quarta-feira, 29 de abril de 2015

Penélope, Dalton Trevisan


     Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.           Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba
     Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do marido, ela traz um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorda uma galinha, logo se enternece, incapaz de mata-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se caco feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.

     Além do sábado, não saem de casa, o velho fumando cachimbo, a velha trançando agulhas. Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta. Ninguém lhes escreve, parente ou amigo no mundo. O envelope azul, sem endereço. A mulher propõe queimá-lo, já sofridos demais. Pessoa alguma lhes pode fazer mal, ele responde.
       Não queima a carta, esquecida na mesa. Sentam-se sob o abajur da sala, ela com o tricô, ele com o jornal. A dona baixa a cabeça, morde uma agulha, com a outra conta os pontos e, olhar perdido, reconta a linha. O homem, jornal dobrado no joelho, lê duas vezes cada frase. O cachimbo apaga, não o acende, ouvindo o seco bater das agulhas. Abre enfim a carta. Duas palavras, em letra recortada de jornal. Nada mais, data ou assinatura.   Estende o papel à mulher que, depois de ler, olha-o. Ela se põe de pé, a carta na ponta dos dedos.
     — Que vai fazer?
      — Queimar.
     Não, ele acode.  Enfia o bilhete no envelope, guarda no bolso. Ergue a toalhinha caída no chão e prossegue a leitura do jornal. 
      A dona recolhe a cestinha, o fio e as agulhas.
      —   Não ligue, minha velha. Uma carta jogada em todas as portas.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Rimas de Luar, Austro Costa




Pela noite calma
anda um misticismo

que é de lua cheia.

Tua imagem calma,

nesse misticismo

lívida vagueia...



Tão alva e magrinha,

és um crisântemo

que se despetala;

frágil almazinha

que é de crisântemo

que o Luar embala!



Vens sorrindo, leve,

num sorrir divino

que é fascinação.

Vens sorrindo, leve

vens cantando o hino

da minha ilusão.



Passas... És saudade!

Lembras a distância

que entre nós está.

Páras. E a Saudade

mais aumenta a ânsia

que arde aqui e lá.



Abro-te minh’alma.

Entras,e, em lirismo,

teu sorriso Salma*...

Luz a Lua-Cheia...

E. num misticismo,

pela noite calma,

tua imagem calma

dentro de minh’alma,

toda luar passeia...

Austro Costa
Mulheres e Rosas 2ª edição revista. Ed. Cepe 2012

Nota: o blog manteve a grafia original
*Salma: o poeta criou um neologismo com o substantivo salmo.

sábado, 25 de abril de 2015

Nana Pauvolih - A Rainha da Amazon Brasil, Suzana Valença



O sobrenome dela é P-a-u-v-o-l-i-h. Mas, entre os fãs, ela é conhecida só como Nana mesmo. Se você ainda não ouviu falar nela, não tem problema. Nana Pauvolih é, provavelmente, a escritora bem sucedida mais desconhecida do Brasil. Ela não está em nenhum das listas de livros mais vendidos publicadas nas revistas semanais. Mas não se engane, o território dela é outro. Nana domina as vendas de ebooks no Brasil. Na Amazon nacional ela está no topo do ranking de best-sellers e sua média de avaliação “varia” entre 5 e 5 estrelas. No universo online, Nana Pauvolih é unanimidade. Mas porque Nana Pauvolih é tão conhecida apenas no mundo literário digital? É que ela escreve livros eróticos.

Quem tem vergonha de comprar livros eróticos?


“Livros online são mais baratos, práticos, não ocupam espaço. E para quem quer ler um erótico sem mostrar à família, também fica mais fácil. São grandes as vantagens”, conta a autora. Como muitos leitores têm vergonha de comprar o livro físico (“isso está mudando”, garante Nana), ela constrói seu sucesso com ebooks. Não é de hoje que os leitores consomem as obras de Nana encobertos pela discrição da internet. As histórias sensuais de Nana, seus (muitos!) fãs e o digital têm uma relação antiga que ajudou a cimentar o caminho da escritora para se tornar rainha da Amazon Brasil em vendas de ebooks.

