O que Sara não conta é que escreve no ar. Quando está no vagão do trem, chama muito a atenção. A mania de escrever nas costas das pessoas que vão em frente no trem a destaca da multidão sem nome que, no mesmo horário, todo santo dia, sobe no vagão. As pessoas que servem de papel não veem o movimento coordenado das mãos de Sara. As outras pessoas do trem sim. De início Sara é tímida. Levanta o braço direito e tece pequenas letras no ar como uma bailarina em seu primeiro solo. Como uma professora infantil, brinca com as palavras, buscando cada uma cuidadosamente. O contorno dos seus dedos escreve coisas como:Se-u-gran-de-fi-lho-da-mãe. Sara não respeita a gramática. Coloca hífen onde quer e onde não tem, coloca pressão pela vida que leva. Faz longas pausas entre um escrito e outro e respira desenhando delicadas vírgulas. com ambas as mãos, coloca as pas e faz lindos travessões: -Eu,"cuidu",de,Mim. Alterna maiúsculas e minúsculas e erra da maneira correta. Quem vê acha que a moça é um gênio moderno e que só anda de metrô pelas ruas de São Paulo porque ainda é jovem; que vai ficar rica, rica não, riquíssima; e aí olham para ela com admiração e respeito. Com Sara, as letras são desimpedidas: Nois é 10! eu tô puta com o - tiago. Ninguém acha esquisito. Se alguém em frente percebe que virou papel, olha para trás e faz cara feia. Muitos chegam a manter distância do encosto da cadeira. Contudo só os da frente se enfurecem ao não perceberem as infinitas verdades de Sara; para o resto no vagão, aquele pode ser o instante mais feliz do dia, momento em que surge um raio de sol, porque a menina brilha, ela é um combo de abraço e beijo. Aconteceu, uma vez,de uma mulher, não muito mais velha que ela, voltar-se para trás incomodada. Fez Sara mentir ao dizer que procurava os óculos que haviam caído. Durante as desculpas, Sara cativou Letícia e se deixou cativar por ela. As duas ficaram amigas e, dias depois, dirigiram-se para o mesmo lugar, no centro da cidade, Sara levando Letícia. Os braços de Sara são longos e brancos como sal; suas mãos sinuosas e prolixas repetem trechos que ela vê escrito em paredes pichadas. Sara escreve no ar para guardar as palavras. Não quer deixar rastro. Que ninguém a leia, pois só desse jeito ela permanecerá como um desejo, incontrolável e azul. Sem que adivinhem sua alma, Sara segue com o cabelo colorido e as roupas cheirando a perfume até quando não tem alguém lhe dando as costas no trem. E, se não tem costas, ela não escreve, e seu espaço no mundo fica reduzido e ela se abandona, com energia e autoestima desligadas. Ao longo dos anos, a moça desenvolveu uma obsessão: numeriza tudo o que vê.Assim, naquele dia,contou: um, dois, oito seres humanos desprezíveis no vagão comigo. Ela achando: t r e i s, seis carros brancos com motoristas negrox uniformizados. E ainda: "40”mulheres com peitus, bocas e bundas enormis desdi o início da semana. Bolsas de 5, cinco mil reais!!! Eu acho que assim ela intensifica suas dores. Ela acha que assim cura. E continua: Nem 1 amor verdadeiro na calçada do restorante. Mas que merda-de-vida… O resultado mais recente da contabilidade de Sara escreveu num caderninho, sobre papel real, ao deixar o quarto térreo de um prédio frequentado por meninas bonitas como ela e Letícia, e homens nem tanto: hoje não sai de cara um riso, a força eu tenho para isso, dou amor ou desprezo do mesmo jeito, tamanha intensidadezinha minha. Sofreu sem sentir culpa. Meiando os olhos dela havia uma rugas de valente muito afundadas. Feito dunas de areia.
Em:O Segundo Sonho e Outros Contos, Natascha Duarte, Ed.Urutau, 2026, págs. 67-69

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