sábado, 28 de setembro de 2019

Melhores Livros de Ziraldo

10 Melhores Livros de Ziraldo 

O Menino Maluquinho - Essa é a história de um menininho traquinas, que tinha macaquinhos no sótão, deitava e rolava, fazendo confusão. Alegria da casa, liderava a garotada. Namorador, fazia versinhos, compunha canções, inventava brincadeiras. E fazia muita bagunça. Foi parar no cinema e na televisão e encantou gerações de brasileirosFoto: Melhoramentos

Flicts - Tudo tem cor. O mundo é feito de cores, mas nenhuma é Flicts. Uma cor rara, frágil, triste, que procurou em vão um amigo entre outras cores, que não encontrou um lugar para ficar. Abandonada, Flicts olhou para longe, para o alto, e subiu, para finalmente encontrar-se.Foto: Melhoramentos

O Bichinho da Maçã - Debaixo da madeira, os animais se reuniam para ouvir as mais incríveis histórias contadas com muita graça pelo bichinho que morava dentro da maçã. Infelizmente, o perigo um dia apareceu, e o Bichinho da Maçã nos conta como conseguiu safar-se, graças à sua inteligência. Foto: Melhoramentos


A Turma do Pererê - A primeira aparição da 'Turma do Pererê' no formato de histórias em quadrinhos foi em outubro de 1960, depois do sucesso das tirinhas do personagem que eram publicadas na revista 'O Cruzeiro'. Este volume traz  o fac-símile da primeira edição, e mais três livros, divididos por temas: '365 dias na Mata do Fundão', 'Coisas do Coração' e 'As Manias do Tininim'. Foto: Globo

O Joelho Juvenal - Juvenal era o joelho de um menino levado, que pulava, corria, caía. Vivia esfolado, mas tinha muitos momentos alegres e felizes. Só que o menino cresce, e Juvenal tem agora um reivindicação a fazer. Foto: Melhoramentos
O Planeta Lilás - Um bichinho tão pequenininho que não podia ser visto nem com uma lente de aumento. Ele queria conhecer algo mais do que seu monótono planeta lilás. Construiu uma nave espacial e saiu numa aventura cheia de surpresas. Ele acabou descobrindo que, na ânsia de desvendar o Universo, saíu sem olhar para trás, sem saber como era o lugar onde viviaFoto: Melhoramentos

O Menino da Lua - Neste livro, Ziraldo cria um mundo à parte e um grupo de personagens que brinca entre estrelas e planetas. O menino da lua e seus amigos formam uma turma de tirar qualquer um de órbita.Foto: Melhoramentos


Meninas - Pensando em contar e ilustrar à sua maneira o livro 'Alice no País das Maravilhas', Ziraldo se concentra em explicar quem é a menina, esse ser encantado que dura apenas dos 7 aos 11 anos. São as meninas que inventam amigos imaginários, que transformam suas lágrimas em rios de esperança, que perseguem coelhos brancos, que enfrentam rainhas loucas e que se apaixonam por gatos luminosos. Depois de ler mais de 100 exemplares diferentes da história de Alice, percebeu que o livro de Lewis Carroll é, além de uma narrativa onírica, uma ode em homenagem à menina.Foto: Melhoramentos

Tantas Tias - Ziraldo costuma dizer que a tia é o melhor amigo do homem enquanto menino. Neste livro, ele fala sobre a convivência com as tias dele e resgata as lembranças que ficaram dessa carinhosa relaçãoFoto: Melhoramentos

A Fábula das Três Cores - Este livro faz com que o leitor descubra a sua terra e a sua maneira de amá-la. Do azul do céu e das águas, do amarelo do sol e da alegria de um povo resulta o verde da esperança, da terra cultivada. Da união desses três símbolos, inventou-se o Brasil.Foto: Melhoramen

Fonte: Cultura Estadão

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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

A Borboleta Amarela, Rubem Braga





segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Primavera Chegou, Rubem Braga