Antes de começar a vender os livros online, Nana publicava suas histórias (de graça mesmo) em seu blog e em plataformas especializadas como Wattpad  e WidBook. A autora conta que trabalhou bastante na divulgação de suas produções em sites de leitura. Aos poucos, o público foi descobrindo a escritora e rolou química. “Contei com a divulgação dos leitores. Na rede, se um gostar, indica para outro, faz postagem, se torna um fator multiplicador”. Chegar à Amazon foi o caminho natural, “eu percebi que podia ser profissional quando comecei a vender bem. Era um sonho se tornando realidade”. Hoje, a autora tem 12 obras à venda pela loja online e todos contam com muitas resenhas positivas dos leitores. No mundo dos livros físicos, Nana tem contrato com a Editora Rocco, que está colocando no mercado a Série Redenção, uma trilogia que já havia sido publicada online no ano passado. Ela ainda tem no currículo outra série, chamada Segredos, e outro livro, A Coleira, publicada pela editora Multifoco.

Nana Maravilhosa!


Dê uma olhada nas resenhas de leitores de Nana na Amazon e procure uma opinião negativa. Se achar, me avise. Ou jogue na Mega Sena. Na maioria das vezes, os comentários do público (mulheres, quase sempre) são elogiosos, calorosos, fanáticos. Ela é tratada por “maravilhosa”, as leitoras capricham nas exclamações (maravilhosa!!!!) e as avaliações nunca são menores do que quatro estrelas. Nana Pauvalih não divide opiniões.
Para ela, tanta empolgação das fãs é resultado da honestidade que ela emprega em sua escrita. “Eles gostam do meu trabalho. Apesar das pessoas acharem que escrevo apenas erotismo, não é isso. Eu escrevo sempre uma história diferente da outra, com enredo, com romance, com tudo que um leitor gosta, principalmente o público feminino. Não tenho “papas na língua”, ou melhor, vergonha nas pontas dos dedos. Escrevo tudo em detalhes, seja um reencontro entre pai e filho, com todas as emoções possíveis, até uma cena de sexo de várias páginas. Amo detalhes. Amo intensidade. E talvez seja isso que os leitores que avaliam amem também”.

Nana Pauvolih
“Não tenho papas na língua”. Foto: Rafaela da Gama / Editora Rocco

Comprar ou ler de graça? Os dois!


Mesmo com o sucesso de vendas, a autora continuou disponibilizando histórias gratuitas. Ela conta que mudou um pouco a estratégia de divulgação apenas no final do ano passado. “Coloquei [os livros] direto na Amazon e deixei nas outras plataformas apenas capítulos de degustação. Meus livros custam R$7,99 e R$9,99, bem acessível, para que as pessoas possam comprar”.
Este mês, a Amazon disponibilizou o conto O Senhor da Ilha. A história podia ser lida há um ano, de graça, no site da autora. Mesmo assim, a obra chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos da loja online. Isto quer dizer que as leitoras pagam pelas histórias de Nana, mesmo podendo as ler grátis em outra plataforma. Nem a própria Nana consegue explicar tanto sucesso. “Acho que as pessoas eu gostam do meu trabalho queiram ter o livro para ler quantas vezes quiser”.

Facebook para conversar com o público (discretamente)


A escritora conta que gosta muito de interagir com as leitoras. E mais uma vez a discrição que só a vida online permite ajuda bastante. Ela mantem um grupo secreto no Facebook com cerca de 5 mil mulheres como sua principal ferramenta online este diálogo. Nana leva em consideração a opinião das fãs (“só as dadas com respeito”), mas não deixa que terceiros pilotem suas histórias. “[Sigo] sempre minha intuição e minha imaginação. Eu me envolvo muito com as histórias e personagens. Já aconteceu de programar para escrever uma história e acabar adiando, pois outra veio tão forte que foi quase uma necessidade escrevê-la. Quase não. Totalmente. Eu simplesmente me deixo levar por elas”.

Não gostou? Vá ler outra coisa!


