terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Grupo LivroErrante Escolhe:Melhores Leituras de 2019

Blog encerra as atividades deste ano indicando as melhores leituras de 2019, pelo grupo de leitura  LivroErrante. 


Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
O Amante Japonês, Isabel Allende
Carne e Sangue, Mary Del Priore
A Coragem de Ser Imperfeito, Brené Brown
Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie
Homens Imprudentemente Poéticos,Valter Hugo Mãe
Kafka à Beira Mar, Haruki Murakami
O Miniaturista, Jessie Burton
Passado Imperfeito, Jullian Fellowes
Precisamos Falar Sobre Kevin, Lionel Shriver
O Quarto Azul, Georges Simenon
Ravensbruck,A história do campo de
concentração nazista para mulheres, Sarah Helm
Regras de Cortesia, Amor Towles
Submissão, Michel Houellecq

                        E você? 
          Qual sua melhor leitura em 2019? 
            Conta que eu coloco na lista.



domingo, 29 de dezembro de 2019

Plantamos em 2019 para Colher em 2020

O grupo de leitura (Orkut 2008) LivroErrante  em parceria com Elenir, da Biblioteca Pública Municipal Wilson Marques,  vai começar a deixar livros em lugares públicos na simpática cidade de Tomé-açu no estado do Pará..  
Começando do começo:  estamos enviando pelos correios, todos os livros que encerraram ciclo de leitura.  Ao contrário de devolvê-los ao dono, os exemplares seguem para Tomé-açu.  

A Biblioteca Pública Municipal Wilson Marques abriu uma estante: Livro Errante.  Lá tem livros de autores, gêneros e  nacionalidades diversas.  Quem levar , não precisa devolver. Basta deixar em algum lugar público para que o livro seja lido novamente.   

Por enquanto a estante LivroErrante está assim:

 Biblioteca Pública Municipal Wilson Marques

Vista aérea da cidade de Tomé Açu - PA


Postagens Mais Acessadas em 2019

           Gosto de fazer a retrospectiva, porque revejo postagens e comentários. Este ano, o texto de uma amiga está entre as cinco mais lidas. Fiquei feliz por ela.   
Clique no título e releia. 
Vale a pena.

Um Cinturão, Graciliano Ramos.  7 de maio


Os Tigres de Tozamurai-No-Ma, Manuel António Pina - 26 de abril

Aprenda a Chamar a Polícia, Luis Fernando Veríssimo - 31 de maio

Corporiedade Feminina, Janete Barros - 12 de março

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Olá! Vamos Conversar Sobre 2020? Suzana Valença

     

     Eu separo um tempo entre natal e réveillon para descansar, pensar nas minhas metas e organizar minha agenda / caderno do ano seguinte. Gosto de pensar nos objetivos, anotar tudo no papel e acompanhar o progresso das ideias ao longo dos meses. Com o tempo, percebi que tenho conseguido cumprir 70% do que invento para mim, sempre fica algo ainda por fazer.

Depois de alguns anos, fui aperfeiçoando (eu acho) o processo. Aprendi que as metas tinham que ser muito minhas. Muito mesmo. Elas tinham que brotar do meu coração e ter o mínimo de influência de fora possível. Já perceberam que, às vezes, achamos que queremos algo mas, na verdade, estamos apenas reagindo às pressões do mundo? Tenho que casar! Tenho que fazer mestrado! Tenho que ganhar mais dinheiro. Será que tem mesmo? Escrevi no Medium sobre como não fazer essas metas equivocadas.

Metas x hábitos

Este ano, também li muito sobre como a vida não pode ser apenas uma lista de tarefas a cumprir. Se focarmos demais nas metas, perdemos de vista o que acontece ao nosso redor e dentro de nós. Se olharmos apenas para os resultados, não vamos curtir o processo. Também não vamos notar quando algumas metas deixarem de fazer sentido. Nós mudamos com o tempo, não é mesmo?

Aprendi que temos que pensar também em hábitos. Ações diárias para tornar nossas vidas melhores e nos levar, eventualmente, a conquistar algo lá na frente. Esse processo é mais importante do que a conquista, porque esse processo é a nossa vida. Adoro a frase “como vivemos o nosso dia é, claro, como vivemos a nossa vida”, da escritora Annie Dillard. Se você acompanha meu blog e esta news, já deve ter percebido que eu já citei ela antes. Pensando assim, em vez de se propor a “perder x quilos”, pode ser melhor dizer “vou fazer exercícios três vezes por semana".

