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O Fanho, Ivan Lessa .



     Agora falando de saudades: saudades mesmo eu tenho de pastel  e fanho. Pastel de queijo aqui não tem, fanho não é a mesma coisa. Fanho bom é aquele bem mal humorado, agressivo. Fanho acha que a humanidade está por fora, que tudo isso é uma safadeza enorme pra cima dele que, afinal de contas, não tem nada com isso e é, no fundo, um bom sujeito. 
     É o que ele diz. Mas diz criando caso.Fanho briga, dá com a mão em cima da mesa e diz: “eu sou um profissional, pomba!” E repete: “Profissional”. 
     Fanho vive dizendo que é profissional: “tenho 20 anos de rádio, boto qualquer programa no ar, manjo tudo, ta?” E diz muito palavrão. Palavrão fica horrendo na boca de fanho. É sempre sobre a gente que tá falando com ele. Nunca sobre a vida ou os outros por aí. É com a gente, nós, os não-fanhos.        
      Agora tem um troço: fanho você pode chamar de fanho que ele não se aborrece. “Que é que há, ô,Fanho, tudo bem?” Ele responde, meio desaforado, mas responde. É que ele é assim mesmo. Fanho conhece todos os truques de todas as  repartições. Documento, atestado, não fica 24 horas preso numa mesa de seção. Ele vai e quebra o galho. É um profissional, pomba!
     Tem um fanho aqui onde eu trabalho. Melhor: uma fanha. Não tem nome de fanha. Chama-se  Audrey. Também não tem cara de Audrey. É servente na Cantina. Muito preocupada, sempre, mas delicada. Chama a gente de  luv, de dear. Não é, evidentemente uma profissional.

(Pasquim, antologia. Vol.1 – 1969 a 1971 - Ed.Desiderata 2006)

Ivan Pinheiro Themudo Lessa
Nasceu em São Paulo a 9 de maio de 1935 e faleceu em Londres a 9 de junho de 2012
Era filho do escritor Orígenes Lessa
Editor e um dos colaboradores do Pasquim, tinha no jornal a coluna GipGip Nheco Nheco; também no Pasquim criou juntamente com Jaguar o ratinho Sig (referência a Sigmund Freud).

Escreveu: 
Os Garotos da Fuzarca (1986,contos)
Ivan Vê o Mundo (1999, crônicas)
O Luar e a Rainha (2005, crônicas)

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