     Há um conto escandinavo, escrito por não sei quem há muitas primaveras, em que o mordomo se curva respeitosamente e anuncia à senhora Condessa:
     - Com a vossa permissão, a primavera chegou.
     - Diga-lhe que seja bem vinda e pode permanecer três meses em minhas terras.
     Então vem o primeiro domingo da primavera. E havia um velho mendigo que tinha uma perna de pau. Suspeitava-se que em sua mocidade houvesse sido um terrível pirata; de qualquer maneira era agora apenas um velho mendigo que pedia esmola todo domingo na porta da igreja. E havia uma rica velhinha que todo domingo dava ao mendigo uma grande moeda de cobre. Naquele domingo, entretanto, por ser o primeiro da primavera, deu-lhe uma grande moeda de ouro. O mendigo sorriu e pediu licença para lhe oferecer um bela rosa.
     Que rosa tão bela, mendigo. Onde a colheu?
     Nasceu em minha perna de pau, senhora.
     Guardei apenas isso do conto escandinavo que li há muitos anos.
     Lembro-me ainda vagamente de um casal de namorados que sai do campo - e a primavera e tão linda que eles esquecem, e voltam mil anos depois, ainda primaveris, em outra primavera...
     Mas isso era na Escandinávia, em um daqueles países louros e frios. No Rio será que existe primavera? Proponho que ela exista; apenas o homem distraído não há ver chegar, nem a sente; nossa primavera é sutil e para entrar na cidade não pede licença ao Prefeito.
     É claro que falta à nossa gente um pouco de imaginação para sentir, para viver a primavera. Essa gene que espera condução em longas, tediosas filas - por que não aproveita o tempo da espera para fazer rodase cantar? Imagino a cidade sob esse delírio primaveril; os bondes criariam asas; na Gávea os cavalos ficariam brincando de carrossel e as senhoras e cavalheiros correriam felizes pela pista com flores nos dentes. 
     No cinema, Gina Lolobrigida sairia da tela e viria sentar na poltrona ao meu lado:
     - Sim, é bem verdade que me amas? Ouvi o teu sorriso; vi na penumbra, teus olhos brilhavam. Quero ficar junto de ti. lo te voglio tanto bene!
     Eu me assustaria, mostraria meus papéis, dizendo que devia haver algum engano, eu não era nenhum artista de cinema, não era nem mesmo Aloísio Salaes, era apenas um espectador, o pobre Braga, obscuro trecho da realidade brasileira...
     Mas ela recitaria:
     "Comigo fica ou leva-me contigo
     Dos mares `amplidão".
     Iríamos para a amplidão dos mares. E na volta tomaríamos grandes, imortais, chuveiradas. pois na primavera ( faça o que quiser a Inspetoria das Águas) na primavera todos teremos água, pois nascerão fontes líricas no metal das torneiras e de nossas banheira saltarão peixes voadores que se porão a cantar como verdadeiros gaturamos e nós todos seremos acqua-loucos de felicidade. Primavera! ( outubro de 1953)


sábado, 21 de setembro de 2019

Flor, Telefone,Moça. Carlos Drummond de Andrade.

     Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga — bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores — ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

     — Sei de um caso de flor que é tão triste!
     E sorrindo:
     — Mas você não vai acreditar, juro.
     Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.
     — Era uma moça que morava na rua General Polidoro, começou ela. Perto do cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que de não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.
     Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores — por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstito até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar para passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça, pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!
     — No interior isso não é raro…
     — Mas a moça era de Botafogo.
     — Ela trabalhava?
     — Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir a certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear — ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões — sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.
     — Que flor?
     — Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz — não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava —, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.
     Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.
     — Alooô…
     — Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
     A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
     — O quê?
     Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.
     — Alô.
     — Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
     Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.
     — Está aqui comigo, vem buscar.
     No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
     — Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.
     Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:
     — Vem buscar, estou te dizendo.
     — Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.
     — Mas quem está falando aí?
     — Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
     — Diga o nome, senão eu não dou.
     — Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.
     O trote era estúpido, não variava, e a moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.
     Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
     — Alô!
     — Quede a flor…
     Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada, voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:
     — Olhe, vire a chapa. Já está pau.
     — Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
     — Esta é fraquinha. Não sabe de outra?
     E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a ideia daquela flor, ou antes, a ideia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter medo.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Joana, Só... Regina Ruth Rincon Caires