E as histórias de Nana são bem isso mesmo. Jogadas, simples, sinceras, sem muito apego a um estilo, uma estrutura ou a uma verossimilhança. A autora não parece ligar nem um pouquinho. Em O Senhor da Ilha, a personagem principal fica presa como escrava (sexual, claro) do protagonista. Ela não acha que essa trama pode ser considerada machista? “Poder pode, mas não me preocupo com isso. Cada um tem sua opinião. Quem não gosta, deve ler outro tipo de literatura. Há quem goste. Se eu fosse me prender ao que pensam, não escreveria nada”.
Nana é sincera em escrever o que ela quer. Ela pode até não estar sendo resenhada nas páginas de cultura da Veja, mas faz um trabalho extremamente honesto que conquistou muitas fãs fieis internet afora. “As leitoras conhecem minha trajetória, minha dedicação, meu respeito pelos leitores, fazem questão de comprar”, diz.  “Assim, escrevo por que amo, o que me dá vontade, com todo meu empenho”.

Esta matéria foi originalmente publicada e pode ser lida no Digaí.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dragão, Livro e Rosas.

                     Aprendi com minha irmã que aprendeu na aula de espanhol  e trago para cá, dizendo que gostaria de conhecer a Catalunha nessa época do ano.  
                   
                
Era uma vez um dragão que aterrorizava a todos numa aldeia da Espanha há muitos e muitos anos passados. Para acalmar a fúria do animal, a ele era oferecida uma donzela por dia.
                Num determinado momento já não havia mais nenhuma donzela a não ser a filha do rei. E ela foi oferecida ao dragão (ooooohhh). Acontece que um jovem cavaleiro era apaixonado por ela e resolveu lutar contra o dragão e ganhou a luta.  
               Era inverno e toda a neve do local da luta ficou tingido com o vermelho do sangue do dragão.  Mas quando a filha do rei - que como tem de ser em toda lenda, devia ser linda - olhou para ao redor, onde antes havia sangue, cresceram rosas e mais rosas.                
                Este dia, 23 de abril passou a ser o dia das rosas.  Muitos anos depois à festa das rosas foi acrescentado o livro. Nas comemorações, então, as mulheres oferecem livros e os homens oferecem rosas. 
              
  E por que? Ora, porque é a data da morte de Miguel de Cervantes, Shakespeare e de Inca Garcilaso de La Vega que era um escritor peruano. Acabei de aprender.



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Provo, Sinto Em Silêncio, Joaquim Cardozo

Provo, sinto em silêncio

O gosto de tua presença,
O gosto da presença feliz o teu corpo inocente e querido.
Vejo que as ruas mãos formosas e mansas
Movem-se para mim num desejo incerto de carícia,
num gesto vago e litúrgico,
E ouço a tua voz chegando como uma reza,
Imersa em sombra, envolta em fumo, fragrante e leve.
Mulher! em meio deste perfume,
Incenso que vem de ti e das flores que trazes no seio,
Mudo como um Deus quero ser adorado.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Papagaio Congelado, Ricardo Azevedo

Um dia, um sujeito ganhou de presente um papagaio.
O bicho era uma praga. Não demorou muito, logo se espalhou pela casa.

Atendia telefone.

Gritava e falava sozinho nas horas mais inesperadas.

Dava palpite nas conversas dos outros.

Discutia futebol.

Fumava charuto.

Pedia café, tomava, cuspia, arregalava os olhos, esparramava semente de girassol e cocô por todo lado, gargalhava e ainda gritava para o dono de casa: "Ô seu doutor, vê se não torra faz favor!"

Uma noite, a família recebeu uma visita para jantar.

O papagaio não gostou da cara do visitante e berrou: "Vai embora, ratazana!" e começou a falar cada palavrão cabeludo que dava medo.

Depois que a visita foi embora, o dono da casa foi até o poleiro. Estava furioso:

— Seu mal-educado, sem-vergonha de uma figa! Estou cheio! Agora você vai ver o que é bom pra tosse.

Agarrou o papagaio pelo cangote e atirou dentro da geladeira:

— Vai passar a noite aí de castigo!

Depois, fechou a porta e foi dormir.

No dia seguinte, saiu atrasado para o trabalho e esqueceu o coitado preso dentro da geladeira.

Só foi lembrar do bicho à noite, quando voltou para casa.

Foi correndo abrir a geladeira.

O papagaio saiu trêmulo e cabisbaixo, com cara arrependida, cheio de pó gelado na cabeça.

Ficou de joelhos.

Botou as duas asas na cabeça.

Rezou.

Disse pelo amor de Deus.

Reconheceu que estava errado.

Pediu perdão.

Disse que nunca mais ia fazer aquilo.

Jurou que nunca mais ia fazer coisa errada, que nunca mais ia atender telefone e interromper conversa, nem xingar nenhuma visita.

Jurou que nunca mais ia dizer palavrão nem "vai embora, ratazana".

Depois, examinando o homem com os olhos arregalados, espiou dentro da geladeira e perguntou:

— Queria saber só uma coisa: o que é que aquele franguinho pelado, deitado ali no prato, fez?

sábado, 18 de abril de 2015

Os Romanos, Rubem Braga

Foi no Leblon, no domingo de sol, e não era escola de samba e nem rancho direito, era apenas uma tentativa de rancho, sem mulheres, sem música própria. Eram quase todos muito fortes e vestidos da maneira mais imaginosa, com saiotes e escudos e capacetes com muitos dourados e prateados, e de espada na mão. Cantavam o samba estranho Maior é Deus no céu e no estandarte estava escrito assim: Henredo o Império Romano."

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Livros no varal - o que o grupo vai ler.

 Contos do Nascer da Terra, Mia Couto
De Regina
Vai para:Amanda (PB) Malu (RJ)
 A Abadia de Northanger, Jane Austen
De: Tânia 
Vai para:










A Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa
De: Regina
Vai para: Amanda (PB), Malu (RJ)




 A Cidade do Sol, Khaled Hosseini
De:Aline
Vai para:


Passaporte Para a China, Lygia Fagundes Telles
De: Tânia
Vai para: Regina
O Segredo do Meu Marido, Liane Moriarty
De: Regina
Está com: Tânia
Vai para:
 O Silêncio das Montanhas, Khaled Hosseini
De: Aline
Vai para:
Sal, Letícia Wierzchowski
De: Cris
Vai para:Regina









 Umbilina e Sua Grande Rival, Cícero Belmar
De: Regina
Vai para:Malu (RJ)
Hanna e Suas Filhas, Marianne Fredricksson
De: Janete
Está com: Cris
Vai para:







 Inferno, Dan Brown
De: Cris
Vai para:

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Tarde de Domingo, Ana Paula Corradini



  
   Seis pratos sobre a pia. Cinco vazios, um ainda com lasanha à bolonhesa.
Um filho que não gosta de lasanha à bolonhesa. Zero filhos para tirar o resto da mesa. Uma mãe de mãos ásperas, um pai de dedos ágeis. Um controle remoto. Zero sobremesas. Quatro reclamações. Um filho que não gosta de sobremesa. Dez dedos indicadores, um controle remoto. Cinquenta programas simultâneos na TV a cabo. Cinco opiniões, dois safanões, um grito vindo da cozinha. Quatro silêncios e uma bateção de porta. Um filme, quatro sorrisos. Um choro abafado no banheiro. Uma palavra doce de mãe. Seis pratos lavados, doze talheres guardados, uma caçarola areada. Duas mãos em repouso. Cinco lugares ocupados. Uma poltrona vaga. Uma birrinha no canto da sala. Um colo. Duas lágrimas já enxutas. Um ressonar, dois ressonares, três... Cinco roncos. Dois olhos bem abertos. Um bico desse tamanho.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