Com isso em mente, comecei a determinar uma série de ações que eu gostaria de fazer todo dia, toda semana, todo mês. Fiz uma lista básica diária de hábitos minimamente saudáveis e consegui cumprir. Depois, a atualizei e o desafio ficou mais difícil. A tarefa de fazer atividade física ficou plenamente negligenciada. A meditação, por outro lado, já entrou na rotina. Aos poucos, vou me tornando a pessoa que cuida de si que eu quero ser. Em 2019, eu descobri o incrível poder das pequenas mudanças incrementais.

Grandes sonhos e pequenas mudanças

Este ano, também aprendi uma boa maneira equilibrar os grandes sonhos de vida com esses passos miúdos do dia a dia. O segredo está em conectá-los. No livro Vida Organizada, Thais Godinho propõe o seguinte exercício. Pense o que você faria se ganhasse na mega sena e todos as suas vontades se tornassem imediatamente possíveis. Imaginou? Pronto. Agora pegue essas ideias que devem ser bem loucas (por favor, né?) e tente avaliar o que seria possível adaptar para a vida real. Depois, pense o que pode ser feito, realisticamente, diariamente, todo mês, todo ano. Se o sonho milionário for comprar uma casa na praia, na vida real é possível comprar uma passagem para férias em algum lugar legal? É possível fazer reparos na casa em que você mora para ela ficar melhor? E assim por diante.

No ano passado, um exercício da aula de meditação me obrigou a pensar no meu propósito de vida. “Propósito” está virando uma daquelas palavras que, de tão usadas incorretamente, acabam perdendo o significado, né? Mas vamos em frente. A tarefa era pensar quem você quer ser, qual são as suas verdades, seus valores. E depois organizar tudo isso em uma frase só! Achei muito difícil e, depois, facílimo. Talvez todos nós queiramos o mesmo. Queremos ser livres, saudáveis, queremos ter gente amada ao nosso redor, queremos nos realizar intelectualmente, queremos ajudar quem precisa, queremos ser úteis. Como isso se traduz na sua vida, é sua missão encontrar. E continuar encontrando eternamente, porque os caminhos mudam.

Quem você é

Dia desses li no Instagram: “se você fosse apresentado a você, você gostaria de você?”. Não é uma pergunta ótima? Encontrar esse propósito, ou essa verdade, é um jeito de ser o melhor você possível. É uma forma de ser o mais você possível. Essa é a minha saga e eu acho que encontrei um jeito de fazer isso acontecer (por enquanto). No ano passado, eu traduzi essas ideias em metas grandes, médias e pequenas, e também em hábitos diários. Como eu disse, consegui cumpri-los parcialmente. Para 2020, vou ajustar a estratégia e tentar novamente.

Eu gostaria de estimular você a fazer o mesmo. Não a seguir as minhas ideias, claro. Mas a seguir as suas. Qual é a sua verdade? No que você acredita? Quem é você, do fundo do seu coração, com seus erros, suas dúvidas, suas angústias, mas também os seus sonhos, as suas doideiras, as suas histórias, as suas esquisitices, as suas vontades? “O que você andou amando ultimamente?”, disse Nietzsche.

Como você vai ser você em 2020?

Leia mais  no blog Suzana Valença
Leia Suzana Valença no Medium


quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Nascida em 24 de dezembro: Ruth Rocha