Final da primavera de 1951.  Madrugada de lua cheia...
Pela janela aberta, a claridade prateada inunda o quarto. Sentada ao pé da cama, encostada na parede, abraçada às pernas e com o queixo recostado sobre os joelhos, Joana observa o rosto sereno do filho que dorme feito um anjo. Por que tinha que ser assim? Por que a vida tomou esse rumo?
Olha do lado, na outra cama, e vislumbra por entre as cobertas, os rostinhos das duas filhas. A mais velha, de fartos cachos de cabelo dourado que com a luz da lua cintilam como uma nuvem de vaga-lumes, e a mais nova, de pele alva como leite e cabelos negros azulados. Ambas dormem profundamente, alheias aos percalços que a vida silenciosamente arquiteta.
O início de tudo foi numa triste tarde, quase noite. Antônio ainda não havia chegado da roça. Joana acabara de banhar as crianças, sentia-se enjoada com o princípio da nova gravidez, e fazia um esforço tremendo para esquentar as panelas no fogão de lenha, no preparo da comida, quando de repente ouviu um estampido.
Correu para perto das meninas e, assustada, olhou pela janela da cozinha, sem compreender o que estava acontecendo.
Ficou por um tempo agarrada a elas e, assim que recobrou o tino, percebendo que havia barulho de choro abafado, pediu para que as meninas ficassem quietinhas e foi ver o que acontecia.
Já na varanda, olhou na direção da casa do pai de Antônio e, com certa dificuldade por causa da penumbra que a noite trazia, percebeu que havia movimento de pessoas. Constatou que o choro vinha de lá, e as vozes também.
Atônita, seguiu na direção dos sons e, assim que chegou perto, parou petrificada. Na entrada do alpendre da casa do pai de Antônio, perto da cisterna, estava um homem estirado no chão, rodeado por uma poça de sangue.
Joana forçou a vista e percebeu que se tratava do colono Malaquias, homem forte, queimado de sol. Sempre de poucas palavras.
O choro que ouvira era da mãe de Antônio. Ela chorava, lamentava, implorava aos céus por orientação, estava completamente desnorteada, e andava de um lado para outro perguntando ao marido o que deveria fazer...
Olhando mais adiante, perto da porta da cozinha, Joana viu o pai de Antônio parado junto à parede e, mais atrás, estava Seu Avelino que tinha o rosto crispado, os olhos fixos no homem estirado no chão.
Seu Avelino mantinha os braços caídos rentes ao corpo, e trazia em uma das mãos uma carabina.
Num sobressalto, percebeu que o colono estava morto e, sem dizer qualquer palavra, Joana entendeu que o tiro havia partido daquela carabina e que, provavelmente, Seu Avelino teria feito o disparo. E ela estava certa.
Mais tarde soube que o colono tivera um desentendimento com o pai de Antônio, havia algum tempo. A mágoa foi se avolumando e, naquela tarde, por causa de uma pendenga sobre uma saca feijão, o colono armado com um facão foi até lá, e depois de uma nova discussão, investiu contra ele, jurando que o mataria.
Seu Avelino era outro colono da fazenda, casado com Dona Célia. Um homem calmo, sério, pai de oito filhos, compadre e amigo do pai de Antônio. Contou que durante toda a tarde ouviu Malaquias esbravejar exaltado, praguejando e arquitetando a ida até à casa do patrão para fazer o que dizia ser o “ajuste final das contas”.
Percebendo que algo muito sério estava para acontecer, Seu Avelino ficou à espreita, e quando viu que Malaquias se armou e seguiu para a sede da fazenda, não titubeou. Numa corrida desenfreada, esgueirou-se por entre os pés de café, chegando à casa do pai de Antônio minutos antes de Malaquias.
Entrou pela porta da sala. Sabia que o compadre estaria sentado no alpendre dos fundos, como sempre, fumando seu cigarro de palha, com um cotovelo apoiado no canto da mesa.
Seu Avelino passou pelo corredor que ladeava o quarto principal, pegou a carabina carregada que ficava costumeiramente dependurada atrás da porta desse quarto, e seguiu para a cozinha. Nem teve tempo para explicar ao patrão o que estava para acontecer, porque, antes de chegar ao alpendre, antes mesmo de atravessar a porta da cozinha, Seu Avelino avistou Malaquias no terreiro, chegando ao degrau do alpendre.
Seu Avelino parou, percebeu que o patrão ficara assustado com a chegada intempestiva do colono Malaquias vociferando transtornado.
A discussão foi rápida, quase só Malaquias falava, esbravejava. E quando o colono fez menção de se jogar contra o compadre com o facão em punho, Seu Avelino apontou a arma e atirou no peito do sujeito.
Foi um único e certeiro disparo, o mesmo estampido que assustou Joana e que fez com que a mãe de Antônio saísse correndo do galinheiro, onde recolhia os ovos daquele dia, e sem entender o que estava acontecendo, caísse em prantos e clamasse aos céus por clemência e orientação. 
Tudo foi muito rápido. Aconteceu e estava feito. Não tinha volta. Era a realidade e não havia nada a se fazer.
Aos poucos, Seu Avelino foi recobrando os pensamentos, estava trêmulo, com os olhos vermelhos, e continuava calado.
