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Mostrando postagens com o rótulo Nuno Júdice

Astronomia, Nuno Júdice

Vou buscar uma das estrelas que caiu do céu, esta noite. Ficou presa a um ramo de árvore, mas só ela brilha, único fruto luminoso do verão passado. Ponho-a num frasco, para não se oxidar; e vejo-a apagar-se, contra o vidro, à medida que o dia se aproxima, e o mundo desperta da noite. Não se pode guardar uma estrela. O seu lugar é no meio de constelações e nuvens, onde o sonho a protege. Por isso, tirei a estrela do frasco e meti-a no poema, onde voltou a brilhar, no meio de palavras, de versos, de imagens . Nuno Júdice (1949-2024), in "O Breve Sentimento do Eterno" Ilustração de Maoi

Elegia Com Variação Romântica, Nuno Júdice

As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem as camas desfeitas, empilham camisas e calças, abotoam os cintos do infinito, prendem os laços da sombra. Com os seus olhos cegos, enfiam agulhas no buraco da vida, cosem as feridas do amor que não tiveram, cantam devagar a canção da idade fria. Dispo essas mulheres no meu poema; espalho as suas roupas pelas cadeiras do quarto; abro a cama onde as deito; rasgo os pontos que acabaram de coser. O seu sexo - seco pelos ventos de uma inquietação nocturna - humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março enquanto desfloro os seus lábios. Por vezes, as mulheres loucas abrem a porta da varanda, respiram o perfume das trepadeiras brancas da primavera, desmaiam com o sol. Sobre o autor: Nuno Júdice (29/4/1949-13.3/2024) é um ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário português. Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa e obteve o grau de Doutor pela Universidade Nova. Obras do autor: 50 anos de Poesia - antologia A P...