Mulheres de Coragem

  Foi na Alemanha que esta história aconteceu.
     Há muitos e muitos anos.
     A guerra já durava havia muito tempo.
  As tropas do imperador Conrado III cercavam o castelo do REi Welfo VI.
  Antes que o cerco começasse, quando percevberam que as tropas inimigas se aproximavam, os habitantes do castelo já tinham fugido nas suas carroças, nos seus carros de boi ou mesmo a pé, carregando o que podiam.
     As crianças tinham sido mandadas para longe, para a asa de parentes.
     Ficaram apenas os soldados e os cavaleiros, para a defesa do caselo; e as suas mulheres, que não quiseram abandoná-los.
     O cerco já durava dois longos anos.
     Nos primeiros tempos, os defensores do castelo estavam otimistas, achavam que havia possibilidade de vencer o inimigo, pela luta ou pelo cansaço.
     Mas com  passar do tempo a comida foi acabando, a água foi se tornando cada vez mais difícil, as doenças começavam a se espalhar.
     Os feridos se arrastavam pelos aposentos desertos do castelo, sem tratamento, sem esperança.
      A invasão do castelo estava próxima. E todos sabiam que quando isso acontecesse ninguém se salvaria.
     Havia desânimo e tristeza.
     Um dia o imperador mandou ao rei um cavaleiro, levando uma mensagem.
      Impressionado com a lealdade das mulheres, que haviam permanecido com seus maridos, Conrado oferecia a elas a salcação: poderiam sair do caselo, atravessar o acampamento de suas t
tropas, que não seriam maltratadas.
     E poderiam, ainda, carregar consigo o que tivessem de mais precioso.
     Nessa noite, enquanto os homens se preparavam para a batalha, as mulheres discutiam a fuga.
     Não sabemos o que se passou nessa noite. O que sabemos é que de manhã, muito cedo, quando os primeiros raios de sol iluminaram os portões, um grupo de mulheres saiu, trazendo uma grande bandeira branca. 
     Dirigiu-se ao acampamento do inimigo.
     Ao encontrar a primeira sentinela, uma das mulheres adiantou-se e pediu para alar com o imperador. Conrado recebeu-as, cada vez mais impressionado com sua valentia.
     As mulheres tinham vindo perguntar ao imperador se podiam, realmente, contar com sua palavra. Se podiam, de verdade, sair do casftelo, carregando o que tinham de mais precioso.
     Ofendido, ele reafirmou sua palavra:
     - Palavra de rei não volta atrás! - ele deve ter dito.
     As mulheres então voltaram ao castelo, para executar o seu plano.
     Daí a pouco começaram a sair, envoltas em suas  pesadas capas de viagem, caminhando com dificuldade. Pois nos ombros traziam o que tinham de mais precioso.
     Ante o olhar atônito dos homens de Conrado, as mulheres passavam, com seus maridos nos ombros.
    Os soldados se voltaram para o chefe, aguardando suas ordens.
     Mas Conrado, impassível, mantinha sua palavra, deixando que toda a tropa inimiga passase por entre suas próprias tropas, protegida pela coragem de suas mulheres.
     Contam que o castelo não foi nem invadido.
     Ali mesmo, no campo de batalha, Welfo e Conrado se encontraram e a paz foi feita.
     E puderam todos voltar para suas casas e esquecer, por algum tempo, que existia guerra.

Rocha, Ruth - Mulheres de Coragem, FTD, São Paulo 2006
Ilustação: Lúcia Hiratsuka.


Recomendo ao eleitor de Bolsonaro e ao eleitor de Lula (ou do PT) a leitura atenta desta postagem a respeito do livro Dois Idiotas Sentados Cada Qual Em Seu Barril, Ruth Rocha.

Felicidade, sim. Antonio Prata

     
     Vivi por trinta e quatro anos sob o jugo de chuveiro elétrico. Ah, lastimável invento! Já gastei mais de uma crônica amaldiçoando seus fabricantes; homens maus, que ganham a vida propagando a falácia de temperatura com pressão, quando bem sabemos que, na gelida realidade dos azulejos, ou a água sai abundante e fria ou é um fiozinho minguado e escaldante sob o qual nos envolhemos, o cucuruto  no Saara e os pés na Patagônia, sonhando com o dia em que, libertos das inúteis correntes ( de elétrons), alcançaremos a terra prometida do aquecimento central.
     Reclamo de barriga cheia? Sem dúvida. Há problemas bem mais sérios neste mundo, mas sejamos honestos: a morte do vizinho não anula minha dor de dente - e um banho ruim é dez vezes mais triste que uma dor de dente.  Afinal, um molar, quando para de doer, não é capaz por si só de nos dar alegria. Já o banho, quando é bom... Que contentamento uterino é ter a pele envolvida por água abundante, sentir o jorro de 45 graus, no auge do inverno; orgasmo da epiderme.
     Dizem os psicanalistas que, quando pequenos, temos prazer em cada centímetro do corpo. Com o passar do tempo, contudo, tambéma pele vai sendo adestrada e a libido acaba restrita às red light zones de nossas íntimas moradas. Eis  a nossa sina, buscar em vão o Éden perdido: na mulher amada, nas religiões, nas drogas, ou - por não? - numa ducha quente.
     Durante a infância, ouvia minha mãe reclamar do banho e lamentar, frustrada, que não valia a pena fazer reforma numa casa alugada.  Aos vinte, fui morar sozinho e me vi repetindo o mesmo discurso; vicissitudes do inquilinato. No mês passado, contudo, depois de ter casado, juntados os trapos e os FGTS,conseguimos um financiamento e atingi, ao mesmo tempo, o sonho da casa própria e do aquecimento central.
     Com um boiler pra chamar de meu, pensei, meus problemas haviam acabado. Toda melancolia escorreria pelo ralo. Cheguei a imaginar que a metafísica não fosse, como disse o asno de Sancho Pança, uma decorrência do estômago vazio, mas do incômodo térmico: não seriam os p[es frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades - mais morninhas? Houvesse aquecimento central na idade de pedra, teríamos necessitado dos deuses? Tivesse Descartes um bom chuveiro, talvez não desconfiasse  tanto dos sentidos, a ponto de dizer que só pelo pensamento podia afirmar sua existência.
     Pois bem, mudei: por vinte e nove dias e vinte nove noites fui feliz como um bebê no líquido amniótico. Se, no meio da tarde ou da noite, o tédio ou a tristeza me visitavam, lembrava do último banho, imaginava o próximo e sorria,satisfeito. Até que, na trigésima manhã, esta manhã de terça, da qual jamais me esquecerei, me peguei sob a ducha quente pensando numa conta atrasada e resmungando sobre a fila do banco. O banho virara apenas mais um acontecimento banal, feito escovar os dentes ou cortas as unhas, entendi, alheio à pressão e à temperatura, que nenhuma felicidade sobrevive à repetição. Trinta e quatro anos desejando; vinte e nove dias pra perder a graça. Injusta é a matemática da vida.


