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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Pausa Lenta, poema de Amanda Gaspar

Antes de tocar a pele, acende uma ideia dentro, como se o pensamento sentisse primeiro e só depois o corpo concordasse. O mar segura a luz na linha do horizonte, como quem demora num segredo. E ele surge, solto do abraço das águas, e tudo muda de tom sem fazer alarde. A luz não manda, não empurra, não disputa. Ela vem baixa, molhada, misturada de sal e ouro, e o mundo vai ficando possível. O azul não some: amacia. O vento não corta: afaga. O calor não queima: aquece. E o peito, que às vezes pesa, ganha espaço, como quem abre uma janela por dentro. Não se pede prova. Não se tem pressa. Numa alquimia quieta: pensamento vira calma, calma vira gesto, gesto vira presença. O brilho muda de formato. Uma nova hora. Um novo tempo. O seu momento. Nasce do mar e, por alguns minutos, é como se a vida dissesse, sem falar: aqui. agora. de novo. Não grita, não disputa, não performa. Apenas revela o que sempre esteve ali.

Águas e Mágoas do Rio São Francisco, poema de Carlos Drummond de Andrade

Está secando o velho Chico. Está mirrando, está morrendo. Já não quer saber de lanchas-ônibus, nem de chatas e seus empurradores. Cansou-se de gaiolas e literatura encomiástica e mostra o leito pobre, as pedras, as areias desoladas onde nenhum caboclo-d’água, nenhum minhocão ou cachorrinha-d’água, cativados a nacos de fumo forte, restam para semente de contos fabulosos e assustados. Ei, velho Chico, Já te estranham, meu Chico. Desta vez, encolheste demais. O cemitério de barcos encalhados se desdobra na lama que deixaste. O fio d’água (ou lágrimas?) escorre entre carcaças novas: é brinquedo de curumins, os únicos navios que aceitas transportar com desenfado. Mulheres quebram pedra no pátio ressequido que foi teu leito e esboça teu fantasma. Não escutas, ó Chico, as rezas músicas dos fiéis que em procissão imploram chuva? São amigos que te querem, companheiros que carecem de teu deslizar sem pressa (tão suave que corrias, embora tão artioso que muitas vezes tiravas a terra de um lado e ...

Natal, crônica de Cecília Meireles

Como estamos mudados! Em meio século, perdemos aquela ingenuidade dos votos dirigidos de janela a janela:  Boas Festas!", "Feliz Ano Novo!"; das ceias tradicionais, talvez copiosas, porém modestas; das lembrancinhas oferecidas às crianças como um dom misterioso do céu; dos vestidos novos para os ofícios das igrejas e as visitas aos presépios; alegria das músicas e cânticos, deslumbramento dos olhos diante de uma Belém infantil, com patinhos nos lagos e lavadeiras nos rios... Ah! como éramos sensíveis, imaginativos! Como estávamos prontos a completar, com a nossa memória dos episódios evangélicos, a paisagem arbitrariamente inventada! Como achávamos naturais todas as coisas desencontradas naquele mundo fictício! Talvez prevíssemos que o nosso não o era menos, e igualmente e misteriosamente desencontradas as coisas que nele iríamos presenciar! Esperávamos por esses últimos dias do ano combinando sonhos de novas alegrias alimentadas pelas lembranças dos anos anteriores. A v...

Natal, texto de Rubem Alves

... Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração. Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício. Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às criança...

Canto de Natal, poema de Manuel Bandeira

O nosso menino Nasceu em Belém. Nasceu tão-somente Para querer bem.   Nasceu sobre as palhas O nosso menino. Mas a mãe sabia Que ele era divino.   Vem para sofrer A morte na cruz, O nosso menino. Seu nome é Jesus. Por nós ele aceita O humano destino: Louvemos a glória De Jesus menino.

A Aposta, conto de Anton Tchekov

  Era uma noite escura de outono. O velho banqueiro me­dia a passadas o seu gabinete e recordava como,quinze anos atrás, no outono, dera uma festa. Nessa reunião estivera muita gente inteligente e houvera muitas conversas interessantes. Entre outros assuntos, falara-se da pena de morte. Os convidados, entre os quais havia não poucos sábios e jornalistas, na sua maioria tinham uma atitude negativa para com a pena de morte. Achavam esse método de punição obsoleto, impróprio para os Estados cristãos e imoral. A opinião de alguns deles era que a pena de morte deveria ser definitivamente abolida e substituída pela prisão perpétua. — Não estou de acordo — disse o banqueiro, dono da casa. — Nunca experimentei nem a pena de morte nem a prisão perpétua, mas, se é possível julgar a priori, a minha opinião é que a pena de morte é mais moral e mais humana do que a prisão. A execução mata duma vez, ao passo que a prisão perpétua mata aos poucos. Que carrasco é, pois, mais humano — aquele que ma...