O pai de Antônio, depois de ralhar com a mulher exigindo que ela parasse com o choro e com as lamentações, virou-se para o compadre e pegou a arma. Disse a ele que ficasse calmo, fosse para casa, e não comentasse nada sobre o ocorrido, nem mesmo com a Dona Célia.
Seu Avelino olhou mais uma vez para o corpo daquele homem imerso numa poça de sangue, rodopiou sobre os calcanhares e, mecanicamente, saiu pelo mesmo lugar por onde havia entrado momentos antes.
Ninguém viu Joana ali, e ela calada, sem fazer qualquer ruído, voltou para casa.
A noite havia chegado de vez, e, com ela, Antônio surgiu no terreiro. Estava todo suado, com a roupa suja de terra, resultado de um dia de trabalho pesado na roça de café.
Era costume, ao final do dia, quando voltava da roça e antes de se recolher, passar pela casa dos pais para tomar a bênção. E naquele dia não foi diferente.
Foi sim...  Naquele dia tudo foi diferente.
Antônio chegava com o corpo cansado, mas com a alma leve, estava tranquilo, feliz com mais um dia trabalhado, feliz de voltar para a família, feliz como há muito tempo se sentia, ou como sempre se sentiu. Mas a cena que encontrou foi como um nocaute. Seus miolos não conseguiam atinar o que havia acontecido ali.
Olhou aquele homem caído, mais adiante viu seu pai sentado no canto do alpendre, apoiado na mesa, o brilho da lamparina clareava seu rosto abatido, os olhos assustados, o cigarro de palha apagado no canto da boca, e ouviu o choro abafado da mãe na cozinha.
O pai, vendo o espanto do filho, chamou-o para perto, explicou o acontecido, e pediu a ele que preparasse um cavalo, que fosse até à vila providenciar o sepultamento e comunicar o acontecido para a autoridade do Cartório.
Explicou a Antônio que Seu Avelino atirara para protegê-lo, que o compadre não poderia ser envolvido no caso, pois tinha oito filhos para criar, e não havia testemunha do disparo a não ser ele mesmo.
Então, Antônio foi orientado a dizer para a autoridade na vila que ele mesmo, Antônio, havia disparado o tiro para proteger seu pai.
E assim foi feito. No escuro da noite, montado no seu cavalo de lida, Antônio foi até à vila que era razoavelmente próxima. A autoridade providenciou a retirada do corpo poucas horas depois e como não havia delegacia e nem delegado na vila, não havia telefone, nem telégrafo, a comunicação foi feita por carta para a central regional da polícia. Dessa maneira, só restava esperar a chegada da autoridade competente para que fosse enfrentado o desdobramento do caso.
O pai explicou a Antônio que, como o tiro fora disparado para defender a vida do pai, Antônio, certamente, assumindo a culpa como fizera, seria apenado com poucos meses de prisão, e que tudo seria resolvido rapidamente. Pena que certamente seria muito mais severa se fosse aplicada a Seu Avelino, por não ter grau de parentesco com o patrão. Era assim que o pai de Antônio pensava, e foi nisso que o filho acreditou.
Antônio estava desarvorado. Temia pelos filhos, pela mulher e por ele mesmo. Nunca saíra do seu canto. Nunca acordara em outro lugar. Suava frio quando pensava que teria que viajar para longe, sozinho. Nunca fizera isso! Mas sabia que teria que se resignar, aliás, já estava resignado, e não falava sobre isso. Nem com Joana. O que seu pai havia decidido era o mais correto a ser feito. Afinal, poucos meses passariam rapidamente, e não seria justo que Seu Avelino ficasse preso. Como poderia sustentar a mulher e seus oito filhos?
Antônio nem conseguia dormir tamanha a insegurança que tinha na alma, e sabia que Joana, mesmo quietinha na cama, também não conseguia. A cada dia que se passava a agonia dos dois se avolumava. Não falavam sobre isso. As coisas seriam como deveriam ser, e pronto.
Depois de duas semanas sofridas, o jipe da polícia chegou. O delegado conversou com o pai de Antônio, entregou uns papéis, e Joana foi destacada para ir até a roça para chamar o marido.
Vieram em silêncio, vagarosamente, como não querendo chegar. Joana arrumou a mala com as poucas roupas, e Antônio vestiu-se com a melhor troca, despediu-se discretamente diante das crianças, e seguiu no jipe da polícia com o delegado e o milico. Estava calado, com os olhos apavorados, mas não chorava.
O choro ficou apenas para as mulheres. A mãe de Antônio, vendo o jipe sumir por entre os pés de café e a nuvem de poeira, enxugou os olhos na ponta do avental e voltou para a cozinha.
Joana, segurando as meninas pelas mãos e carregando o mais novo na barriga, com a alma em soluços, rumou para casa. Meu Deus! Como seriam esses meses?
E as noites foram longas... E as lágrimas não cessavam... E a barriga crescia cada vez mais, feito a saudade.
Não chegava carta. Antônio não sabia escrever, e nunca pediria para que alguém o ajudasse. Imagina se ele contaria alguma coisa para qualquer estranho!
E o filho nasceu... Um menino grande e forte, como o pai. A ele foi dado o nome do avô. Joana sabia que Antônio, distante, estaria aflito, apavorado e muito triste por não estar junto dela naquele momento. Pelas contas deles, quando a criança nascesse, certamente a pena já estaria cumprida, e ele já estaria em liberdade. Mas, isso não aconteceu. A pena estava sendo muito maior que o esperado.
