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Pé de Livros - Vamos ajudar?

O Que é?                         Janete Barros é uma leitora voraz e consciente da importância dos livros para as crianças. Mãe de João, um garoto que como ela e as traças lê como quem bebe água, Janete fez para o filho um Pé de  Livros.  Pendurou diversos exemplares de livros infantis (diversas idades) e deixou pra que seu filho e amiguinhos lesses o que como e quantos quisesse. Agradou à criançada.  A cearense empreendedora, transformou a iniciativa em projeto e,com recursos próprios, organizou farto material para levar a outras crianças e lugares o Pé de Livros.  Requisitada devido à aceitação, já não  tem mais condição de atender à demanda sem um transporte próprio.   Pé de Livros, precisa de um fusca adesivado.         O Blog LivroErrante convida a quem gosta de ler, de ajudar, e entende a importância da leitura para as crianças a participar de campanha vi...

A Mulher Esperando o Homem, Rubem Braga

           O tema de mulher esperando o homem há muito, muito tempo me fascina; sei que é velho, já serviu para sonetos, contos, páginas de romance, talvez quadro de pintura, talvez música. E eu que não sei fazer nada disso sou, entretanto, perseguido por histórias de mulher esperando homem, das mais banais às mais terríveis.       Agora mesmo, quando passou o aniversário da revolução húngara eu me lembrei que de todos os relatos, alguns são dolorosos, horríveis, de gente que fugiu da Hungria, havia o de uma mulher que contou com simplicidade sua história; e foi o que  mais me impressionou quando li ,de madrugada, no meu quarto de hotel em Nova York. O marido saíra para a revolução e lhe disse que ela não saísse de casa de maneira alguma,esperasse sua volta.  Chegou a noite e ele não veio; passou a noite inteira acordada, e ele não veio; no outro dia, entraram na rua  tanques russos atirando, e veio outra vez a noi...

Garrafa Ao Mar Para O Deus Das Palavras, García Márquez

                         Aos meus doze anos, estive a ponto de ser atropelado por uma bicicleta. Um padre que passava me salvou com um grito: "Cuidado!" O ciclista caiu no chão. O senhor padre, sem se deter, me disse: " Viu só o poder da palavra?" Naquele dia fiquei sabendo. Agora sabemos, além do mais, que os maias sabiam disso desde os tempos de Cristo, e com tanto rigor que tinham um deus especial para as palavras.      Esse poder jamais foi tão grande como hoje. A humanidade entrará no terceiro milênio sob o império das palavras. Não é verdade que as imagens estejam substituindo as palavras, nem que as palavras possam ser extintas. Ao contrário, as imagens estão potencializando as palavras: autoridade e vida própria como na imensa Babel da vida atual. Palavras inventadas, maltratadas ou sacralizadas pela imprensa, pelos livros descartáveis, pelos cartazes de publicidade; faladas e cantadas no rá...

Depois do Carnaval, Cecília Meireles

          Terminado o carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.      À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.      Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pesso...

Sonho de Uma Terça-Feira Gorda, Manuel Bandeira

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras                                                            [eram as nossas máscaras. Íamos, por entre a turba, com solenidade, Bem conscientes do nosso ar lúgubre tão contrastado pelo sentimento de felicidade Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada                                                            [ de fogo... Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas. E a impressão em meu sonho era que se estávamos Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro, - Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso. Era terça-feira gorda. A multidão inumerável Burburinhava. Entre clang...

Memórias de Um Carnaval, Sérgio Porto

     Por que não escreves uma história sobre o carnaval?      Olham , até que não é má ideia! Claro que tomarei cuidado, nada de usar a palavra "fulgor", ou combinar o adjetivo"estonteante"  com o substantivo "alegria". É da máxima importância não dizer que "esta vida é um carnaval".      Assim, evitando o lugar-comum, o assunto já me parece mais digno de ser abordado.      Todos nós temos um carnaval para recordar e todas as revistas têm uma enquete para fazer: Qual o seu carnaval inesquecível?      Ora, direis, ides falar na alegria que adivinháveis  do vosso leito de enfermo. Ides contar a ideia que tínheis de um carnaval imaginado através do relato de adultos. Isso é muito manjado. Quando a revista vem com a pergunta, o perguntado já tem a resposta pronta:      - O meu carnaval inesquecível eu não vivi, mas adivinhei-o, impossibilitado de brincar.     ...

Restos de Carnaval,Clarice Lispector

     Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.     No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertire...