?", perguntava, pedindo que o gesto não fosse tornado público.
Certa vez, junto com Otto, foi até a Barra da Tijuca soltar Barbudo, que tinha sido detido. Sabino tinha uma frase que ajudava a entender sua atitude: "Quando você tem um problema muito difícil de resolver, comece por resolver o problema dos outros."
Com Otto, Hélio e Paulo, Sabino formou a mais produtiva e intensa amizade da literatura brasileira. As cartas que escreveu aos três amigos foram tornadas públicas em 2002. Em "Cartas na mesa", ele dá mostras de uma voracidade epistolar que já tinha sido revelada antes no livro "Cartas perto do coração", reunindo a correspondência do escritor com Clarice Lispector.
Em 2004, Sabino publicou seu último livro, "Movimentos simulados", na verdade escrito aos 23 anos e só agora tornado público.
Sabino mudou-se de Belo Horizonte para o Rio aos 21 anos, já casado com Helena, filha do ex-governador mineiro Benedito Valadares, de quem o escritor ganhou um cartório. Ainda adolescente, publicou seu primeiro livro, "Os grilos não cantam mais". Em julho de 1999, recebeu da Academia Brasileira de Letras (ABL) o maior prêmio literário do país, o Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. Apesar dos convites, nunca quis se candidatar à ABL. Justificava: "Nada contra a academia, mas não tenho vocação para atividades de caráter social, como associações de classe, sindicatos e agremiações."
A bateria e o jazz estavam entre suas maiores paixões. Gostava de dizer que só tocava depois da terceira dose de uísque. A última apresentação de sua banda foi em fevereiro de 2004, no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana, quando foi ovacionado pelo público. Uma vez, encontrou-se com um amigo, que reclamou: "Tem um cara no meu prédio que toca bateria!". Era o próprio Sabino, que depois da queixa resolveu doar o instrumento para dom Hélder Câmara leiloar em benefício da Feira da Providência. Mais tarde, comprou uma nova bateria, que ficava armada em sua casa.
Nos últimos tempos, Sabino dedicava-se a revisar sua obra publicada pela editora Record e a revirar seu baú literário. Não queria deixar nada inédito para ser lançado após sua morte. A razão? "O que não foi publicado é porque não presta."
Há dois anos, Sabino descobriu que estava com câncer no esôfago. O tratamento parecia ter dado certo, mas, há quatro meses, um tumor no fígado o levou a fazer quimioterapia. No começo de setembro, disse a uma amiga que estava tendo uma visão e que iria embora brevemente. Por volta do meio-dia de 11 de outubro de 2004, , na véspera de completar 81 anos, Sabino morreu em seu apartamento, na Rua Canning, em Ipanema, cercado pelos seis filhos. O quadro de saúde tinha se agravado e, desde sábado, era mantido sedado.
Seu velório, no São João Batista, reuniu amigos como os escritores Moacyr Werneck de Castro e Affonso Romano de Sant'anna, o acadêmico Sábato Magaldi, o cartunista Ziraldo e o jornalista Wilson Figueiredo. O Palácio do Planalto divulgou nota lamentando a morte: "Foi com grande pesar que o presidente Lula recebeu a notícia do falecimento de Fernando Sabino. (...) Sabino continuará vivo em seus livros e na memória do povo brasileiro".
Ele nunca reclamou do câncer. Falava do beija-flor que pousava em sua janela, adorava ir na Livraria da Travessa de Ipanema, gostava de andar de ônibus, caminhar pelo calçadão e se fingir de gringo. Até um mês antes de sua morte, ainda estava escrevendo — contou o amigo Marcelo Andrade. — Fernando conservou até o fim o humor e a poesia.
Irrequieto, autor foi editor e cineasta

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Maria Firmina dos Reis. Não Conhece? Vem Comigo, Então

