quinta-feira, 28 de março de 2019

A Moça Tecelã, Marina Colasanti

  
 “Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Negro Nascimento, Rodolfo Aureliano

De uma nação negra
Nascimento do Passo
Um corpo são
O corpo e a mente sã
De Edson Pelé
Um corpo um arado na terra
De uma nação negra
Edson Arantes do Nascimento.

De uma nação negra
Um canto são

A alma sã e o cantochão

De Milton das Minas
Das serras de milho e café
A voz voz vinda do fundo da alma
De uma nação negra
Milton Nascimento.

De uma nação negra

Um jovem espírito são

Não mais santo

Pela indignação de toda uma nação
Que lamenta nas minas
E festeja nos estádios
A cor negra da seleção
A força do espírito negro
De uma nação negra
Abdias do Nascimento.

De uma nação negra
A mais bela América do Sul

Embala todo seu povo negro

Num frevo negro
Num suor que alegra o chão
Chão que saúda suado
O pé descalço do negro
A magia do frevo pernambucano
A marca da luta da capoeira
O compasso de uma nação negra
Nascimento do Passo.


(poema de 1978, publicado no livro Postal do Brasil)


segunda-feira, 25 de março de 2019

MPB - Poesia: Poema dos Olhos da Amada,Vinicius de Moraes



Oh, minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus


São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus


Oh, minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus



Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus
Oh, minha amada
Que olhos os teus


Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus


Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus



De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.



Vinicius de Moraes fez esse poema para o jogador de futebol Heleno de Freitas (Botafogo) quando de seu casamento com Hilma.  Alguns anos depois, Paulo Soledade pôs melodia no poema e Silvio Caldas gravou a música Poema dos Olhos da Amada.

Fontes:  Um Sonho em Carne e Osso, Antonio Falcão (Bargaço 2002) e MPBnet

Ouça a música aqui

sábado, 23 de março de 2019

Não Pensa Nisso, Jorge. Moacyr Scliar

      Estou ficando velho, Zilda. Velho e fraco. Sinto que não vou durar muito.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa nas coisas boas da vida.
- Estas dores no estômago. Para mim isto é câncer. O médico diz que não, mas acho que ele está me enganando. Para mim é câncer, Zilda.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa nos momentos que vivemos juntos.
- Eu sei que é câncer, Zilda. Já vi muita gente morrer dessa doença. É uma morte horrível, Zilda. A gente vai se consumindo aos poucos.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa no teu trabalho. Pensa nos teus colegas, no chefe que gosta tanto de ti.
- Primeiro a gente emagrece. Já estou emagrecendo. Perdi cinco quilos neste ano. Aliás, como passou ligeiro este ano. Como passam ligeiro os anos. Como passam ligeiro os dias, as horas. Quando a gente vê, já é noite. Quando a gente vê, terminou o mês. Quando a gente vê, acabou a vida.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa na tua turma do bolão, gente alegre, divertida.
- Logo terei de me hospitalizar. E no hospital a gente vai ligeirinho, Zilda. Acho que é por causa do desamparo. O desamparo é horrível.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa nos teus filhos. Pensa na Rosa Helena, no Zé. Pensa no Marquinhos.
- Tenho medo de morrer, Zilda. Me envergonho disso, afinal, já vivi tanto, mas a verdade é que tenho medo de morrer. A morte é o fim, Zilda. Para mim é o fim. Não acredito na vida após túmulo. Acho que na tumba acaba tudo. A carne se desprende dos ossos, os cabelos caem, fica a caveira à mostra. Isto é a morte, Zilda. Isto é que é a morte.
- Não pensa nisto, Jorge. Pensa na tua horta. Pensa nas galinhas, Jorge. Pensa numa galinha chocando os ovos, Jorge.
- Uma galinha com câncer, Zilda?
- Por que não, Jorge, por que não.


