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O Carro Já Estava... , crônica de José Lins do Rego


     O carro já estava bastante lotado quando apareceu um passageiro que se espremeu na lata de sardinhas.
Mas todos estavam felizes porque, àquela hora, fora uma providência aparecer um lotação para o Jockey.
     E quando saimos da avenida, a conversa já estava pegada e a intimidade estabelecida.
     - A bomba at6omica fracassou - dizia o homem da frente , quase sem poder mexer o pescoço.
     - Fracassou nada - respondeu o outro lá do fundo do carro, com uma voz que vinha de longe.
     - É truque americano - informava o companheiro ao meu lado. - americano não quer negócio de dividir segredo. E por isso fez toda aquela viagem.
     - É, mas russo não vai no jogo. Russo é bicho manhoso.
     - Que nada. Manha é do inglês.
     - Americano diz o que sente. Eu não acredito que a história da bomba seja manobra.
     - Eu não sei, mas acreditar em gringo, eu não acredito. O mundo de hoje está cheio de chaves.
     - Você não acredita em conversa de jornal. Garanto que nem houve essa história de bomba atômica.
     - Qual nada. As experiências foram controladas. Eu lí em Seleções a história da bomba atômica, e acredito nela.
     - Pois eu não acredito. O americano botou o russo para correr com a guerra de nervos.
     - É aí que está o seu engano. O russo já sabe de tudo.
     - E o senhor, o que pensa de tudo isso? - me perguntou o companheiro da esquerda.
     Fiz um tremendo esforco para virar o rosto e entrar na conversa.
     E disse que não acreditava em truque, não acreditava nas mentiras da imprensa. E mais ainda, que achava que todas as bombas atômicas seriam, afinal de contas, dominadas pelo espírito de uma humanidade entregue às suas faculdades criadoras.
     O autolotação silenciou com minha descarga de otimismo.
     O homem da frente, já sem se voltar para trás, não se conteve e disse mais lato:
     - O senhor também acredita que o Pão de Açúcar pode trocar de lugar com o Corcovado?
     Foi uma gargalhada só.
     É que não há mais ninguém, neste mundo de Deus, que acredite em sentimentos humanos, em grandeza da alma, em boas intenções.

Em: Um Século em Cem Crônicas, org. Maria Amélia Mello. Págs.64-65

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