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História de Amor, crônica de Orígenes Lessa


     João Pereira da Silva, que também poderia chamar-se Aluísio Lisboa ou João Silveira, via na praia de Copacabana - o luar dava nas águas e se prolongava em praia oscilante sobre as ondas - a jovem Luizinha Arruda, que também se poderia chamar Yvete, Daniela ou Maria disso ou daquilo. O nome de fato, não importa. Não foi pelo nome nem pelo sobrenome que eles reciprocamente ignoravam, que o amor chegou. Foi pelo jeitão alto dele, pelo jeito redondinho dela. E pelos olhos, que nela eram negros e nele azuis. O primeiro olhar bastou. Parou o coração dela. Ele parou também. Não o coração, a marcha. Parou, voltou-se, acompanhou. Quando se viu seguida, Luizinha teve uma festa na alma. Quis fugir de contente. Quis morrer de alegria. Não sabia ao certo. E quando José Pereira da Silva falou - o nome ela saberia depois - Luizinha Arruda - o nome ele conheceria mais tarde - ficou plantada no lugar, muda e feliz, tal a grande emoção que sentia. “Permite-me acompanhá-la, senhorita? “ Nunca ninguém tinha recitado um poema tão lindo aos ouvidos de Luizinha. “Se faz gosto nisso…” Foi a mais linda canção que já ouvira, em toda a vida, José Pereira da Silva. E por duas horas, indo e vindo, ela ouviu poemas e ele ouviu canções. “Calor horrível, não?” “É verdade…” Será que chove amanhã?” “Deus permita…”Afinal. Trocados vários poemas e canções, eles marcaram encontro para o dia seguinte. Ao qual nenhum faltou, depois de uma noite recíproca de insônia e de deslumbramento. Vieram chás, passeios de ônibus, banhos de praia, sessões de cinema, pedido de casamento. José Pereira da Silva só esperava um aumento de ordenado para a consumação do matrimônio. Veio seis meses depois, de cem cruzeiros. Não era o que eles esperavam. Mas o amor paira acima de tudo. E como no cinema e às vezes na vida, os dois pombinhos se casaram e desceu sobre eles a bênção da igreja, amiguinhas desejando felicidades, velhas tias chorando…

     *Post-Scriptum. - Uma nota explicativa faz-se necessária. É possível que um exemplar perdido deste vespertino caia num dia futuro nas mãos de algum descendente do casal Pereira da Silva ou mesmo de algum leitor qualquer de 1945 ou de 1946. E que esta linda história de amor seja relida. Em seus termos gerais, mesmo o homem sintético e superurânico de 2045 ou para o homem atormentado de 1946. Cruzeiro, era a unidade monetária do Brasil em 1945, vindo ocupar o lugar do mil-réis, moeda tradicional do país. Teoricamente, era a mesma coisa. Na prática, não. Com um cruzeiro ou mil réis comprava-se, em 1935, um quilo de feijão e ainda davam 30 por cento de troco. Em 1945 era preciso 4 ou 5. Com um comprava-se meia dúzia de ovos em 1935. Em 1945, um ou um e dois quintos de um ovo. Com dez comprava-se em 35 uma lata de azeite português. Eram precisos cem em 1944 ou 45. Com sete comprava-se antes um frango e um quilo de manteiga. Eram precisos vinte, dez anos depois. Com um, comprava-se dois pés de alface em 35. Para comprar um em 45, eram precisos quatro cruzeiros e meio. Uma família de sete pessoas vivia no Rio com 1.828 cruzeiros ou mil-réis em 1935, embora pouquíssimas os tivessem. Em 1944, embora teoricamente, seriam precisos 4.080. Mas o que não acreditarás, leitor de 2945, nem tu mesmo, leitor infeliz de 1946, é que com a então chamada moeda de um cruzeiro, antes de junho de 1945, ainda se comprava um limão, ainda se compravam quatro bananas amassadas ainda se comprava um ovo às vezes bom, ainda se adquiria a ducentésima parte de um par de sapatos ou a milésima parte de um terno de casimira nacional. Ou melhor: tu, leitor distante de 2945, talvez o acredites. Só tu, leitor de 1946, só tu não acreditarás, apesar de teres vivido neste ano da graça de 1945. Pensarás, na tua atribulação, que foi cem anos antes. Ou mil.

Em: Um Século em Cem Crônicas. Org. Maria Amélia Mello. Págs.78-80

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