Era a vida... E um ano se passou...
Nada de Antônio ser colocado em liberdade, e então Joana foi informada, pelo sogro, que ele fora condenado a uma pena total de três anos de prisão. Quanta dor! Apenas um ano havia se passado, e havia mais dois pela frente. Quanta solidão! As meninas, com quatro e dois anos, o menino com seis meses, e a vida precisava seguir em frente.
E seguia, só Deus sabe como...
Joana contava os dias, calada. Conversava com os pais de Antônio apenas o trivial, o corriqueiro, era o costume. Não se falava em tempo de espera, em saudade, em dor.
Todos sentiam tudo, mas ninguém falava...
A mãe de Antônio cuidava de ajudar Joana nas tarefas, principalmente no cuidado com as roupas e no preparo dos pães. Era bondosa, de olhos mansos, piedosa, subserviente. E Joana, também.
Apesar de forte, de extremamente organizada e generosa, a mãe de Antônio era devotadamente submissa ao marido. Não exigia explicação alguma, não questionava nada, não contestava, apenas vivia, ou melhor, respirava...
Passados três longos anos, a colheita de café agitava os colonos num vaivém incessante, o sol estava começando a declinar naquela quarta-feira, quando Joana ouviu o som de uma condução que se aproximava.
Com o coração aos pulos foi para a janela e avistou o jipe da polícia. Nem sabia o que fazer. Queria estar bem bonita para o reencontro com Antônio, mas num ímpeto, nem se lembrando disso, correu para o terreiro, sem mesmo tirar o avental.
E viu Antônio... E se assustou...
Ele estava magro, excessivamente magro, amarelo, olhos fundos, entristecido, curvado, abatido, com uma palidez macilenta, e quando falou seu nome, Joana percebeu a voz muito fraca. Só o carinho que Joana viu em seus olhos lembrava o Antônio que havia partido três anos antes.
Ele estendeu a mão num cumprimento, e procurou rapidamente, com os olhos, os seus filhos. Eles vinham correndo buscando a mãe. As meninas não reconheceram o pai, e o menino ainda não havia sido apresentado a ele.
Antônio despediu-se dos policiais, pediu a bênção dos pais, pegou a mala e rumou vagarosamente para casa, seguido por Joana e pelos filhos.
Os policiais ficaram conversando por alguns minutos com os pais dele, e depois se foram.
Antônio entrou em casa. Ficou um bom tempo olhando para as paredes como se estivesse matando a saudade que sentia no peito, e demorou a soltar a mala.
Joana estava feliz com a chegada do seu Antônio, mas o coração apertado tentava contrariar a sua vontade e colocava uma névoa de preocupação na sua alegria. Sentia que o marido não estava bem.
E não estava mesmo. Na prisão, ele havia contraído várias doenças, e a tuberculose havia minado suas forças quase por completo. A falta de sol, a falta de se exercitar como fazia na roça, a alimentação precária e a solidão daqueles anos todos lhe roubaram a saúde.
E mesmo feliz por estar de volta, Antônio não conseguia reagir aos males do corpo. A febre não cedia, a prostração o dominou. Foi se finando, foi se esvaindo, até que a vida lhe escapou das mãos.
Foram dias difíceis, angustiantes, nos quais Joana teve a impressão de ter sido levada, de ter sido arrastada, porque não se lembra de muitos detalhes.
Depois de tanta espera, depois da volta, em apenas poucos meses, Joana se via novamente só. Não havia o que esperar. O seu Antônio não voltaria mais, tinha partido para sempre.
Agora, ali, olhando os rostos serenos dos filhos, com o coração enlutado, com as forças querendo abandoná-la, relembra tudo e nem revolta sente. Não reclama, não blasfema, não se insurge, não maldiz, não se inflama. Continua apática, abatida, resignada. É o costume...
Queria apenas entender...
Assim que amanhecer irá de mudança para a vila. É chegada a hora da filha mais velha começar na escola. O pai de Antônio arrumou uma casa na vila para ela e para as duas meninas. O menino ficará ali, com o pai e com a mãe de Antônio. Será criado por eles no costume do sítio para pegar gosto pelo trabalho na terra.
Joana está amargurada com mais essa separação. Assim foi decidido e assim será...
O sol clareia o terreiro, os parcos pertences são colocados num velho caminhão que chegou. Joana e as meninas amontoam-se na pequena cabine com o motorista, e o choro gritado do filho, que se contorce para sair do colo da mãe de Antônio à procura dos seus braços, entra por seus ouvidos e parece querer fazer explodir seu peito com tamanha aflição.
A dor que Joana sentiu ao parir foi infinitamente menor se comparada a essa que aperta seu peito nessa separação. É agora como uma lança em chamas a rasgar a carne, o ventre, retirando o filho do seu convívio. Não irá mais estar presente nos dias da vida dele, não acompanhará seu crescimento, não irá mais velar-lhe o sono, não estará presente para aliviar seu medo nas noites de chuva... Mas, é a vida...
O caminhão segue pela estrada poeirenta.
Joana também deve seguir em frente...
E seguiu... 