Trinta e Poucos, Antonio Prata, Cia da Letras - São Paulo 2016, págs.36-37

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Festa, Graciliano Ramos

     A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo. A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao seu natural. Baleia juntou-se ao grupo.
Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. Sinhá Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou-se da humilhação imposta pelo soldado amarelo quando estivera pela última vez na cidade.
A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e as barracas de jogos. Como Sinhá Vitória negou-lhe uma aposta no bozó, Fabiano afastou-se da família e foi beber pinga. Embriagando-se, foi ficando valente. Imaginava, com raiva, por onde andava o soldado amarelo. Queria esganá-lo. No meio da multidão, gritava, provocava um inimigo imaginário. Queria bater em alguém, poderia matar se fosse o caso. Vez ou outra, interrompia suas imprecações para uma confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deitou no chão, fez das suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente.
Sinhá Vitória, aflita, tinha que olhar os meninos, não podia deixar o marido naquele estado. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele momento, discretamente esgueirou-se para uma esquina e ali mesmo urinou. Em seguida, para completar o momento de satisfação, pitou num cachimbo de barro pensando numa cama igual à de seu Tomás da bolandeira.
Os meninos também estavam aflitos. Baleia sumira na confusão de pessoas, e o medo de que ela se perdesse e não mais voltasse era grande. Para alívio dos pequenos, a cachorrinha surge de repente e acaba com a tensão. Restava, agora, aos pequenos, o maravilhamento com tudo de novo que viam. O menor perguntou ao mais velho se tudo aquilo tinha sido feito por gente. A dúvida do maior era se todas aquelas coisas teriam nome. Como os homens poderiam guardar tantas palavras para nomear as coisas?
Distante de tudo, Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos.

Fonte: Mundo Vestibular
Imagem: Cenas Ambientais - cena do filme Vidas Secas

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Nascido em 19 de dezembro: Manoel de Barros

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.


Aqui tem mais Manoel de Barros

Fonte: Revista Bula
O Fazedor de Amanhecer



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Nascido em 17 de dezembro: Érico Veríssimo