Assim Começa o Livro Que Eu Comecei: Uma Questão de Química, Bonnie Garmus

 Novembro de 1961 Em 1961, quando as mulheres usavam vestidos estilo chemisier cintados, frequentavam clubes de jardinage e, sem nenhuma preocupação, levavam várias crianças de carro para todo lado sem cinto de segurança; quando ninguém sequer sabia que existiria um movimento de contracultura na década de 1960, muito menos um que levaria seus integrantes  a passar os sessenta anos seguintas comentando sobre ele; quando as grandes guerras tinham chegado ao fim e as guerras clandestinas tinham acabado de se iniciar e as pessoas começavam a pensar fora da caixa e a acreditar que tudo era possível, a mãe de Madeline Zott acordava todo dia antes do amanhecer e, aos trinta anos, tinha uma única certeza; sua vida tinha chegado ao fim. Apesar dessa certeza, ela foi até o laboratória para preparar a lancheira da filha. Combustível para aprender , escreveu Elizabeth Zott em um pedaço de papel antes de enfiá-lo na lancheira. Depois fez uma pausa, o lápis parado no ar, como se estivesse p...

Mulheres da Fuvest: Djaimilia P de Almeida. A Visão das Plantas

Resumo do livro ‘ A Visão das Plantas’ A história segue o capitão Celestino, um homem que foi pirata e capitão de um navio negreiro. No início do livro, Celestino retorna à sua cidade natal, abandonando sua vida anterior. Ao chegar em casa, dedica-se intensamente ao cuidado de seu jardim, que, com o tempo, se torna exuberante e belíssimo. O bairro, no entanto, devido a sua reputação, não tardou a espalhar rumores sobre ele, acusando-o de ter feito pactos com o diabo ou até de ser o próprio diabo encarnado. O passado sombrio e o jardim como refúgio Celestino, um homem marcado por um passado de crueldade e violência, cometeu inúmeros crimes brutais, e, ao longo da história, ele é atormentado por espíritos de pessoas que ele torturou e matou. Apesar disso, as plantas de seu jardim demonstram gratidão a ele, sem se importar com suas ações passadas. Assim, a narrativa estabelece um contraste entre suas ações cruéis e o carinho dedicado ao seu jardim, um espaço de afeto e beleza. Metáforas e...

23 Melhores Livros do Século 21, pela Folha de São Paulo

1. Um Defeito de Cor , Ana Maria Gonçalves Ano:2006, Ed. Record, 952 páginas Livro que inspirou o samba enredo da Portela, no carnaval de 2024. A fascinante história de uma africana em busca do filho perdido que se tornou um clássico da literatura contemporânea.  Um defeito de cor , de Ana Maria Gonçalves, é narrado de uma maneira original e pungente que prende a atenção da primeira à última página.  2. Torto Arado, Itamar Vieira Júnior Ano:2019, Ed. Todavia, 264 páginas Um texto épico e lírico, realista e mágico que revela, para além de sua trama, um poderoso elemento de insubordinação social. Nas profundezas do sertão baiano, as irmãs Bibiana e Belonísia encontram uma velha e misteriosa faca na mala guardada sob a cama da avó. Ocorre então um acidente. E para sempre suas vidas estarão ligadas ― a ponto de uma precisar ser a voz da outra 3. O Avesso da Pele,  Jeferson Tenório Ano:2020,Ed. Cia das Letras,192 páginas Um romance sobre identidade e as complex...

Poemas da M.P.B: Foto de Família, Lenine e Maria Bethania

Feito um cheiro que destrava uma lembrança boa Tem coisa assim que não se ensina A foto que tem cheiro de tão nítida Ressoa tudo que a memória descortina E vira inundação por dentro Que só cresce, cresce, cresce Contamina no dilúvio bem-vindo da humanidade O amor é uma espécie de vacina Ouça aqui Poema de João Cavalcanti de Almeida

Mulheres da Fuvest: Conceição Evaristo. Canção Para Ninar Menino Grande ( Portal do Enem)

Resumo do livro: Lançado em 2018, o livro mergulha nas experiências da população negra e aborda questões como racismo, machismo, amor e os desafios enfrentados pelo protagonista, Fio Jasmim, e pelas mulheres que também desempenham papéis centrais na história. A obra nos apresenta a jornada de autodescoberta de Fio Jasmim, marcada por suas relações amorosas e os conflitos pessoais, enquanto ele lida com questões sociais e culturais que refletem a realidade de muitos brasileiros. Ao longo do livro, somos convidados a refletir sobre as dificuldades e os desafios que ainda afetam a vida de grande parte da sociedade brasileira, especialmente dos negros e das mulheres. No livro “Canção para Ninar Menino Grande”, conhecemos Fio Jasmim, um homem negro, bonito e sedutor, mas marcado por traumas do passado. Quando era criança, ele viveu uma experiência dolorosa que o afetou profundamente: na escola, durante a escolha para o papel de príncipe em uma peça de teatro, Fio Jasmim foi rejeitado. Em se...