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Mostrando postagens com o rótulo conto de Monteiro Lobato

Bucólica, conto de Monteiro Lobato

Tanta chuva ontem!… O cedrão do pasto fendido pelo raio – e hoje, que manhã! A natureza orvalhada tem a frescura de uma criancinha ao deixar o banho. Inda há rolos de cerração vadia nas grotas. O sol já nado e ela com tanta preguiça de recolher os véus de neblina… A vegetação toda a pingar orvalho, bisbilhante de gotas que caem e tremelicam, sorri como em êxtase. Há em cada vergôntea folhinhas de esmeralda tenra brotadas durante a noite. A mão de quem passa não resiste: colhe-as de alcance, porque é um gosto mordiscar-lhe a polpa macia. Meu Deus! O que vai de aranhóis pela relva – nos galhinhos de joveva, nas flechas de capim, grandes e pequeninos, todos mimosos de desenho, tecidos a fio de seda… Compraz-se a noite em agrumar neles milhões de diamantezinhos que a luz da manhã irisa. Malmequeres por toda a parte – amarelos, brancos. E tanta flor sem nome… – Flor à-toa, diz a gente roceira. São, coitadinhas, a plebe humílima. A nobreza floral mora nos jardins, esplendendo cores de dança ...

"Pollice Verso", conto de Monteiro Lobato

       Dos dezesseis filhos do coronel Inácio da Gama cedo revelou o caçula singulares aptidões para médico. Pelo menos assim julgara o pai, como quer que o encontrasse na horta interessadíssimo em destripar um passarinho agonizante. — Descobri a vocação de Nico — disse o arguto sujeito à mulher. — Dá um ótimo esculápio. Inda agorinha o vi lá fora dissecando um sanhaço vivo. Hão de duvidar os naturalistas estremes que o homem dissesse “dissecando”. Um coronel indígena falar assim com este rigor de glótica é coisa inadmissível aos que avaliam o gênero inteiro pela meia dúzia de pafúncios agaloados do seu conhecimento. Pois disse. Este coronel Gama abria exceção à regra; tinha suas luzes, lia seu jornal, devorara em moço o  Rocambole , as  Memórias de um médico  e acompanhava debates da Câmara com grande admiração por Rui Barbosa, Barbosa Lima, Nilo e outros. Vinha-lhe daí um certo apuro na linguagem, destoante do achavascado ambiente glóssico da fazend...

Meu Conto de Maupassant, Monteiro Lobato

                                            Conversavam  m no trem dois sujeitos. Aproximei-me e ouvi: — Anda a vida cheia de contos de Maupassant; infelizmente há pouquíssimos Guys... — Por que Maupassant e não Kipling, por exemplo? — Porque a vida é amor e morte, e a arte de Maupassant é nove em dez um enquadramento engenhoso do amor e da morte. Mudam-se os cenários, variam os atores, mas a substância persiste — o amor, sob a única face impressionante, a que culmina numa posse violenta de fauno incendido de luxúria, e a morte, o estertor da vida em transe, o quinto ato, o epílogo fisiológico. A morte e o amor, meu caro, são os dois únicos momentos em que a jogralice da vida arranca a máscara e freme num delírio trágico. — ? — Não te rias. Não componho frases. Justifico-me... Na vida, só deixamos de ser uns palhaços inconscientes a mentirmos à natu...