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Independência e Sorte, Mário Persona

       Gosto de ensinar. É gratificante poder dar algo a alguém. Principalmente conhecimento, que você não subtrai quando divide. Mas soma e multiplica. Hoje ensino marketing para universitários. Mas já lecionei de tudo um pouco numa escola secundária.           Foi há mais de vinte anos, quando era professor voluntário no mais interior dos interiores. Muito além das Gerais dos Inconfidentes.        Eu era um dos quatro únicos professores formados, numa cidade onde o quinto diplomado era o Tiradentes local. Um título que lhe cabia bem, em meio às tantas cavidades daquela descalcificada população. Tamanha era a independência de dentes proclamada pelas bocas locais, que até algumas dentaduras postiças sorriam suas vagas.         Com minha esposa e um casal de jornalistas, éramos os estrangeiros do lugar. Jovens empre...

For We Who Keep Our Lives In Our Mouths, Nayyirah Waheed

my whole life i have ate my tongue ate my tongue ate my tongue

O Joelho Juvenal:BiblioTheo

     Tanto quanto um cãozinho ou um gato os livros são ótimas companhias para as crianças.     Qual é a criança que não tem curiosidade por aquelas páginas desenhadas?        Qual a delas não quer ouvir seguidas vezes a mesma história sem que o adulto leitor mude nenhuma linha da narrativa?        Qual a criança que não quer redesenhar (tudo bem, fazer garatujas) ou até mesmo recortar a história?   O Joelho Juvenal    Faz parte de uma serie  em que o autor fala de alguma parte do corpo.  Juvenal, é bem feliz. Pertence a um garoto que como toda criança, está sempre em movimento. é feliz como e com o menino.  Adora andar por aí e correr porque sente a brisa. O Joelho Juvenal conversa com o cotovelo.  Frequentemente fica esfolado vítima de alguma queda do garoto.  Nota que o menino cresceu quando perde a visão das coisas porque o me...

Edmundo, o Céptico, Cecília Meireles

          Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.      Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O cepticismo também tem o seu valor!)      Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d’água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a idéia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.      Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: “E o rei Salomão?” Foi precis...

Tristeza da Lua, Charles Baudelaire

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;   Como uma bela, entre coxins e devaneios, Que afaga com a mão discreta e vaporosa, Antes de adormecer, o contorno dos seios. No dorso de cetim das tenras avalanchas, Morrendo, ela se entrega a longos estertores, E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas Que no azul desabrocham como estranhas flores.

BiblioTheo, a biblioteca de meu neto.

O garotinho fofo com pés de dragão é meu netinho. Theo está perambulando no setor de livros infantis de uma grande livraria. Sim, para ele é um lazer e tanto ir a uma livraria.  Theo já é um leitor de respeito: tem livros com e sem ilustração, em papel e em madeira, de ler ou de montar, intacto ou avariado, pintado, rabiscado, em português, em inglês. Todos lidos e relidos diversas vezes. Todos decorados,   claro. Criança não é assim? Sabe as histórias nos mínimos detalhes, mas quer que conte e reconte... Já li para Theo O Joelho Juvenal, de Ziraldo que o pai dele também tinha e também leu um montão de vezes. Ziraldo está na BiblioTheo.   A BiblioTheo vai fazer parte do blog a partir de hoje. Coisa de vó. Babona e leitora .

Histórias de Trens, Nílva Basílio.

      São tão claros os presságios e os encontros dessa vida Quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada..." (em Pequenina, cantada por Xangai, autor Renato Teixeira)      Os trens se cruzaram e pararam antes de chegar á plataforma da estação. Isto acontece frequentemente. Passageiros de um e outro aproveitam estes momentos para se olharem, se avaliarem, através das janelas tipo guilhotina.  O casal se reconheceu naquele dia.       Já haviam se visto outras vezes, cada um a seu modo atraído pela figura do outro. O soldadinho bem apanhado, no rosto um quê de quem vive de bem com a vida. A moça séria, jeitosa, muito bem arrumada, nos saltos - embora na volta do trabalho ela já esteja se achando meio decomposta. Ele lhe disse, mais tarde, que a achara bonita, e ela, no fundo, no fundo, acredita, com um tiquinho de modéstia. Sempre fora cuidadosa com a aparência, copiando os modelos das...