      As Mãos de Meu Filho 

     Todos aqueles homens e mulheres ali na platéia sombria parecem apagados habitantes dum submundo, criaturas sem voz nem movimento, prisioneiros de algum perverso sortilégio. Centenas de olhos estão fitos na zona luminosa do palco. A luz circular do refletor envolve o pianista e o piano, que neste instante formam um só corpo, um monstro todo feito de nervos sonoros. Beethoven.
     Há momentos em que o som do instrumento ganha uma qualidade profundamente humana. O artista está pálido à luz de cálcio. Parece um cadáver. Mas mesmo assim é uma fonte de vida, de melodias, de sugestões — a origem dum mundo misterioso e rico. Fora do círculo luminoso pesa um silêncio grave e parado.
     Beethoven lamenta-se. É feio, surdo, e vive em conflito com os homens. A música parece escrever no ar estas palavras em doloroso desenho. Tua carta me lançou das mais altas regiões da felicidade ao mais profundo abismo da desolação e da dor. Não serei, pois, para ti e para os demais, senão um músico? Será então preciso que busque em mim mesmo o necessário ponto de apoio, porque fora de mim não encontro em quem me amparar. A amizade e os outros sentimentos dessa espécie não serviram senão para deixar malferido o meu coração. Pois que assim seja, então! Para ti, pobre Beethoven, não há felicidade no exterior; tudo terás que buscar dentro de ti mesmo. Tão-somente no mundo ideal é que poderás achar a alegria.
     Adágio. O pianista sofre com Beethoven, o piano estremece, a luz mesma que os envolve parece participar daquela mágoa profunda.
     Num dado momento as mãos do artista se imobilizam. Depois caem como duas asas cansadas. Mas de súbito, ágeis e fúteis, começam a brincar no teclado. Um scherzo. A vida é alegre. Vamos sair para o campo, dar a mão às raparigas em flor e dançar com elas ao sol… A melodia, no entanto, é uma superfície leve, que não consegue esconder o desespero que tumultua nas profundezas. Não obstante, o claro jogo continua. A música saltitante se esforça por ser despreocupada e ter alma leve. É uma dança pueril em cima duma sepultura. Mas de repente, as águas represadas rompem todas as barreiras, levam por diante a cortina vaporosa e ilusória, e num estrondo se espraiam numa melodia agitada de desespero. O pianista se transfigura. As suas mãos galopam agitadamente sobre o teclado como brancos cavalos selvagens. Os sons sobem no ar, enchem o teatro, e para cada uma daquelas pessoas do submundo eles têm uma significação especial, contam uma história diferente.
     Quando o artista arranca o último acorde, as luzes se acendem. Por alguns rápidos segundos há como que um hiato, e dir-se-ia que os corações param de bater. Silêncio. Os sub-homens sobem à tona da vida. Desapareceu o mundo mágico e circular formado pela luz do refletor. O pianista está agora voltado para a platéia, sorrindo lividamente, como um ressuscitado. O fantasma de Beethoven foi exorcizado. Rompem os aplausos.
     Dentro de alguns momentos torna a apagar-se a luz. Brota de novo o círculo mágico.
     Suggestion Diabolique.
     D. Margarida tira os sapatos que lhe apertam os pés, machucando os calos.
     Não faz mal. Estou no camarote. Ninguém vê.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Nascido em 16 de dezembro: Olavo Bilac

Nel mezzo del camin…



"Nel mezzo del camin…

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…
E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Fonte: Toda Matéria 
Caricatura: Alian

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Nascida em 13 de dezembro: Adélia Prado

     
Sem Enfeite Nenhum    
     A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?
     Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor.
     Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom’, danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai.
     Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era isto: meu Jesus, misericórdia… A senhora tá triste, mãe? eu falava. Não, tou só pedindo a Deus pra ter dó de nós.
     Tinha muito medo da morte repentina e pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras, emendadas. De defunto não tinha medo, só de gente viva, conforme dizia. Agora, da perdição eterna, tinha horror, pra ela e pros outros.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Nascida em 10 de dezembro: Clarice Lispector.