As Mulheres do Meu Pai - Última página

    ... " Fui à praia depois do jantar. Não havia ninguém. Estrelas brilhavam na límpida imensidão do firmamento. Consegui distinguir o Cruzeiro do Sul, e Vênus, a quem os antigos chamavam de Lúcifer, a que carrega a luz. Despi-me e entrei n mar - a água era lisa e tépida - com a sensação de que mergulhava na própria noite. No século XIII escrevia-se noyte. Digamos então que eu me senti mergulhar na noyte, sugado pelo seu vórtice escuro, e que fechei os olhos e quando os reabri vi as estrelas  a girar ao meu redor.  Movia os braços e cada movimento parecia gerar um tumulto de estrelas. Conheço pessoas que passaram por esta experiência e entraram em pânico. Outras em êxtase. Muitas falam em embriaguez, a maioria em sonho.  O fenómeno é provocado por um pequeno organismo unicelular, a noctiluca, capaz de emitir luminescência, e chama-se  ardência marítima ou, no sul de Portugal, agualusa. Fiquei muito tempo no mar, divertindo-me, como um pequeno Deus inclemente, a criar e desfazer constelações. Dei-me conta, ao sair, que havia uma esguia sombra de mulher estendida na cadeira ao lado da qual eu deixara a roupa. Reconheci-a assim que me aproximei: a Bailarina. Vestia um biquíni preto, reduzido, com aplicações de miçangas, ou outro material semelhante, que pareciam cintilar, vagamente, como pirilampos, sobre a pele escura. Sentei-me a seu lado, em silêncio e dessa vez foi ela quem falou primeiro.
     - Leve os sonhos a sério - sussurrou - Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado."

(Em As mulheres do meu pai, José Eduardo Agualusa. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2012)

O Moleque Ricardo, Carlos Benites.



     O menino Ricardo estava feliz. Enfim viveria definitivamente com o pai. Com 14 anos, quase não tinha lembranças físicas de seu pai, o grande escritor Graciliano Ramos. Custou a entender a razão de que só ele ficara em Alagoas, criado pelo avô Américo e sua tia, desde os sete anos de idade, enquanto suas irmãs tinham viajado com a mãe para se encontrarem com o pai. Trazia na memória as férias que passara aos 10 anos no Rio de Janeiro e levou orgulhoso seu boletim para mostrar a seu pai, mas este disse apenas um lacônico “Está bom”. Agora, aos 14 anos, seria diferente. Estaria com as irmãs Clarita e Luiza e a mãe Heloisa. Já não teria que se agarrar às cartas para ter contato com pai e mãe.  Mesmo com a grande distância, nutria um carinho e admiração pelo pai. Até quando os familiares tentavam poupá-lo das notícias cruéis do tempo da prisão de seu pai, ele acompanhava quieto e preocupado cada momento. Desde antes da viagem de sua mãe, ficava sempre com os ouvidos prontos para ouvir as conversas em tom baixo, e lia às escondidas as cartas do pai para sua mãe, tia e o avô. E com isso ia construindo uma imagem paterna em seu imaginário.

    
A viagem ao Rio foi agradável. Os solavancos da longa viagem em estradas esburacadas foram insuficientes para tirar-lhe o entusiasmo.  Não esperava demonstrações exageradas de carinho por parte de seu pai, e na sua imagem criada, acabou preferindo que fosse assim. Eram nos pequenos gestos que o pai mostrava carinho e cuidado com cada um de seus filhos.  Mais de uma vez viu seu pai, enquanto escrevia, reclamar do barulho das brincadeiras de suas irmãs: “Suas pestes! Excomungadas do diabo!”.  Mas a seguir, lia histórias para elas e brincava carinhosamente com os cabelos das filhas.  Mas não deixava de ameaçar as meninas, que se continuassem com o barulho, ia contar uma história de terror para elas, em que duas meninas eram deixadas num parque abandonado. E soltava uma gargalhada, compartilhada com as filhas. Assim que chegou, Ricardo já pode perceber do interesse do pai pelos seus estudos. Quando ouviu de Ricardo que queria também escrever como ele, o pai ficou quieto.  O olhar de Graciliano depois de ouvir o desejo do filho em se tornar escritor e o fato de não ter dado um sermão o criticando, foi interpretado por Ricardo como uma aprovação.

