quarta-feira, 30 de maio de 2018

Os Rios de Minha Infância, Marcos Cirano

 
     Quando eu era criança os rios eram todos feitos de areia e água: quase nada mais. E tinham peixes. E serviam para o banho. Serviam também para a minha mãe lavar roupas, batendo cada peça num batedor e depois botando toda a roupa numa pedra grande para quarar.
     Quando eu era criança os rios tinham água de beber (isso, claro, quando nenhuma seca chegava para infernizar o Sertão) e a gente bebia aquela água com muito gosto e sem receio algum. Porque todos os rios eram feitos de areia e água: quase nada mais.
     Quando eu era criança os adultos respeitavam os rios. Diziam: “Isso é uma obra de Deus”, toda vez que os rios botavam água numa correnteza tão forte que nenhum homem era capaz de vencer. E ninguém se atrevia aterrar um rio: era contra a Natureza.
     Quando eu era criança nenhum rio fedia. Pelo contrário: todos os rios tinham um cheiro bom. Um cheiro (é verdade) que eu nunca soube decifrar e, certa vez, perguntei ao meu avô e ele me olhou e disse: “Isso é o cheiro da vida, menino!”
      Sim! Quando eu era criança os rios todos eram assim. Todos os rios corriam serenos. E, não sei por que, eu sempre achava que os rios pareciam com um maestro que segue à frente da sua banda que toca um penoso e bonito dobrado pelas ruas de uma cidadezinha.

Conheça o autor Marcos Cirano.
Pedaços, Marcos Cirano Ed. Cepe. Pode ser adquirido na Banca Guararapes, Av.Guararapes no Recife, ou pelos telefones:3224 5842 e 3224 1550.
 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Foguete, Roque Ferreira e Jota Velloso. Voz: Maria Bethania e Dona Canô

Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calada
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha
É como diz João Cabral de Mello Neto
Um galo sozinho não tece uma manhã
Senti na pele a mão do teu afeto
Quando escutei o canto de acauã
A brisa veio feito cana mole
Doce, me roubou um beijo
Flor de querer bem
Tanta lembrança este carinho trouxe
Um beijo vale pelo que contém

Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calada
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha
Tirei a renda da naftalina
Forrei cama, cobri mesa
E fiz uma cortina
Varri a casa com vassoura fina
Armei a rede na varanda
Enfeitada com bonina
Você chegou no amiudar do dia
Eu nunca mais senti tanta alegria
Se eu soubesse soltava foguete
Acendia uma fogueira
E enchia o céu de balão
Nosso amor é tão bonito, tão sincero
Feito festa de São João

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O Gato Vaidoso, Monteiro Lobato

     Moravam na mesma casa dois gatos iguaizinhos no pêlo mas desiguais na sorte. 
    Um, amimado pela dona, dormia em almofadões. Outro, no borralho. Um passava a leite e comia em colo. O outro, por feliz, se dava com as espinhas de peixe do lixo.
     Certa vez, cruzaram-se no telhado e o bichano de luxo arrepiou-se todo, dizendo:
    – Passa ao largo, vagabundo! Não vês que és pobre e eu sou rico? Que és gato de cozinha e eu sou gato de salão? Respeita-me, pois, e passa ao largo…




     – Alto lá, senhor orgulhoso! Lembra-te de que somos irmãos, criados no mesmo ninho.
     – Sou nobre. Sou mais que tu!
     – Em quê? Não mias como eu?
     – Mio.
     – Não tens rabo como eu?
     – Tenho.
    – Não caças ratos como eu?
    – Caço.
    – Não comes rato como eu?
    – Como.
    – Logo, não passas dum simples gato igual a mim. Abaixa, pois a crista desse orgulho e lembra-te que mais nobreza do que eu não tens – o que tens é apenas um bocado mais de sorte…

Fonte:O Conto Brasileiro

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Fico Pleno de Amor Ao Ver-te, Lua, e Me Matas Com O Jeito Que Tu Brilhas, César Feitoza