   
Feliz Aniversário    

   A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posição de ultrajada. “Vim para não deixar de vir”, dissera ela a Zilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e o menino, amarelos e de cabelo penteado, não sabiam bem que atitude tomar e ficaram de pé ao lado da mãe, impressionados com seu vestido azul-marinho e com os paetês.
     Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a babá. O marido viria depois. E como Zilda — a única mulher entre os seis irmãos homens e a única que, estava decidido já havia anos, tinha espaço e tempo para alojar a aniversariante — e como Zilda estava na cozinha a ultimar com a empregada os croquetes e sanduíches, ficaram: a nora de Olaria empertigada com seus filhos de coração inquieto ao lado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com o bebê para não encarar a concunhada de Olaria; a babá ociosa e uniformizada, com a boca aberta.
     E à cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta e nove anos.
Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros “Feliz Aniversário!”  No centro havia disposto o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara a mesa logo depois do almoço, encostara as cadeiras à parede, mandara os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.
     E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado — sentara-a à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa.
     De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um ou outro balão estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando aquela angústia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o vôo da mosca em torno do bolo.
Até que às quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a de Ipanema.
Quando a nora de Ipanema pensou que não suportaria nem um segundo mais a situação de estar sentada defronte da concunhada de Olaria — que cheia das ofensas passadas não via um motivo para desfitar desafiadora a nora de Ipanema — entraram enfim José e a família. E mal eles se beijavam, a sala começou a ficar cheia de gente que ruidosa se cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em afobação de atraso, subir os três lances de escada, falando, arrastando crianças surpreendidas, enchendo a sala — e inaugurando a festa.
     Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta á cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca.
       — Oitenta e nove anos, sim senhor! disse José, filho mais velho agora que Jonga tinha morrido. — Oitenta e nove anos, sim senhora! disse esfregando as mãos em admiração pública e como sinal imperceptível para todos.
Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais oficial. Alguns abanaram a cabeça em admiração como a um recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.
     — Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era sócio de José. É um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua esposa.
     A velha não se manifestava.
   Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos — nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica.
     — Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.
     A velha não se manifestava.
    Então, como se todos tivessem tido a prova final de que não adiantava se esforçarem, com um levantar de ombros de quem estivesse junto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros sanduíches de presunto mais como prova de animação que por apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi servido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente dos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante, que não podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cordélia? Cordélia, a nora mais moça, sentada, sorrindo.
       — Não senhor! respondeu José com falsa severidade, hoje não se fala em negócios!
    — Está certo, está certo! recuou Manoel depressa, olhando rapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.
       — Nada de negócios, gritou José, hoje é o dia da mãe!
      Na cabeceira da mesa já suja, os copos maculados, só o bolo inteiro — ela era a mãe.         A aniversariante piscou os olhos.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Nascido em 9 de dezembro: Aníbal Machado


    
     A Morte da Porta-Estandarte

     Que adianta ao negro ficar olhando para as bandas do Mangue ou para os lados da Central?
      Madureira é longe e a amada só pela madrugada entrará na praça, à frente do seu cordão
.