 Caricaturista: Lucas Neuman





quinta-feira, 21 de março de 2019

História Infantil:Rainha da Primavera

   
  Numa terra muito distante chamada Florislândia, havia todos os tipos de flores, de todas as idades e de todos os estilos. As mais velhas eram mais sábias e cuidavam das mais jovens, as mais novas costumavam ser mais vaidosas e viviam enfeitando suas pétalas. As flores mães cuidavam das tarefas do lar e dos filhos, os pais saíam para trabalhar nas plantações de novas flores, os bebês brotinhos brincavam com suas folhas e tentavam tocar seus caules, as flores avós tinham suas pétalas enrugadas e seus caules tremiam sem parar, elas se apoiavam em pequenos gravetos para andar e não dispensavam seus óculos.
     Uma vez por ano a cidade se enfeitava para o Baile da Primavera. Este baile escolheria a flor mais bela da cidade e a vencedora receberia o título de Miss Rainha da Primavera, ganharia uma viagem ao Jardim do Éden e ganharia muitos presentes dos patrocinadores da festa. Todas as flores jovens e bonitas se inscreviam para o desfile, preparavam suas roupas e arrumavam suas pétalas e folhas para o grande evento.

segunda-feira, 18 de março de 2019

MPB - Poesia: O Canto das Três Raças, Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu um soluçar de dor
No canto do Brasil.
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou.

Negro entoou um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes.
Nada adiantou.

E de guerra em paz, de paz em guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor.

E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador...
Esse canto que devia ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor


Imagem: Geografia & Cia
Ouça a música com: Clara Nunes

quinta-feira, 14 de março de 2019

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus


Quando infiltrei na literatura

Sonhava so com a ventura
Minhalma estava chêia de hianto
Eu nao previa o pranto. Ao publicar o Quarto de Despejo
Concretisava assim o meu desejo.
Que vida. Que alegria.
E agora… Casa de alvenaria.
Outro livro que vae circular
As tristêsas vão duplicar.
Os que pedem para eu auxiliar
A concretisar os teus desejos
Penso: eu devia publicar…
– o ‘Quarto de Despejo’.


No início vêio adimiração
O meu nome circulou a Nação.
Surgiu uma escritora favelada.
Chama: Carolina Maria de Jesus.
E as obras que ela produz


Deixou a humanidade habismada
No início eu fiquei confusa.
Parece que estava oclusa
Num estôjo de marfim.
Eu era solicitada
Era bajulada.
Como um querubim.


terça-feira, 12 de março de 2019

Gibis Agradam os Leitores do País.

Desde 1984, em 30 de janeiro se comemora o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, um dos gêneros preferidos dos brasileiros. De acordo com a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura do Instituto Pró-Livro, os gibis agradam entre 13% e 29% dos leitores da país.

A nona arte, como é conhecida, ganhou esta data no Brasil por conta do cartunista Ângelo Agostini, italiano radicado no Brasil. O cartunista publicou, em 30 de janeiro de 1869, a primeira história em quadrinhos brasileira As aventuras de Nhô-Quim, ou Impressões de uma viagem à corte, publicada na revista Vida Fluminense. 

O quadrinho mostra a história de Nhô Quim, caipira que vai para o Rio de Janeiro e se espanta com a civilização que era um mistura da vida rural com a vida urbana.

O sucesso dos quadrinhos no Brasil é tamanha, que a Turma da Mônica, criada em 1959 por Mauricio de Sousa, é uma das maiores marcas brasileiras tendo se expandido para além dos gibis, como em livros, brinquedos, jogos, entre outros.

Recentemente a turma do bairro do limoeiro foi parar nos Estados Unidos, com uma graphic novel que conta as aventuras da Turma da Mônica Jovem, com os já conhecidos personagens, só que agora na versão adolescente.
 
