quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Por Que Girafa Não Tem Voz? Rogério Andrade Barbosa.

  Houve  
Houve uma época em que os animais da floresta falavam todos a mesma língua.  
     A girafa gostava de se vangloriarvdizendo que era a rainha dos bichos porque tinha o pescoço mais comprido. Como era mais alta que os outros, costumava ficar olhando para o céu e conversando sozinha consigo mesma. 
Os outros bichos logo começaram a se irritar com essa mania da girafa, especialmente na hora em que tentavam tirar uma soneca depois do almoço. Irritados, começaram a traçar um plano para silenciar a chata da girafa. O leopardo foi até a grandalhona e provocou:
      ___ Você fica aí contando vantagem o dia inteiro, mas tem coisas que não sabe fazer. A girafa, que era muito atrevida, gritou:
     ___ O que por exemplo? 
     ___ Correr mais rápido do que eu _ desafiou o veloz leopardo.
     ___ Aceito _ respondeu a girafa, sem pestanejar. 
     ___ Me avise a hora e o lugar. 
     O dia da corrida foi logo marcado. O leopardo, certo que ia vencer, convocou todos os animais da floresta para vê-lo derrotar a grandona. Os  bichos correram para se divertir e torcer pela derrota da girafa. Assim que foi dada a largada, os dois saíram em disparada lado a lado, mas logo o leopardo tomou a dianteira. Corria tanto que acabou chocando-se contra uma árvore e teve de abandonar a competição. A bicharada ficou muito decepcionada ao ver a girafa se tornar campeã. 
     Depois da vitória, ela ficou mais faladora ainda. Ninguém tinha mais paciência para aguentar aquele blá-blá-blá infindável. Até que o macaco, esperto como ele só, resolveu dar um jeito na questão.      Ele tirou um bocado de resina de uma árvore e misturou-a na ramaria que a girafa costumava mastigar. Depois, escondeu-se, esperando a falastrona chegar para comer.      As folhas prenderam-se no comprido pescoço da girafa e, por mais que ela tossisse e cuspisse, ficaram grudadas em sua garganta, calando-a para sempre.          
     Daí em diante seus descendentes passaram a nascer sem voz. 

Fonte: Histórias Africanas para Contar e Recontar - Rogério Andrade Barbosa 
Imagem: biologia na rede

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Vento, Cecília Meireles













Passaram os ventos de agosto, levando tudo.
As árvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no chão.

Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas;
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.


Passaram os ventos de agosto, terríveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sobre a paisagem cansada da aventura excessiva -
sem forma e sem eco,
o sol encontrou as crianças procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel. 


Imagem:The White Orchart -Van Gogh - 1888
 



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A Mudança, Marques Rebelo.

     A mudança foi repentina! As estrelas desapareceram bruscamente da noite. Saindo não sei donde, nuvens, cada vez mais negras, amontoavam-se num canto e acabaram por tomar todo o céu. Negror. Então, veio o vento e sacudiu o ar estático , abafado, vergou as árvores, bateu janelas na vizinhança, trouxe gritos distantes para meus ouvidos inquietos. Levantou-se poeira nas ruas, rodopiou, subiu, entrou pelas persianas sujando os móveis.
     Mamãe, aflita, que estava na hora da poção, chegou como uma sombra, cerrou as persianas, mas o vento era sutil e insinuando-se por frestas despercebidas, balançava da mesma forma as bambinelas.
     - As bambinelas estão dizendo adeus!
    Não sei como me acudiu logo o pensamento estranho: As bambinelas estão me dizendo adeus! Ou estarão me chamando?  Sim, é possível  que estejam. Mas para onde? Sinto-me fraco, uma dormência espetante como milhões de alfinetes paralisa as minhas pernas. E elas continuam a acenar: Vem!
     Embala-me, monótono, o tique-taque do relógio na sala onde minha irmã pedia a São Bento para cortar a perna do vento, que eu podia piorar.
     E a febre na mesma. Trinta e sete e seis. E a tosse. O peito doendo sempre, sensação angustiosa de asfixia – o teto caindo sobre mim, me oprimindo, me esmagando. Poderia fugir, mas a dormência, que me prendia as pernas, invadiu-me o corpo agora e me prostra incapaz.
     - Está melhor?
     Mamãe dobrou-se sobre minha face num beijo longo, afagou a minha barba crescida. Seus cabelos grisalhos roçaram-me a testa seca.
     -Estou. Quero dormir.
    Saiu na ponta dos pés, depois de compor o lençol que me cobria, ficou na sala, folheando o jornal, fingindo que lia. Mina correu para o quarto dos fundos, o feio, com papel vermelho, manchado de umidade, se esbeiçando pelos cantos, e a janela estreita que dava para a área onde a pitangueira definhava. Chorar? O vento chorava, também, no jardim despetalado, nos telhados, nas árvores sacudidas na rua. Chiii – eram as folhas se arrastando, secas, na calçada. Pedir? Teresinha de Jesus, no oratório branco da maninha, não fazia mais milagres. Estava surda a todas as orações. Surda?  Não. Era o vento, o vento maldoso, com certeza, que levava todas as palavras boas para as espalhar à toa pelas ruas sem ninguém.
     A febre se elevou um pouco mais, o que é natural. Talvez seja impressão, apenas.  Se pusesse o termômetro, lá viria o seu refrão: trinta e sete e seis. Mas para que aquele abajur colorido, azul, rosa e os bichos bordados em preto? Que inutilidade! Nem era bonito ao menos... Mas se ele crescesse como os gatos, as árvores e as crianças? Ficasse grande, imenso, e cobrisse todo o mundo?  E fosse endurecendo, virasse bronze de tão duro e cantasse como um sino? Cantou! Ele cantou! Não. Foi o relógio.
     -Que horas são?
     - Sete e meia. Está sentindo alguma coisa, meu filho?
     - Nada
     Nada mesmo. Que tranquilidade senti me invadir, que silêncio pareceu se fazer. Até o mosquito sossegou.
     - Tão cedo...
     Tomara o leite às cinco e meia. Não o sentia mais no estômago e só se passaram duas horas?  Não... Aquele relógio estava ficando velho, caduco, não regulava mais. Forçosamente que era mais tarde. Ninguém passa na rua...
     Calma imensa. Nem o vento lá fora assobiava mais. Sete e meia.
E um silêncio na casa.
     Quantos anos tinha o relógio? Quando era menino, já existia, no mesmo lugar, por cima do aparador, e já ia para os vinte e dois anos, uma criança ainda, diziam, e no entanto sentia-me velho de tanto sofrer.
     Pensei no tempo do futebol na rua – lampião era o gol, a meninada convencidíssima. O Julinho ostentava chuteiras Atlas, invejadíssimas  pelas travas em rodelas; o Zé Maria agora era soldado e uma vez viera visita-lo: estava achando a vida difícil, tinha medo de ficar desocupado, sem casa, sem dinheiro, já pensava em engajar.  O Russo, filho do quitandeiro, tinha morrido do peito. Os outros se perderam por este mundo. Ah! E a escola pública! ... Dona Maria José, a professora se casara; e aquela menina! ... Loura! Loura! Tão loura! ... Lourdes... Perdera o seu retratinho, perdera-a também... O pai dela bebia, vivia cambaleando nas esquinas do bairro, batia-lhe. Era dócil, tristonha, trazia-lhe flores, dizia-lhe que ele era o seu amor, tinha a boca carnuda e cor de sangue, um contraste flagrante com o rosto pálido. Depois, os exames na Faculdade, o velho professor condescendente, o porteiro filante e os cadáveres.
     Às oito horas em ponto, senti-me molhado, depois dum rápido acesso de tosse: era sangue. Sangue, mais sangue. Morri. Na casa toda, continuava o silêncio.
     Na escrivaninha aberta, folhearam as minhas páginas. Poeta? Ora! ... Leram surpreendidos. Elogios. As velas queimando em volta de mim, as flores cobriam o meu eito, sem pressão, descarnado, mas eu não sentia os perfumes.
     - Quem diria, hem?
     - É mesmo.
     - Tão bom! ... Tão simples!...
     Contavam fatos:
     - A última vez que que o vi...
     - “ A noite é assim: silenciosa, fria.” Bonito este poema! – Cercaram o Souza que lia, o papel suspenso enfaticamente das mãos gordas. “ Um cheiro de suspeita na aragem traiçoeira, onde a trepadeira, branca, se reclina.” Lindo, sim!
     Eurico aprovava só com a cabeça.
     - “Os pirilampos todos se sumiram.”
     Antônio não compreendia nada. Os pirilampos se sumiram? Todos? Que diabo!
     - “ Só ficaram os grilos no jardim, cantando para as estrela indiferentes.”
     - Admirável! Admirável!
     Eu os lia por dentro devassando-lhes todos  os pensamentos; cada rosto era para mim uma janela aberta; bastava me debruçar um pouco e toda a casa se me mostrava.
     Luís, sempre desconfiara dele, namorava o meu Larousse na velha estante desarrumada, mas haveria de passar bastante lisol nos volumes porque aquilo pegava um visgo.
     Minha irmã inexperiente, minha mãe imprestável, atirada na cama numa crise violenta de nervos, que longe de excitá-la, prostrara-a inerte, sem ação, como morta, foi Seu Cardoso – aborrecido, mas que se há de fazer? – que tratou de tudo, com gorjetas somítegas para o velhote da Santa Casa.
     A primeira pá de cal foi do Oliveira – tão engraçado o Oliveira! – após a despedida de amigo entre caras enfastiadas. Queixava-se amargamente, com seus botões, daquela vasta estopada – as lágrimas, o enterro atrasadíssimo, ele sem jantar até àquela hora; imaginava já uma tuberculose também, proveniente duma gripe seriíssima apanhada naquela maldita tarde, gélida, úmida, terrível. A última foi a do Mauro, que sempre  se distraíra admirando as coroas, lendo fitas: “Saudades da Dondoca” ( a prima loura que morava no Méier), “Seus colegas do 4º ano”, a do Seu Ramalho da farmácia, enorme, de dálias, humilhando todas as outras, mesmo aquela pequena, tão simples: “Tua mãe e tua irmã”.
   Quando tudo acabou, a cova cheia, os passos em cima da terra – bem se ouviam – afastando, senti-me livre, só, aliviado. Enfim! Uma ânsia, porém, sem limites se apossou de mim, agora que eu via tudo, pois vi minha casinha humilde na Rua Dona Constança, deserta de todos os meus sofrimentos. Vi e quis voltar para lá, para o meu desespero, para a minha dor, a febre, o peito aflito, a asfixia e esperar a hora da poção – esperança, esperança! Que minha mãe vinha dar, os olhos úmidos.


