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Os Amantes de Maio, crônica de Thiago de Mello

Maio acabou. E com ele se foi aquele encantamento que tombava do céu e subia do chão,tornando as mulheres extraordinariamente belas no instante do pôr do sol e fazendo com que o nosso amor florescesse mais radioso e mais puro.

Nesta cidade como olhares, todas as criaturas , durante trinta e um dias, foram roçadas ou feridas por maio,mesmo aquelas que jamais se comoveram ou se perturbam ante a beleza de suas tardes e de suas madrugadas.

    Maio saiu do céu. Sei  que às vezes ele ressuscita, louco, em pleno outubro e há certos fins-de-tarde em dezembro que acordam em nós saudades do mês que ontem findou.

Mas é sempre muito incerto e não se sabe nunca se de fato é maio que renasce ou se é um resto de encanto que ficou guardado no coração dos amantes, para ser gasto em meses futuros, quando os dias forem cinzentos e os caminhos da noite estiverem cerrados.

    Agora que não tem maio, pergunto, o que será de nosso amor, única coisa que vale a pena neste mundo triste e adverso? Precisamos tomar providências, pois - quem ama sabe disso - amor sem maio está ameaçado de murchar subitamente, a qualquer instante. De todas as medidas, a mais indicada e a melhor é inventar maio, inaugurar, cada manhã, um maio fictício e sob o seu sortilégio atravessar o dia. Não é fácil, eu sei, e nem todo mundo possui esse dom maravilhoso.

    Há outra providência, menos difícil e que me está seduzindo, confesso, desde a madrugada de ontem, a primeira de junho. É sair desta cidade grande, onde os encantos são enganosos e fabricados pela mão do homem, onde a vida se torna cada vez mais difícil e quase todos apenas sobrevivem, e onde maio acaba por imposição do calendário. É fugir para os lugares onde se existe sob permanente maio, onde maio não morre nunca. Estes lugares são poucos, reconheço, mas existem.

    Entre outros, lembro e indico aos amantes: uma casa pequena esquecida numa colina da Patagônia; o belo, verde e solitário Morro da Beleza, estação Pedro Carlos, no fim do estado do Rio; o castelo de Ludovico II, na Baviera, cercado pelo bosque espesso e junto das águas azuis da Lagoa Alpsee; nas cercanias do farol de Olinda, no Recife. Antes de ir ao último, previno que já é inútil fugir para as  ilhas do Pacífico: hoje nem o maio do calendário existe mais ali, depois das explosões da bomba atômica. E afinal, porventura o melhor de todos os lugares, onde sempre existiu maio, antes mesmo que os homens inventassem os meses - é “Bom Socorro”, pequeno sítio de meu finado avô, perdido no meio da mata amazonense, onde nasci.

    É para lá que vou, se consigo desprender-me das garras desta cidade. Comigo irá Maria, que é mulher nascida em maio. Levaremos pouca coisa: alguns discos e a vitrola de mão, nosso cachorro, a velha cadeira de balanço e os livros dos poetas queridos. Lá nos esqueceremos do tempo, andaremos de pé no chão, beberemos água de moringa, passearemos de canoa e poderemos fazer até a plantação do lado da casa grande. (Sempre que for maio aqui, voltaremos para rever os amigos). Lá seremos novamente criaturas simples, nossos vícios e vaidades se irão desfazendo, desaprendemos o valor do dinheiro, e nos esqueceremos da arte de negociar. Nossas mãos ficarão vazias de cobiça e, ainda que cheias de calos, inventaram uma ternura maior. E quando chegar a tardezinha ficaremos na rede cansados e felizes, olhando o sol de sempre-maio afogar-se lá em baixo, nas águas escuras do rio.

   Maria, vamos embora.

Em: Um Século Em Cem Crônicas, org. Maria Amélia Mello, págs.96-97

Imagem: Focus

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