  
Bela Lua quis fazer-te estes versos

Decassílabos brancos de pureza

Pois dos astros que têm a natureza

És tu, Lua o mais lindo do Universo

Ao falar das estrelas desconverso

Ao olhar os quasares, Brancas ilhas

Separados por milhares de milhas

Minha “Astra” mais perto é quem  flutua

Fico pleno de amor ao ver-te, Lua

E me matas com o jeito que tu brilhas 



Já cantei que teu brilho me tonteia

Fiz-te nova, minguante e fiz crescente

Quero agora através do meu repente

Te encantar e também fazer-te cheia

Tu não vês que teu lume me clareia

Me entorpece e me faz perder a trilha

Viro cão seguidor da tua matilha

Me deslumbro ante a beleza tua

Fico pleno de amor ao ver-te, Lua

E me matas com o jeito que tu brilhas 



Se estás triste eu padeço, sofro e choro

Se alegre, dou pulos de folia

Pois teu sorriso branco me alumia

E ao ver tua alegria eu comemoro

Pra não te ver chorar eu peço e imploro

Sou palhaço, provoco, boto pilha

E se meu coração por ti fervilha

Faço versos em homenagem sua

Fico pleno de amor ao ver-te, Lua

E me matas com o jeito que tu brilhas 



Eu já disse sou cão velho e carente

Dos açoites da vida machucado

Mas as plantas de amor do meu roçado

Quero vivas, viçosas novamente

E tu, Lua, plantastes a semente

Da paixão, essa doce armadilha

E senti novamente a maravilha

De uivar de paixão aos cães da rua

Fico pleno de amor ao ver-te, Lua

E me matas com o jeito que tu brilhas


Quanto mais te conheço, me encanto

E me entrego ao prazer de admirar-te

E às vezes eu tento evitar-te

No afã de não revelar-me tanto

E então absorto no meu canto

A espreita como se em uma guerrilha

Com sobejos de dor em minha vasilha

Como um cão que, de amor, sofre e jejua.

Fico pleno de amor ao ver-te, Lua

E me matas com o jeito que tu brilhas



Doce Lua eis aqui o meu tributo

Com dolentes palavras amorosas

Embalado com o perfume das rosas

Ansiando que as flores dêem frutos

E pra eu me sentir absoluto,

E me encher de prazer nesta vigília

Me embrenhar nos sertões que o amor ladrilha

Necessário se faz que retribuas

Fico pleno de amor ao ver-te, Lua

E me matas com o jeito que tu brilhas

Nota: o blog mantve a grafia original
Meu agradecimento ao Prof. César Feitosa que cedeu o poema  para a postagem.




quarta-feira, 16 de maio de 2018

Uma Italiana na Suíça, Clarice Lispector


    
     Rosa perdeu os pais quando era pequena. Os irmãos se espalharam pelo mundo e ela entrou para o orfanato de um convento. Lá levava uma vida sóbria e dura com as outras crianças. Durante o inverno o grande casarão permanecia frio, e os trabalhos não se interrompiam. 
     Ela lavava roupa, varria os quartos, costurava. Enquanto isso as estações se sucediam. Com a cabeça raspada e o longo vestido de fazenda grosseira, às vezes, com a vassoura na mão, espiava pelos vidros da janela. Outono era a estação de que mais gostava porque não era preciso sair para vê-lo: atrás dos vidros as folhas caíam amareladas no pátio, e isso era o outono.
     Nesse convento suíço, quando um homem pisava no patamar, lavava-se o chão e queimava-se álcool em cima. Depois vinha de novo o inverno, e as mãos se avermelhavam, abriam-se em feridas, a cama gelada impossibilitava o sono, e criava sonhos acordados. 
     No dormitório escuro, com os olhos abertos sobre o lençol, ela espiava os pequenos pensamentos piscarem. De algum modo os pensamentos eram o paraíso.
     Como e por que lhe veio aos vinte anos a determinação de sair do convento, não sei, nem ela soube explicar. Mas veio decidida, e contra todos. Era uma vontade obstinada, monótona, passiva. As Irmãs se espantaram, disseram que ela iria para o Inferno. Mas como Rosa não retruca sequer com um argumento, venceu. Saiu, foi empregar-se como criada.

     Saiu com sua pequena trouxa, a cabeça raspada, a saia nos calcanhares. “O mundo me pareceu…” — e ela não soube explicar.

     Com seu rosto de italiana do Sul, os olhos redondos e as formas que tardavam a se afirmar, foi morar com uma família recomendada. Lá permanecia dia e noite, meses a fio, sem ir à rua. Explicou-me que naquela época “não sabia sair”. Usava apenas a maravilha do inverno fora do paraíso: espiava tudo pelas janelas abertas e ninguém diria se estava contente ou triste. Seu rosto ainda não sabia exprimir. Espiava pela janela aberta com a minúcia e a atenção de quem reza, com os braços cruzados e as mãos metidas nas mangas opostas.

     Numa tarde em que tudo lhe pareceu vasto demais — uma tarde livre e sem trabalho era quase pecaminosa — sentiu que devia se aplicar, ter um sentimento mais limitado e mais religioso: desceu as escadas, entrou na sala e tirou um livro da estante. Subiu de novo, sentou-se numa cadeira sem se encostar, pois ainda não aprendera a se dar prazeres, e começou a ler com grande austeridade. Mas a cabeça esférica, onde os cabelos já nasciam curtos e rígidos — a cabeça pôs-se então a flutuar. Fechou o livro, deitou-se, cerrou os olhos.

     Esperaram-na para servir o jantar, mas ela não descia. Foram buscá-la. Seus olhos estavam crescidos, quentes, imóveis: ela ardia em febre. A dona da casa passou a noite a velá-la, mas nada havia a fazer, ela não se queixava, não pedia nada, e a febre a consumia. De manhã estava emagrecida, de olhos menos abertos. Assim passaram mais um dia e mais uma noite. Então chamaram o médico.

     O médico perguntou o que lhe sucedera, pois ali estavam todos os sintomas de febre nervosa. Rosa não dizia nada, nem lhe ocorreria dizer, não estava habituada. Foi quando o médico olhou por acaso para a cabeceira da cama e viu o livro. Examinou-o e olhou-a espantado. O livro se chamava Le corset rouge. Ele disse que Rosa não podia de modo algum ler um livro assim. Que mal saíra do convento, e que sua inocência era perigosa.    Rosa não respondia. Ele disse:

     — Você não deve ler essas coisas, elas são mentira.

     Só então Rosa abriu um pouco os olhos, pela primeira vez. O médico então jurou que o livro só dizia mentiras. Ele tinha jurado…

Então ela suspirou, sorriu tímida e triste:

     — É que eu pensava que tudo que se escreve e que se publica num livro é verdade, disse olhando com tanto pudor o primeiro homem bom.

     O doutor disse — e quem pode imaginar o tom com que disse:

     — Mas não é.

    Ela dormiu magra e pálida. A febre diminuiu, ela se levantou. Aos poucos, com o tempo, as pessoas diziam: você tem cabelos muito pretos. Rosa dizia, tocando-se: é mesmo.

     De como, aos quarenta anos, ficou tão alegre, não sei explicar. Cada gargalhada. Sei também que uma vez quis se suicidar. Não porque saíra do convento. Mas por amor. Ela explicou que naquela época do amor não sabia que “tudo era assim mesmo”. Assim como? não me respondeu. 
     Hoje, dez anos mais velha que seu noivo, com quem dorme, ela ri sob a grande cabeleira e diz: não sei mesmo por que é que gosto mais do outono do que das outras estações, acho que é porque no outono as coisas morrem tão facilmente.

     Também diz: não sou muito inteligente, tenho a impressão de que a senhora é mais do que eu. Também diz: “a senhora alguma vez já chorou como uma boba e sem saber por quê? pois eu já!” — e cai na gargalhada.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

João de Barro, O Construtor - Andrade Lima

Em todo canto tem João,
Mas de barro só na mata.
E o João de barro retrata
Muito bem a construção.
Aprendeu toda lição
E sem falar dialeto
Faz seu trabalho completo
E ninguém vê rachadura...
Sem cursar arquitetura
João de barro é arquiteto!

Ele busca no barreiro
E traz o barro traçado.
Pelo bico é transportado
E não erra o seu roteiro.
Sem ter colher de pedreiro
Reboca o piso e o teto.
Faz um portal sem ser reto
E não erra na espessura.
Sem cursar arquitetura
João de barro é arquiteto!

Sem contratar engenheiro
Faz sala, quarto e dispensa
E o alvará de licença
Deus envia sem carteiro.
Escolhe um pau de pereiro
E executa seu projeto.
A natura é seu decreto
E a parede com textura.
Sem cursar arquitetura
João de barro é arquiteto!

Andrade Lima 
Em Teresina PI, 20/11/2016.

Imagem: Blog Focado em Você
 

domingo, 13 de maio de 2018

O Pedaço de Pão com Pasta de Goiaba!, Magdala Valença

      Ela sentava-se muitas vezes numa cadeira de baloiço. Seus frágeis braços frágeis descansando na madeira, seu cabelo sempre amarrado e nesses olhos castanhos profundos, um olhar de tristeza. Sempre que eu a ia visitar, não tinha a certeza do que dizer e tinha cuidado para não fazer algo que a pudesse perturbar. Mas ela era gentil, atenciosa, consciente das nossas necessidades. Em algum momento durante o dia ela nos ofereceu um lanche. O engraçado é que foi o momento culminante da nossa relação distante.

     Acontece que foi esse momento para todos os nossos netos. Um pedaço de pão francês com pasta de goiaba ou manteiga misturada com açúcar. Delicioso em qualquer medida padrão de como os lanches vão e muito apreciados. Eu ainda me lembro de seus modos, seus modos aparentemente indiferentes, mas eu respeitava isso e nunca tentei pressionar meus sentimentos nela. Não havia necessidade de fazer tais coisas porque o amor não se restringe a um conjunto específico de emoções, gestos e palavras. O amor vem de muitas maneiras para todos nós e nós aceitamos ou aceitamos. Aceitei o amor dela à sua maneira, e aquela sanduíche disse-me que ela gostava de mim. 
     O meu vovó Guiomar era um mistério para mim, mas tudo de uma forma muito boa. Muitas pessoas disseram que eu sou parecida com ela e quando eu envelhecer percebo que há uma grande semelhança. Por isso, estou a partilhar consigo para o dia da mãe um pequeno vislumbre de uma senhora muito especial, uma bela senhora. Mesmo que a minha relação com vovó Guiomar fosse muito diferente da minha outra avó, eu amava-a pela pessoa que ela era. 
     Então amanhã faz o dia da mãe especial ao deixar os que ao seu redor sabem através de pequenos gestos que são importantes. 
    Quem sabe se um pedaço de pão com pasta de goiaba ou manteiga misturada com açúcar pode ser o presente certo? Feliz dia da mãe, feliz sábado, Shabat Shalom.

Nota: texto copiado do facebook com o conhecimento da autora que permitiu a postagem no blog.