REBELO, Marques, Contos Reunidos, Rio de Janeiro, José Olympio, 1977.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Não Entre Na Noite Pra Se Render, Dylan Thomas

Não entre na noite pra se render
Imagem: Regina Porto

Velhice é pra arder até o fim,
Lute, lute para a luz não morrer.
O sábio aceita bem o escurecer
Mas tem palavras de luz e por fim
Não entra na noite pra se render.
O justo, que ao partir irá sofrer
Porque não lhe coube um melhor jardim,
Luta, luta para a luz não morrer.
O rude que põe o sol pra correr,
E vê tarde demais o que é ruim,
Não entra na noite pra se render.
O sério, ao pé da morte, já sem ver,
Acesos os olhos, alegre enfim,
Luta, luta para a luz não morrer.
E você meu pai, triste de se ver,
Amaldiçoe, abençoe-me assim.
Não entre na noite pra se render,
Lute, lute para a luz não morrer.
De: Do not go gentle into that good nigth.
Tradução; Jorge Pontual
Dylan Thomas era um escritor inglês, leia aqui sobre ele.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Mais vendidos de 2016

O site Publishnews divulgou a lista dos 20 livros mais vendidos no Brasil até o momento.

1 - Como Eu Era Antes de Você 286.007 exemplares vendidos
Jojo Moyes
Ed. Intrínseca








2 - Ruah - 198.522 exemplares vendidos
Padre Marcelo
Ed. Principium











3- Depois de Você - 176.040 exemplares vendidos
Jojo Moyes
Ed. Intrínseca









4 - Authentic Games - 114.263 exemplares vendidos
Marco Túlio
Ed.Astral Cultural








5 - Dois Mundos, Um Herói - 100.499 exemplares vendidos
Rezende Evil
Ed.Suma das Letras 










6 - Philia - 92.743exemplares vendidos
Padre Marcelo
Ed. Principium

7 - Muito Mais Que 5 Minutos - 90.889 exemplares vendidos
Kéfera Buchmann
Ed. Paralela