Para celebrar essa importante data, o Janeiro Geek, no Sesc Estação 504 Sul, promoveu, no dia 30 de janeiro, o bate-papo "Mauricio de Sousa por todos nós", que vai debater a obra de um dos maiores quadrinistas do país. O evento vai ter como convidados Magali Spada e Sousa, filha de Maurício e inspiração para a famosa Magali, além do roteirista Gerson Luiz Borlotti e o cartunista José Alberto Lovetro.
(Do: Diário de Pernambuco)

Corporiedade Feminina, Janete Barros


     Ainda assim, mesmo sem atingir a marca de um dia, capaz de delinear o valor de uma única mulher; a sensibilidade me aguça, por tabela.
Cada aperreio, grito de dor e injustiça, nos quatro cantos do mundo... arraiga e aflora .
Bendigo, pelos olhos da minha filha, da pele enrugada e costa arqueada da minha mãe, por todas as primas, sobrinhas, netas que tenho e ainda virão, tias estelares que já se foram (paternas e maternas).
Noras, Irmã sanguínea e irmãs de coração (são tantas), professoras amadas, mestras, doutoras, amigas discentes e docentes, escritoras, pedaleiras, rosas meninas (todo grão de mulher).
Das albinas, negras, índias... do dedo do pé até a raiz do cabelo, em nuances de cores; do preto retinto ao perolado dos fios.
Das usuárias de burcas às carecas abrilhantadas. Com lenços, tiaras, joias, turbantes milenares, penas, adereços diversos.
Mil anos luz de distância percorre os fios arredios dos teus saberes, do eu pensante, do pulsar de cada veia, da dor sangrenta, do coração latente, das sementes, das crias.
No leite que escorre em cada peito que alimenta.

sábado, 9 de março de 2019

Sobre Mulheres Feministas do Passado... Você sabia Que...

...O mais valioso quadro brasileiro foi pintado por uma mulher?


TARSILA DO AMARAL - Ela é autora da pintura brasileira mais valorizada da história, o Abaporu. Tarsila é um dos nomes centrais da primeira fase do modernismo artístico no Brasil e foi uma das responsáveis pela organização da revolucionária Semana da Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo.



ABAPORU - criado por Tarsila do Amaral em 1928, encontra-se no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (MALBA) e está avaliado em US$40 milhões.
O nome da tela foi dado por Oswald de Andrade (para quem a obra foi pintada) e Raul Bopp.  Segundo eles: Aba (homem) - Pora ( gente) - Ú (comer) da língua Tupi. Homem que come gente, tinha relação com o movimento antropofágico da época: Movimento Modernista.





...O primeiro livro feminista do país foi escrito lá em 1832?


NISIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA- Outra precursora do feminismo no Brasil, ela é autora do mítico livro “Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens”, escrito em 1832. Esta é considerada a primeira obra feminista do Brasil! Ela também escreveu importantes livros em defesa dos índios e da abolição da escravatura. Nísia nasceu no Rio Grande do Norte, mas viajou o país defendendo a alfabetização das mulheres e chegou a fundar colégios para meninas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul.

 DIREITOS DAS MULHERES E INJUSTIÇAS DOS HOMENS - livro escrito em 1832, época em que nem se cogitava voto feminino. Todas nós devemos a Nísia Floresta, dentre outras coisas, o fato de há todas as mulheres poderem escolher pelo voto quem vai nos governar. Lamentavelmente escolher inclusive homens declaradamente ou não, homofóbicos. 

Nísia, nascida potiguar, é merecidamente homenageada em seu estado, o Rio Grande do Norte, com seu nome em uma cidade* e em diversas outras tem o nome Nisia Floresta dado a ruas e escolas.

*A cidade de Nísia Floresta fica a 30Km da Natal - RN





...Já existiu um Partido Republicano Feminino e que ele foi fundado em 1910, antes mesmo de as mulheres terem direito ao voto? 

LEOLINDA DALTRO - Considerada uma das precursoras do feminismo no Brasil, Leolinda foi uma professora que lutou pela causa indígena e pela autonomia das mulheres no Século XIX. Ela é um dos nomes mais importantes do movimento sufragista no país e foi a principal fundadora do Partido Republicano Feminino, em 1910. Além disso, chegou a separar-se do marido para viajar pelo interior do país em prol da alfabetização laica dos índios.
 As diretrizes do PRF - O programa do PRF, publicado no Diário Oficial em 17 de dezembro de 1910, afirma que o partido pretendia "congregar a mulher brasileira na 72 Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 40, n. 1, p. 64-84, jan.-jun. 2014 capital federal e em todos os Estados do Brasil, promovendo a cooperação entre as mulheres na defesa das causas relativas ao progresso pátrio".
O quarto artigo definia que o partido deveria: "Pugnar para que sejam consideradas extensivas às mulheres as disposições constitucionais da República dos Estados Unidos do Brasil, desse modo incorporando-a na sociedade brasileira".