     
São Luís, 11 de agosto de 1860. Logo nas primeiras páginas do jornal A Moderação, anunciava-se o lançamento do romance Úrsula, “original brasileiro”. O anúncio poderia passar despercebido, mas algo chamava atenção em suas últimas linhas: a autoria feminina da “exma. Sra. D. Maria Firmina dos Reis, professora pública em Guimarães”. Foi assim, por meio de uma simples nota, que a cidade de São Luís conheceu Maria Firmina dos Reis – considerada a primeira escritora brasileira, pioneira na crítica antiescravista da nossa literatura.
Negra, filha de mãe branca e pai negro, registrada sob o nome de um pai ilegítimo e nascida na Ilha de São Luis, no Maranhão, Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917) fez de seu primeiro romance, Úrsula (1859), algo até então impensável: um instrumento de crítica à escravidão por meio da humanização de personagens escravizados.
“Em sua literatura, os escravos são nobres e generosos. Estão em pé de igualdade com os brancos e, quando a autora dá voz a eles, deixa que eles mesmos contem suas tragédias. O que já é um salto imenso em relação a outros textos abolicionistas”, conta a professora Régia Agostinho da Silva, professora da Universidade Federal do Maranhão e autora do artigo “A mente, essa ninguém pode escravizar: Maria Firmina dos Reis e a escrita feita por mulheres no Maranhão”.
Além de ter se lançado em um gênero literário sem precedentes no Brasil – e dado as diretrizes para os romances abolicionistas que apareceriam apenas décadas depois -, Firmina foi a primeira mulher a ser aprovada em um concurso público no Maranhão para o cargo de professora de primário. Com o próprio salário, sustentava-se sozinha em uma época em que isso era incomum e até mal visto para mulheres. Oito anos antes da Lei Áurea, criou a primeira escola mista para meninos e meninas – que não chegou a durar três anos, tamanho escândalo que causou na cidade de Maçaricó, em Guimarães, onde foi aberta.
“A autora era bem conhecida para os maranhenses do seu tempo. Professora, gozava de certa circularidade nos jornais. Apesar de mulher, não era um pária social no período no qual viveu, mas claro que enfrentou o silenciamento da sua obra”, conta Silva.
Esquecida por décadas, sua obra só foi recuperada em 1962 pelo historiador paraibano Horácio de Almeida em um sebo no Rio de Janeiro – e, hoje, até seu rosto verdadeiro é desconhecido: nos registros oficiais da Câmara dos Vereadores de Guimarães está uma gravura com a face de uma mulher branca, retrato inspirado na imagem de uma escritora gaúcha, com quem Firmina foi confundida na época. O busto da escritora no Museu Histórico do Maranhão também a retrata “embranquecida”, de nariz fino e cabelos lisos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Deu Polônia e Austria nos Nobel de Literatura 2018 e 2019



A academia sueca concedeu hoje os prêmios de 2018 e 2019  à escritora polonosa Olga Tokarczuk e ao escritor austríaco Peter Hadkler respectivamente.  

Olga é a décima quinta mulher premiada desde a criação do prêmio em 1901. Veja no blog quais foram as outras mulheres e suas origens, clicando aqui.

A escritora polonesa de 57 anos, só tem um livro editado em português no Basil: Os Vagantes (Ed.Tinta negra 2014). Este livro vai ser reeditado pela ed.Todavia, com o título de Viagens.   a mesma editora lança no mês de novembro o mais novo livro de Olga Tokarczuk: Sobre Os Ossos dos Mortos (Drive Your Plow The Bones of the Dead)


O austríaco Peter Hankle, tem livros em português: Peter Handke: Peças Faladas, com quatro textos de meados dos anos 1960 (Predição, Insulto ao Público, Autoacusação e Gritos de Socorro). E o  romance A Perda da Imagem: Ou Através da Sierra de Gredos, de 2009, e de Don Juan (Narrado Por Ele Mesmo), de 2007




quarta-feira, 9 de outubro de 2019

2 Mulheres Prêmio Nobel. Em Quem Você Aposta?


Amanhã a Academia Sueca vai anunciar os dois Prêmios Nobel de Literatura: 2018  e  2019.  Dentre os prováveis ganhadores, 5 são mulheres:


Maryse Condé (82) - França - 
Eu,Tituba: Bruxa Negra de Salém







Anne Carson (68) - Canadá - O Método Albertina


















Margareth Atwood (79) Canadá - O Conto da Aia













Olga Tokarczuk (57) Polônia - 
Viagens

















                                         Lyudmila Ulitskaya 
(76) Rússia
 - The Funeral Party













Leia aqui a lista de todas as mulheres ganhadoras do Nobel de Literatura até o momento.

Nascido em 9 de Outubro: Mário de Andrade.

     Estou trazendo escritores brasileiros e seus aniversários. Vou esquecer alguns,
Mário de Andrade. Caricatura de Baptistão
provavelmente, mas os que tenho são nomes bem conhecidos. 
     Hoje é dia de Mário de Andrade.   Deste autor, só li Macunaima. Uma obra revolucionária na época e que gerou peça de teatro e filme.  Sobre Mario de Andrade, a gente pode saber mais no site Toda Matéria.   Adiante tem também um texto dele para você ler agora.

Moça Linda Bem Tratada

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.
Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.
Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência…
Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
Uma bomba.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...