     Se o negro soubesse que luz sinistra estão destilando seus olhos e deixando escapar como as primeiras fumaças pelas frestas de uma casa onde o incêndio apenas começou!…
     Todos percebem que ele está desassossegado, que uma paixão o está queimando por dentro. Mas só pelo olhar se pode ler na alma dele, porque, em tudo mais, o preto se conserva misterioso, fechado em sua própria pele, como uma caixa de ébano.
     Por que não se incorporou ao seu bloco? E por que não está dançando? Há pouco não passou uma morena que o puxou pelo braço, convidando-o? Era a rapariga do momento, devia tê-la seguido… Ah, negro, não deixes a alegria morrer… É a imagem da outra que não tira do pensamento, que não lhe deixa ver mais nada. Afinal, a outra não lhe pertence ainda, pertence ao seu cordão; não devia proibi-la de sair. Pois ela já não lhe dera todas as provas? Que tenha um pouco de paciência: aquele corpo já lhe foi prometido, será dele mais tarde…
     Andar na praça assim, todos desconfiam… Quanto mais agora, que estão tocando o seu samba… Está sombrio, inquieto, sem ouvir a sua música, na obsessão de que a amada pode ser de outrem, se abraçar com outro… O negro não tem razão. Os navais não são mais fortes que ele, nem os estivadores… Nem há nenhum tão alinhado. E Rosinha gosta é dele, se reserva para ele. Será medo do vestido com que ela deve sair hoje, aquele vestido em que fica maravilhosa, “rainha da cabeça aos pés”? Sua agonia vem da certeza de que é impossível que alguém possa olhar para Rosinha sem se apaixonar. E nem de longe admite que ela queira repartir o amor.
     O negro fica triste.
   E está até amedrontado com as ameaças da noite, com essa Praça Onze que cresce numa preamar louca. 
     A Praça transbordava. Dos afluentes que vinham enchê-las, eram os do Norte da cidade e os que vinham dos morros que traziam maior caudal de gente. O céu baixo absorvia as vozes dos cantos e o som em fusão de centenas de pandeiros, de cuícas gemendo e de tamborins metralhando. O negro, indiferente à alegria dos outros, estava com o coração batendo, à espera. Só depois que Rosinha chegasse, começaria o Carnaval. O grito dos clarins lhe produz um estremecimento nos músculos e um estado de nostalgia vaga, de heroísmo sem aplicação. Ó Praça Onze, ardente e tenebrosa, haverá ponto no Brasil em que, por esta noite sem fim, haja mais vida explodindo, mais movimento e tumulto humano, do que nesse aquário reboante e multicor em que as casas, as pontes, as árvores, os postes parecem tremer e dançar em conivência com as criaturas, e a convite de um Deus obscuro que convocou a todos pela voz desse clarim de fim do mundo?…
     A Praça inteira está cantando, tremendo. O corpo de Rosinha não tardaria a boiar sobre ela como uma pétala. O povo dá passagem aos blocos que abrem esteiras na multidão, entre apertos e gritos.
     – Isso não é assim à beça, Jerônimo! Cuidado com essa aíí! É virgem… 
     Rompem novos cantos. Os “Destemidos de Quintino”, os “Endiabrados de Ramos” estão desfilando. Há correria do povo para ver. Os companheiros se separam, as filhas perdem-se das mães, as crianças se extraviam. Acima das vagas humanas os estandartes palpitam como velas. E é pela ondulação dessas flâmulas que os que não podem se aproximar deduzem os movimentos das portas-estandartes.
     Não se vê o corpo delas, vê-se-lhes o ritmo dos passos no pano alto. Mas era como se fossem vistas de corpo inteiro, tão fiel a imagem delas na agitação das bandeiras. 
     – Oh, aquela lá, que colosso!… É pena não poder vê-la; mas é mulata, te garanto…
     – Ih, como deve estar dançando aquela do outro lado!… Dezoito anos com certeza… Coxas firmes… Meio maluca… 
     – A que está empunhando o estandarte que vem vindo aí é que deve ser do outro mundo. Preta com certeza… Veja só como a bandeira se agita, como a bandeira samba com ela…
     – Pelo frenesi, a gente conhece logo. 
  Dezenas de estandartes pareciam falar, transmitiam mensagens ardentes, sacudiam-se, giravam, paravam, desfalecendo, reclinavam-se para beijar, fugiam… 
     – Imagino como estão tremelicando os seios daquela, lá longe; aquela diaba deve estar suando… Eta gostosura de raça! 
     – Cala a boca, Jerônimo… Você acaba apanhando…
   Os cordões se entrecruzam, baralham-se os cantos. Vem crescendo agora um baticum medonho de tambores. Um bloco formidável se anuncia. O negro amoroso interpreta os sinais semafóricos do estandarte que está entrando pelo lado da Praça da República. O negro fura a massa, coloca a sua figura enorme em situação de poder ficar bem perto. Apura o ouvido para saber se é o canto do seu cordão. A barulheira é grande. Algumas notas são do hino… Sente um arrepio. Ela virá com aquele vestido? Se entristece mais, à medida que a mulata se vem aproximando numa onda de glória, entre alas do povo.
     Se quiser agora sair daquele lugar, já não poderá mais, se sente pregado ali. O gemido cavernoso de uma cuíca próxima ressoa-lhe fundo no coração. – Cuíca de mau agouro, vai roncar no inferno… Será ela, meu Deus!…
     O negro está tremendo. Mas não pode ser ela. Rosinha, quando aparece, ninguém resiste, é um alvoroço, uma admiração gera… Não vê que é assim… Até o ar fica diferente. E o estandarte que vem vindo é de veludo azul, tem a imagem de São Miguel entre estrelas e as insígnias do cordão. Ainda não é bloco de Madureira.
     O preto se enganou. Sente-se desoprimido. Foi melhor assim. Pensa em ir embora, desistir de tudo. No dia seguinte, na oficina do Engenho de Dentro, se sentirá leve ouvindo o batido das bigornas e o farfalhar das polias. Se os companheiros perguntarem por que não apareceu, dirá que esteve doente, que foi ao enterro de algum parente, de uma tia, por exemplo. Está mesmo disposto a voltar para casa. Que o tomem por decadente, se quiserem…
