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Aquele Meu Tio, Anderson do Prado Silva

Existem os que são, porque conhecemos. Existem os que não são, porque não conhecemos. E existem os que nem são, nem não são, porque mesmo desconhecendo-os, nós os conhecemos. Nossos parentes são desse terceiro grupo: sabemos deles o bastante para não serem desconhecidos, porém nunca sabemos o bastante para dizer que os conhecemos. Mas aquele, aquele parente, um entre tantos, espécime único, não era nem de um grupo, nem do outro, nem do outro ainda. Ele era, e continua sendo, o mais misterioso e assustador dos parentes, mesmo não sendo nada disso. Ele era de se ver passar. Quando criança, eu o via sair, eu o via chegar, eu o via passar. Do que hoje tenho dele, é um vulto. Como pode não saber? Não sei. A cor de seus olhos. O branco, o amarelo ou o preto de seus dentes. O desenho de seu rosto. Se os cabelos lhe sobravam ou faltavam. Se tinha ou fazia a barba. Conheço-lhe o vulto e a voz. Ele tinha um jeito doce de dizer “Oi” e o vocativo do meu nome. Às vezes perguntava o “Tudo bem?”....