8 - A Coroa - 88.306 exemplares vendidos
Kiera Cass
Ed.Seguinte

9 - Grey - 84.380 exemplares vendidos
E.L.James
Ed. Intrínseca

10 - Segredos de Bel Para Meninas - 82.944 exemplares vendidos
Bel/Fran
Ed. única
81.162 exemplares vendidos
Ansiedade - Como enfrentar o mal do século
Augusto Cury
Saraiva
71.254 exemplares vendidos
O diário de Anne Frank
Mirjam Pressler / Otto H. Frank
Record
70.290 exemplares vendidos
Ela confiou na vida
Zibia Gasparetto
Vida e Consciência
69.992 exemplares vendidos
A mágica da arrumação
Marie Kondo
Sextante
69.269 exemplares vendidos
O poder da ação
Paulo Vieira
Gente
66.855 exemplares vendidos
O diário de Larissa Manoela 
Larissa Manoela
Harper Collins Brasil
65.301 exemplares vendidos
Herobrine - A lenda
Pac e Mike
Geração Jovem
59.357 exemplares vendidos
Maria
Rodrigo Alvarez
Globo Livros
58.531 exemplares vendidos
O nome de Deus é misericórdia
Andrea Tornielli / Papa Francisco
Planeta do Brasil
58.128 exemplares vendidos 
De volta ao jogo
RezendeEvil
Suma de Letras

Fonte:http://www.publishnews.com.br/ranking/anual

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Na Poesia, Carlos Drummond de Andrade.


     O Rapazinho disse à garota:
     - Você precisa ter mais cultura, ouviu? Cultura. fica aí com essas milongas de Caetano, Gil e não sei que mais, e ignora os verdadeiros mestres da poesia. Já ouviu falar em Camões?
     - Já. Um chato
     - Rilke?
     - Como é o nome dêle?
     - Emily Dickinson? 
     - Sei lá.
     - Fernando Pessoa?
     - Esse é irmão da Tânia, ora.
     -Viu como você é burrinha? Irmão da Tânia coisa nenhuma. Quem é a Tânia para merecer um irmão desse gabarito? Fernando Pessoa, meu anjo, é simplesmente o maior...
     -Então são dois. Porque Nandinho eu conheço bem, não é de poesia.
     - Podem ser mil com esse nome, nenhum chega aos pés do Fernando Pessoa de que eu estou falando.Qual, você tem jeito não.
     - Então, por que você diz que gosta de mim? Procure outra que saiba de cor nomes de todos esses caras. 
     - Não tem nada uma coisa com a outra. Gosto de você por certos motivos. Gosto de você... até nem sei por que. Mas fico por conta vendo você tão ignorantezinha em poesia, que pra mim é o máximo.
     - Pois me dá umas aulas de poesia.
     - Depois do carnaval eu dou Agora você está com a cabeça mal atarraxada. Vamos fazer o seguinte. Te empresto o meu Fernando Pessoa para você dar uma lida salteado e depois conversamos. Muito cuidado com o volume, viu, sua maluca? É de estimação.Se você perder, nem sei o que acontece.
A garota me procurou:
     - Posso lhe pedir um favor?
     - Dois.
     - Estou com um problema sério.
     - Esqueceu a pílula?
     - Isso é pergunta que se faça? E se eu usasse e esquecesse, era ao senhor que eu recorreria?
     - Desculpe, conte seu problema.
     - Meu namorado me emprestou um livro, e o Gibi comeu.
     - Quem é Gibi?
     - Meu fox-terrier de dois meses. Um cãozinho divino!
     - O Gibi comeu o livro. E daí?
     - Daí o livro era de estimação, um tal de Fernando Pessoa. Meu namorado me mata.
     - Mas o Gibi papou o livro inteiro?
     -Só um pedaço da capa e as primeiras folhas. Quando eu vi e zanguei com ele (zanguei de leve, não bati) , já tinha papado.
     - E então?
     - Meu namorado tem muita história com o senhor. Diz que o senhor também é bacana, embora não tanto quanto Fernando Pessoa.
     - Obrigado.
     - Comprei outro livro para dar a ele. Caro, hem? esse Fernando Pessoa. Gastei quase toda a mesada.
     - Por que não devolve o livro meio comido pelo Gibi? Namorado acha graça em tudo.
     -Vou devolver, mas ele não ia achar graça. O Gibi comeu a dedicatória.
     -De Fernando Pessoa para seu namorado? Sem essa.
     -Era do professor do meu namorado. Foi um prêmio que ele ganhou na faculdade.
     -Ahh
     - O professor mudou para Brasília, como é que eu vou me arranjar? Então eu queria que o senhor autografasse o livro novo, para eu entregar junto com o velho, e ele ver que fiz o possível para remediar a começão do Gibi.
     -Minha filha, por que eu vou entrar nessa dança? Não sou o professor, não sou o Pessoa, não sou o Gibi.
     - Mas o senhor não está compreendendo que o livro tem de ter um autógrafo? A quem eu vou pedir? Ao Jorge Ben, ao Chacrinha? Aí é que ele me enforcava mesmo. Me faz esse favorzinho, faz. Bote aí uma coisa lindinha, diz que o Gibi não teve culpa, que ele gostou demais de Fernando Pessoa , pensou que era doce e regalou-se!
     Botei. E no exemplar comido, meu autógrafo seguiu com o de Gibi.

Andrade, Carlos Drummond de,  O Poder ultra jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 3ª ed.Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, págs. 13 a 15.

Nota: o blog manteve a grafia original

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Com Camisa, Sem Camisa, Carlos Drummond de Andrade.

Cardin consulta o Novo Testamento
(um grão de cultura ajuda o talento):
Imagem de Daniela Fetzner/ Terra

O primeiro homem não tinha camisa,
expunha o tórax ao beijo da brisa.
O sol lhe imprimia uns toques bronzeados,
Eva, no peito, lhe fazia agrados...
Tão bacaninha! Pierre decretou:
"Camisa, mes chers, agora acabou."
Os camiseiros já fundem a cuca,
fecham-se teares, em plena sinuca.
"Olha só que pão!" exclama no cock
a moça vidrada, e tenta um bitoque
em cada tronco miguelangelesco
em que o pêlo põe grácil arabesco.
Um convidado (?) chega de repente,
manda parar a prática inocente:
"Um lençol! uma toalha! um guardanapo
para cobrir o nu, depressa, um trapo,
um jornal de domingo,bem folhudo
que esconda o peito, a perna, o pé e tudo!
Tem estátua pelada no salão?
Mesmo em foto é demais a apelação!
Nu, nem no banheiro. Tá compreendido?
Melhor é ensaboar-se alguém vestido."
Viste, Pierre Cardin, o que fizeste?
Ante o rigor de repressão tamanha,
era uma vez tua última façanha.

ANDRADE. Carlos Drummond. O poder ultra jovem e mais 79 textos em prosa e verso. 3ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, p.122

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Minha Sugestão de hoje: blog da Suzana Valença



Que tal conversar com a blogueira? Nunca pensou nisso?
 Pois saiba que a gente gosta e você, internauta, tem muito o que dizer, aposto. 
Quer começar? Clique aqui


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Juvenal e o Entregador de Pães, Regina Ruth Rincon Caires


       
     O dia de Finados estava se aproximando...
            Época do ano que rendia um ganho a mais para Juvenal, e que o ajudava a remendar as dívidas. Era pintor de parede, ajudante de pedreiro, enfim, era o que precisava que fosse. Pau pra toda obra! O que não lhe faltava era disposição. Homem de meia idade, sem estudo, nascido e crescido por ali. Benquisto, transitava bem entre todos os moradores da vila.
            O cemitério, que ficava na saída da vila, na parte alta, podia ser visto de longe. Era imenso, todo cercado com muro de tijolos. Dentro, muito espaço. A pequena capela ficava perto do portão de entrada, e, por toda a volta, túmulos largamente espalhados. No fundo do terreno, uma área enorme, desocupada, reservada para servir aos futuros funerais por muitos e muitos anos.
            Alguns jazigos eram religiosamente cuidados durante todo o ano. As famílias visitavam seus mortos semanalmente, quinzenalmente. Limpavam, podavam as plantas que cercavam as sepulturas, cuidavam da pintura quando descorada. Esses jazigos sempre estavam impecáveis!
            Mas, a maioria ganhava trato apenas na época de Finados. E sempre havia muito trabalho. As chuvas, com as suas enxurradas volumosas, levavam a terra, as calçadas e os tijolos das sepulturas. E havia, ainda, as rachaduras provocadas pelas acomodações do terreno.
            Além disso, o sol impiedoso descorava as pinturas, deixando tudo muito triste, desgastado.
            Naquela época não havia floricultura nem flores plásticas. As flores, que eram colocadas nos túmulos, eram colhidas nos quintais das casas. As famílias as levavam no amanhecer do dia de Finados, e eram colocadas em vasos com água, sem a menor preocupação com doenças. Não se falava em dengue.
            Se não fosse dessa maneira, recorriam às flores de papel crepom e de pano, feitas em casa, ou às coroas de flores de lata. Compradas na funerária, pedidos feitos de acordo com as encomendas, eram do tamanho de um aro de bicicleta. Tinham as folhas e flores feitas de lata, material parecido com o zinco, todas recortadas, trançadas, presas nos fios de arame que formavam a circunferência. E pintadas à mão.
            Essas coroas resistiam por anos e anos, mas desbotavam. Então, anualmente elas recebiam uma demão de tinta. Tinta a óleo verde para as folhas, e as flores sempre vermelhas, amarelas, ou brancas. Eram essas as cores que Juvenal usava. Não colocava outras cores. Nem sei se havia...