     Se Rosinha desobedecer e vier à Praça, não faz mal. Está também disposto a não se importar… Nem indagará se ela fez sucesso, se alguém mais se apaixonou por ela, se o Geraldo continuou com aquelas atenções, aquele safado. Amanhã, no trabalho, recomeçará a vida, será livre novamente. Rosinha que venha procurá-lo depois. Ele é homem e é forte. O que vale no homem é a vontade. Além disso, uma noite corre depressa. Enfiará a cabeça debaixo do travesseiro e a desgraça passará. Apelará para o sono. Já está até com vontade de dormir. Entretanto, não seria mal que caísse uma tempestade. Ao menos assim, Rosinha deixaria de vir à frente do cordão… Oh! como gostaria, como estava torcendo por um temporal que estragasse o vestido dela! Daqueles que inundam tudo, derrubam as casas, param os bondes e trazem uma desmoralização geral. No fundo está até com ódio do Carnaval… 
     Perto, estão tocando um samba de fazer dançar as pedras. Todos se mexem. Só quem está imóvel é ele, sob o peso de uma dor enorme. As mulatas passam rente, cheias de dengue; sorriem, dizem palavras. Hoje ele não topa. Se sente mesmo envergonhado de estar tão diferente. Nunca foi assim. No futebol, no trabalho, nas greves, nas festas, era sempre o mais animado. Foi de certo tempo para cá que uma coisa profunda e estranha começou a bulir e crescer dentro de seu peito, uma influência má que parecia nascer, que absurdo! do corpo de Rosinha, como se esta tivesse alguma culpa. Rosinha não tem culpa. Que culpa tem sua namorada? – essa é que é a verdade.
     E está sofrendo, o preto. Os felizes estão se divertindo. Era preferível ser como os outros, qualquer dos outros a quem a morena porderá pertencer ainda, do que ser alguém como ele, de quem ela pode escapar. Uma rapariga como Rosinha, a felicidade de tê-la, por maior que seja, não é tão grande como o medo de perdê-la. O negro suspira e sente uma raiva surda do Geraldão, o safado. Era este, pelos seus cálculos, quem estaria mais próximo de arrebatar-lhe a noiva. O outro era o Armandinho, mas esse era direito; seu amigo, de fato, incapaz de traí-lo. Sentiu um reconhecimento enexplicável pelo Armandinho. 
     Suas pernas o vão levando agora sem direção. Não se acha a caminho de casa, nem se sente completamente na Praça. Algunas trechos de sambas e marchas chegam aos ouvidos, pousam-lhe na alma:
O nosso amor
Foi uma chama…
Agora é cinza,
Tudo acabado
Nada mais…
     Tudo acabado, tudo tristeza, caramba!… Cabrochas que fogem, leitos vazios, desgraças. Nunca viu tanta dor de corno. Não nasceu para isso, nem tem vocação para sofrer. Os sambas o incomodam. Por que não está dançando como os outros?
     O negro está hesitante. As horas caminham e bloco de Madureira é capaz de não vir mais. Os turistas ingleses contemplam o espetáculo a distância, e combinam o medo com a curiosidade. A inglesa recomenda de vez em quando: – “Não chegue muito perto, minha filha, que eles avançam…” – A mocinha loura pergunta então ao secretário da Legação se há perigo: – “Mas eles são ferozes?” – “Não, senhorita, pode aproximar-se à vontade, os negros são mansos.” – A baiana dos acarajés se ofendeu e resmunga desaforos: – “Nóis é que temo medo de vancês, seu cara de não se que diga; nóis não é bicho, é gente!…”
     Passa rente aos olhos da miss um torso magnífico de ébano. Ela se perturba, fica excitada, segreda aos ouvidos do secretário, tremendo na voz: – “Eu tinha vontade dançar com um… posso?” – “You are crazy, Amy!…” exclama-lhe a velha, escandalizada. Mas os turistas agora se assustam. No fundo da Praça, uma correria e começo de pânico. Ouvem-se apitos. As portas de aço descem com fragor. As canções das Escolas de Samba prosseguem mais vivas, sinfonizando o espaço poeirento. A inglesa velha está afobada, puxa a família, entra por uma porta semicerrada.
     – Mataram uma moça!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A Nova Califórnia, Lima Barreto

   
 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes…
     Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
     – Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
     Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção um forno na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios de uma cozinha em que o próprio diabo cozinhasse.
     O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o tinhoso.
      Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o delegado teria ido dar um cerco na casa daquele indivíduo suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
      Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos científicos.
     Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranqüilidade a todas as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração à pessoa do grande químico, que viera habitar a cidade.
     De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriram e não era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que eles tivessem nascido para sofrer e morrer.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Presépio, Carlos Drummond de Andrade


Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. Se fosse à igreja, o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, não veria o namorado.
     É difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa. E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.
     Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem. A total ocupação varre o espírito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre à força de repetido, ressoa pela casa toda. “Dasdores, as dálias já foram regadas hoje?” “Você viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?” “Ah, Dasdores, meu bem, prega esse botão para sua mãezinha”. Dasdores multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina, está Abelardo.
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