     Aquele dia parecia especial. O pai recebera um convite do jornalista Mario Filho para ir a um jogo de futebol. Ouviu o resmungo do pai ao ler o convite. “Esse jogo é só pontapé”.  Sua mãe não deu força à rebeldia de seu pai. Ricardo pode ouvir sua mãe falar: “Grace, largue de ser rabugento e vai lá. Você não estará sozinho. Zelins estará também.”  Depois de refletir, dando umas baforadas no seu inseparável cigarro, Graciliano decidiu: “Está certo. Eu vou. Mas levo o Ricardo comigo.”  Ao ouvir o pai, Ricardo vibrou.Ficou quieto e continuou na leitura do livro que recebera de presente, cujo autor era o nome que fora citado por sua mãe, o  Zelins, que tratava-se do escritor José Lins do Rego, o qual Ricardo logo percebeu que  era um grande amigo do pai, mesmo com o tratamento às vezes rude com ele. Numa dessas vezes, Zelins piscou para Ricardo:

     - Essa é uma forma diferente de seu pai dizer que gosta de mim.  Eu não te disse antes. Já tinha me simpatizado contigo, menino, e não só porque você é filho de um grande amigo. Tem um motivo a mais: seu nome é o mesmo de um personagem de um de meus livros. Amanhã te presenteio “O moleque Ricardo”.

    A mãe começou a arrumar o filho. “Vai com o melhor terno. Você estará diante de muita gente importante, grandes escritores”.  O pai logo deu outro conselho. Que soubesse tirar o de melhor de cada um e jogue fora o que não preste. “Não pense que o fato de sermos escritores nos transforma nas melhores influências”.  Ricardo a tudo ouvia com atenção, contando como um aprendizado cada palavra dita por seu pai. Também não julgue que, como sou comunista, você só deve aprender com comunistas. Pelo contrário, tome muito cuidado com alguns. Nem torça o nariz a todo reacionário – e Ricardo anotou a palavra para depois procurar seu significado. Aliás, hoje nos encontraremos com um bom representante. Fique de olho nele, pois ele escreve muito bem. É um reacionário filho da puta de tão bom.

     José Lins apareceu na velha pensão em que a família do menino morava. Cumprimentou dona Heloisa, conferiu a gravata de Ricardo e lá foram ao estádio das Laranjeiras no seu automóvel.  Antes, passaram numa banca de jornal, onde Graciliano comprou o JornalDiretrizes, onde se lia na capa uma chamada falando da campanha da guerra, dizendo que o conflito estava próximo do fim. Chegando ao estádio, dirigiram-se à Tribuna de Imprensa. Ricardo a tudo observava, com entusiasmo tamanho que fazia seus olhos brilharem. Via as pessoas carregando bandeiras. Sempre ouvia seu pai falar que o football era um esporte que não emplacaria na nossa terra, que nossos jovens eram muito mirrados e que deviam se dedicar à capoeira ou algum esporte de corrida. Ricardo notou que o pai olhava atento em volta das arquibancadas. Viu que as bandeiras da maioria do estádio eram das cores verde, grená e branco, as mesmas da bandeira que tremulava do alto do estádio. As outras eram pretas e brancas. Quem joga hoje, Zelins? José Lins do Rego brincou com Graciliano, falando que ele escamoteava o sentimento pelo esporte.  “Graça, não finja indiferença. Você sabe muito bem que jogam Fluminense e Botafogo”. Graciliano soltou um muxoxo. “Se ao menos o América jogasse, teríamos bandeiras vermelhas”. José Lins e Ricardo sorriram ao perceberem que o pai não só sabia quais times jogavam, como sabia as cores das bandeiras de cada um. Chegaram depois os irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues, que cumprimentaram entusiasticamente José Lins. Mário Filho disse para José Lins:

     - Já que nosso Flamengo não está em campo, vamos torcer para quem?

     - Qualquer um, Mário. Seremos campeões, pois temos Zizinho. Mas para implicar com seu irmão, vamos torcer para o alvinegro.

     Nelson Rodrigues, que a tudo olhava, foi cumprimentar Graciliano, mas parou ao notar a presença de Ricardo. José Lins explicou. É o filho do Graça que morava nas Alagoas. Para que time torce? – perguntou Nelson Rodrigues. Ricardo disse que não tinha time, mas que podia escolher um time naquele jogo. Recebeu de volta o que poderia ser uma ofensa, mas ele anotou num papel como se fosse um ensinamento: “Não importa para quem você escolher hoje. O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”. Graciliano se dirigiu a Nelson Rodrigues:

     - Como você está, seu reacionário safado? – e deu uma piscada para Ricardo, que entendeu que ele era o tal que o pai havia falado antes.

