Pular para o conteúdo principal

Conversa de Calçada, crônica de Ana Pottes

Cheguei há pouco de um passeio pela Encruzilhada do jeito que fazia há tempos. Sem
hora nem pressa de buscar comida nas mercearias, barracas, mercado ou supermercados. Olhei a reforma daquele prédio de esquina com a Av. Norte. De tanto descuido, pedia socorro. No térreo, lojas — duas delas guardam muitas décadas. Os andares superiores foram bonitas residências. Parei. Pensei no tanto de vida que já foi vivida entre aquelas paredes. Agora pintadas, recuperadas, prontas a abrigar outros sonhos.

Enquanto olhava e me deixava levar pelo fio das ideias, fui acordada pelo bom dia de um senhor que saía. Falei da minha satisfação em ver o prédio recuperado. Sorrindo, disse que outros proprietários, animados com o resultado, vão iniciar trabalhos de benfeitoria nos seus edifícios. Gostei do que ouvi.

Conversamos um pouco sobre o abandono dos prédios e do esvaziamento de um comércio que já foi palpitante: movelarias, a Lobrás, lojas de variedades, uma padaria que fazia bolos e pães saborosos e, no período junino, nos brindava com um delicioso pé-de-moleque. Um mercado imenso, transformado em Balaio e que agora é igreja, e uma sorveteria a fazer a festa dos adolescentes, crianças e casais enamorados.
Alguns estabelecimentos resistiram ao tempo, como a Lavanderia e Tinturaria Brasileira, fundada em 1938, e o restaurante Tepan, que acolheu muitas farras de universitários nos anos 80.

Impossível deixar de recordar tempos áureos das ruas do Recife: Nova, Imperatriz, Duque de Caxias. Ou do bairro da minha infância e adolescência, com os cinemas Albatroz e Rivoli, sempre um convite para as matinês dominicais. Das lojas Pernambucanas e Casas José Araújo com seus comerciais envolventes. Quem não lembra de Dalvanira? Da Senhora da Conceição? Só quem é do tempo da Xuxa, creio.

Retorno das minhas lembranças e aporto no bairro de hoje que carrega, na história passada, o posto de um comércio de peso. Ali, próximo à parada dos ônibus, fincada bem na praça, diante de um mercado nascido em 1924 e recentemente ressuscitado após um doloroso incêndio, ainda se avista a Banca do Poeta. E pensar que ali pertinho havia um monumento ao Jahú, desmontado e destruído para dar passagem aos automóveis. Ainda bem que o Museu da Cidade do Recife guardou um pouco dessa lembrança.

Meu companheiro de conversa já segue para o Mercado e me despeço com um suspiro. Sigo meu caminho. A gente merece um espaço cuidado para viver. Sim.

Comentários