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Se Eu Fosse Um Padre, Mário Quintana

Se Eu Fosse Um Padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Imagem do site: www.praverlerecriticar.com.br
  

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Os Olhos Dela, Artur Louback

O célebre escritor Jorge Luis Borges - O Machado de Assis argentino - tem um conto meio maluco no qual conta a história de um personagem que, revirando o porão de um antigo casarão em Buenos Aires, é surpreendido por algo mágico: a revelação de um ponto que reúne todas as coisas do universo!
Chama esse ponto de "O Aleph" e dedica-se, com graça e poesia, a descrever o que o personagem vê através dele. 
     Devo confessar que, ao ler o conto, a minha primeira reação foi questionar a parte prática da história. Da mesma forma que nunca consegui entender como o cabelo de Rapunzel crescia tanto ( o meu só cresce 12 cm por ano!), ao descobrir o tal Aleph, pensei na hora: "Mas como é isso? Um buraco na parede com um filminho passando? Um holograma projetado na poeira?". Corri para o São Google e me deram a dica: esquece a parte prática e embarca na viagem - afinal, o cara é o Maradona da literatura e, portanto, sabe o que faz.
     Pois bem, livre das amarras da realidade, mergulhei no plano das ideias e consegui imaginar esse lugarzinho onde caberiam todas as coisas do mundo. Algo para bater o olho (tipo um filminho, vá lá) e dali ver saltar o passado, o presente e o futuro em uma sequência alucinante de imagens, sensações, lembranças, enfim... tudo ali.
     Aí, após alguns minutos de total liberdade,  a vida prática voltou a bater à porta: " Se existe um lugar mágico como esse, onde está  o meu? Onde é que posso contemplar a minha história e as minhas verdades?"
     Na falta de um porão em casa, olhei dentro dos armários, no fundo das gavetas, e nada.Banheiros, área de serviço, despensa... nem cheiro de Aleph. Olhei então para dentro de mim (uau, que viagem!) e ali encontrei um monte de mim. Opa! Mas, olhando melhor, faltava um tanto para ser assim... um Aleph, entende? Faltava o futuro, os lugares onde nunca estive, as surpresas e tudo o que eu ainda não sei que existe em mim. Segui procurando. Olhei em volta e, de repente, um alumbramento: olha ele ali! O meu Aleph, Onde? Você não vai acreditar.
Não é que o filminho(!) rodava feito um cineminha em miniatura bem ns olhos de Roberta, minha esposa, há tantos anos ali, tão próxima, tão disponível, tão tranquila e favorável quanto uma tarde em Itapoã. E eis que , em um rompante, à sombra do poeta imortal, ela olha nos meus olhos e me dou conta de que meu universo está em cartaz. Sessão exclusiva. Minhas verdades, meus sonhos,meu futuro,minha ética, projetados em um belo par de lentes negras, brilhanttes, feito turmalinas polidas no esmeril.
     Quem mais do que ela podia me dizer quem eu sou? Desde que a conheci, afinal, é quem destila a seiva da minha felicidade. Recebe medo, devolve apoio. Recebe dúvida, devolve segurança. Recebe certeza, devolve "Veja bem..." . Preciso dela para avaliar minhas suspeitas do que sou, resignificar o que eu fui e arquitetar o que seremos daqui em diante, para sempre (espero!).
     Há tantas formas de descrever o amor... mas, para mim, o sentimento que vale é esse misto de confiança e admiração que nos permite, com toda sinceridade, querer se ver projetado pelos olhos do outro. Soa um pouco egoísta né?! Mas quando esse sentimento é recíproco, aí a troca é generosa, mágica e o amor dura. Pensei nisso quando Cláudia, nossa diretora de arte, mostrou , emocionada, as fotos dos longevos casais que entrevistamos para a reportagem da página 12. Eles também viram Aleph e, assim como eu, se orgulham de contar.  

Texto transcrito da Revista Todos. Edição Abril/Maio 2016. Editora Mol.

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