sexta-feira, 8 de março de 2019

8 Mulheres Que Brilharam e Não Podem Ser Esquecidas

Maria Firmina dos Reis (1825-1917) -Maranhense e negra, é considerada a primeira romancista brasileira. Em 1859, publicou o incrível Úrsula, tido pela crítica como o primeiro romance abolicionista e feminista escrito no Brasil, inaugurando a vertente da literatura afro-brasileira. Também era professora e figura ativa na imprensa local, publicando poemas, contos, crônicas e artigos em jornais da época. Além disso, na década de 1880, fundou a primeira escola mista (misturando meninas e meninos) do estado do Maranhão, ousadia que provocou muito rebuliço e incômodo.
Eu não te ordeno, te peço,
Não é querer, é desejo;
São estes meus votos – sim.
Nem outra cousa eu almejo.
E que mais posso eu querer?
Ver-te Camões, Dante ou Milton,
Ver-te poeta – e morrer.

Nísia Floresta (1810-1885) Considerada a primeira feminista brasileira, publicou em 1832 o manifesto “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Também educadora e presença constante em periódicos da imprensa até então jovem, Nísia Floresta rompeu os limites entre o público e o privado que eram impostos às mulheres. Ela viajou pelo mundo, criando contatos e diálogos com Augusto Comte, pai do positivismo, e Alexandre Dumas, importante escritor francês.

Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. (…) Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?

Narcisa Amália (1852-1924)Além de poeta, Narcisa foi a primeira jornalista profissional do Brasil. Feminista e abolicionista, lutava contra as opressões de gênero e de raça nos seus textos. Foi, de acordo com Sílvia Paixão, “um dos raros nomes femininos que falam de identidade nacional”, contribuindo imensamente para a formação da nossa literatura “numa poética uterina que imprime o retorno ao lugar de origem”.

Por Que Sou Forte
Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito…
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço…
E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: – aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!…
– E eis-me de novo forte para a luta.
Gilka  Machado (1893-1980) Vinda de família de artistas, com mãe atriz, parentes poetas e músicos, Gilka Machado foi uma grande poeta, que, nesses últimos anos, infelizmente caiu no ostracismo. Publicou em 1915, aos 22 anos, seu primeiro livro, Cristais Partidos. Durante a década de 1920, continua a escrever, lançando Estados d’Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), e Amores que mentiram, que passaram (1928). Foi uma importante precursora da literatura erótica escrita por mulheres. Em 1979, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
(Fonte: Nota terapia)

quarta-feira, 6 de março de 2019

O Último Bloco, Antonio Falcão


    A fome pra quem come, a cama e o amor, a liberdade do homem, o peso diário do corpo a corpo com a palavra escrita. O frio da ciência, o universo, a correnteza e o rio, o movimento, a cor, o som, a forma, as artes... Eu digitava este texto e Áurea, minha mulher, pôs uma fita pra tocar. Foi quando a voz mansa da compositora Lêda Valença entoou: Um novo amigo abriu as cortinas do tempo / que o sopro do vento se encarregou de esgarçar... 
     Em matéria de inédito, o melhor que por estas bandas de frevo-canção.
     Mas me levou a um outro fevereiro...
     De catapora, aos 12 anos, de bruços na janela suburbana, minha rua empoeirada de acanhados papangus e la ursas, tão pobres - nós todos e o bairro, uma miséria só. A alma, palco e palhaço de perdida ilusão. E o bloco "Sou eu o teu amor", de Cacho de Côco, arregaçou a esquina, esparrento e amostrado. A orquestra, o abre-alas, a alegria e o passo da cabroeira; a voz esganiçada das pastoras protegidas por cordas de segurança, elas e o povo a bailar e a cantar politonando - eh! lembrança...

sexta-feira, 1 de março de 2019

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