Minutos depois, Ricardo ouve um burburinho no estádio, com as pessoas se levantando.  Ricardo percebe que as pessoas olham para uma tribuna próxima. Ricardo então ouve seu pai colocar a mão na boca em forma de concha e soltou um som:

     - UUUUUUUUUUUUU! UUUUUUUUUUUUU!

     José Lins aconselhou Graciliano:

     - Calma, homem. Quer arrumar motivo para te mandarem de volta à prisão?

     - Está bom. É que eu não me contive. Maldito caudilho!

     Ricardo entendeu que quem chegara era o homem que sempre tinha seu nome citado nas cartas de seus pais: Getúlio Vargas.

     Começou o jogo e os adultos distribuíam doces e balas a Ricardo. Estava adorando aquilo. Todos lhe davam atenção, mas ele não deixava de prestar atenção ao jogo. Tudo que lia nos jornais alagoanos parecia que era melhor ainda. Os craques que tinham seus nomes entoados pelos narradores de rádio pareciam mágicos. E o colorido das arquibancadas o deixava ainda mais fascinado. Ricardo também percebeu que não era só ele que fazia anotações num bloquinho.  Todos eles, incluindo seu pai que nunca mostrou interesse pelo esporte, anotavam tudo. Ricardo percebeu que aquilo era uma prática dos escritores. Pensou então que estava no caminho certo. De repente ouviu do pai um comentário solitário: “Parece que esse jogo não é só pontapé na bola. Tem um quê mágico. Havia emoção, uns passos de dança, um tango argentino com um toque do samba brasileiro”.  Propôs então um acordo ao filho: “Você torce para o time do  reaça e eu  para  o  alvinegro.  Se  seu time vencer, te levo para trabalhar comigo e vou te ensinar o meu ofício”.  Mal terminou de falar e Ricardo dizer “Combinado”, o menino volta os olhos para o campo ao ouvir um ruído crescente e perceber várias pessoas se levantando, e então gol do time de branco. E Ricardo comemorou como se já torcesse para o Fluminense desde os tempos em que vivia em Maceió. De soslaio, Ricardo notou que seu pai estava cada vez menos alheio ao jogo. Por um instante achou que viu um brilho juvenil e moveu os braços como se estivesse torcendo quando o alvinegro foi ao ataque.

No intervalo do jogo, Nelson Rodrigues fumava um cigarro. Ricardo aproximou-se dele, tomou coragem e bateu em seu ombro:

     - Seu Nelson, por que você e seu irmão torcem para times diferentes?

     - Menino, você devia perguntar isso a ele e não a mim. Eu diria que ele passou a torcer pelo Flamengo por conta da eterna briga entre irmãos, um querendo ser diferente do outro.  Mas saiba de uma coisa. Outros times se dizem também tricolores, mas tricolor é o Fluminense. O resto são todos times de três cores.

     E Ricardo anotou mais uma frase. Continuou a vibrar com cada momento daquele jogo.    
     Qualquer movimento no campo e na arquibancada lhe dava prazer. Porém, mais do que tudo, o que mais gostou, foi quando seu pai fez algo que não costumava fazer desde que chegou ao Rio. Ricardo olhava atentamente o campo, quando sentiu um toque em sua cabeça da mão esquerda de seu pai. Depois, colocou a mão em seu ombro esquerdo, abraçando-o.

      - E aí, moleque? Está gostando do jogo, não é?

     - Sim, me simpatizei com o time de branco. Acho que vou ser Fluminense.  Semana que vem tem jogo contra o Vasco. Seu Nelson me chamou. Posso ir com ele?

     O pai disse que não achava boa ideia. Ricardo já baixava o olhar, quando o pai continuou:

      - Deixa que eu te trago.



Conto classificado em 2º lugar no VIII Prêmio UFF de Literatura, em 2014.


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