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Quisera Ser Um Gato, Ferreira Gullar



     Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde.
     Ela é, portanto, muito diferente do gatinho que, antes dela, me fazia companhia e que se foi. Morreu de velho, já que nunca havia adoecido durante seus 16 anos de vida. Quando adoeceu, foi para morrer. Não preciso dizer que fiquei traumatizado e não quis mais saber de outro gato. Amigas e amigos me ofereceram um substituto para o meu gatinho, e eu respondia que amigo não se substitui.
     Os anos se passaram, a dor foi se apagando, até que um belo dia, minha amiga Adriana Calcanhotto chegou aqui em casa com um presente para mim: era uma gatinha siamesa. Faltou-me coragem para dizer não, mesmo porque a bichinha me encantou à primeira vista. Manteve-se arredia por algum tempo, mas logo me aceitou e nos tornamos amigos.
     Hoje me sinto praticamente lisonjeado pelo fato de que, por medo ou desconfiança, enquanto ela foge de todo mundo, me busca pela casa, sobe em minhas pernas e ali se deita, isso sem falar que, todas as noites, dorme em minha cama.
     Confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra.
     E às vezes, olhando-a dormir na poltrona da sala, lembro que para ela a morte não existe, como existe para nós, gente. Ela é mortal, mas não sabe, logo é imortal. A morte, no caso dela, é apenas um acidente como outro qualquer, dormir, comer, brincar, correr; só existirá quando acontecer, sem que ela saiba o que está acontecendo.
     Neste ponto é que a invejo. Já pensou como a vida seria leve se não tivéssemos consciência de que ela acaba? Seria como viver para sempre, tal como ocorre com a gatinha.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Furtei Uma Flor, Carlos Drummond de Andrade

      Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.
     Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz.  
O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.
     Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição.    Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
     Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores.  Eu a furtara, eu a via morrer.
     Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.
     – Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1985. p. 80.

Leia também: Dossiê Drummond de Geneton Moraes Neto

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Estive Cara a Cara Com Deus, Ignácio de Loyola Brandão


Tiradentes – A semana para mim começou em Tiradentes, Minas Gerais. Na Pousada Alforria, subi para o café da manhã e encontrei Antonio Magalhães, o dono, que me saudou com a pergunta: “Tem visto Ana Helena?” A única que eu conheço, inesquecível,  é a Ana Helena da Capitu. Livraria que teve curta duração, mas marcou a vida cultural em São Paulo nos anos 1970 para 1980. Época em que pequenas livrarias sobreviviam, marcavam presença, cada uma com sua personalidade. Magalhães acrescentou: “Lembra-se daquele lançamento debaixo da chuva?”
     Como esquecer? Era 1979, estava saindo a terceira edição do Zero a primeira liberada, após três anos de proibição. Mais do que um lançamento foi uma manifestação pela liberdade e contra a censura. Havia tanta gente que a fila se estendeu por quadras e quadras na Rua Pinheiros, porque a Capitu era pequena. Começou a chover, ninguém arredou pé, a festa continuou com as pessoas molhadas e felizes. De repente, no interior do sul mineiro, em uma cidade histórica de 3 mil habitantes, olhando a neblina que cobria o topo da Serra de São Jose, a vida mergulhou com a coalhada fresca e os pães de queijo, foi para o escritório e logo o café da manhã foi tomado pelo som do violoncelo de Rostropovich. Depois, ai me ver saindo, Magalhães sugeriu:
      -Por que não vai ver Deus?
     - Deus?
     -Sim, aqui você pode estar com Deus, cara a cara.
     Sorriu, deu indicações, caminhei pela Rua da Praia (ainda que não haja praia), subi a Rua da Cadeia, Largo do Sol, casa do Padre Toledo, onde os Inconfidentes, se reuniam, e cheguei  ao Santuário da Santíssima Trindade, no alto. Uma escada interior leva ao alto do altar e ali me vi diante de Deus. Cara a cara. Olho no olho. Conversamos uns minutos. Em geral, na Santíssima Trindade, Deus é representado por um olho. Ali, em Tiradentes, Deus é a imagem de um homem alto, forte, barbudo, cabeça coberta por uma mitra, as mãos estendidas, rosto severo e sereno. Uma coisa rara. Está com as mãos abertas para o mundo. Não sei, Minas e mineiros têm suas coisas à parte. Temos de aceita-los e amá-los, não compreendê-los.

     A literatura tem feito muitos escritores descobrirem um Brasil, não digo subterrâneo, mas que cria silenciosamente, com pessoas preocupadas com seu meio, seu lugar, o entorno. Como Maria Lídia Montenegro que, depois de trabalhar no mercado financeiro, se refugiou com o marido Ricardo em Tiradentes e decidiu tocar para a frente o Centro Cultural Yves Alves, em uma casa antiga que é puro encantamento. Ela conseguiu colocar 300 pessoas no auditório e a conversa só terminou porque a hora ia adiantada.  Ou Luiz Antonio da Cruz, professor de matemática, bombeiro voluntário, ecólogo, agitador cultural, e que escreve ensaios sobre cultura regional. Maria José Boaventura, que todos chamam de Marijô, artista plástica que penetrou em uma arte complexa, desafiadora e fascinante: fazer ilustrações em braile. Ou Maria de Fátima Unes Ticle, de Lavras, encampando todos os projetos culturais para agitar a cidade. Ronise Maciel e Ângela de Moura Galo, que, com a assistência de Cristiane, professora e fotógrafa, desvendaram histórias e paisagens de Três Corações.
     Sem esquecer a ousadia de Ana Maria abrindo uma livraria como a Obra-Prima, moderna, aconchegante e bem fornida de todos os tipos de livros. Mauro dos Reis e Elizabeth da Silva, da Secretaria de Cultura, braços direitos da pró-reitora Valéria, ao colocarem 600 pessoas no auditório da universidade, em São João Del Rey. Trabalham pelos livros, pelas pessoas. Em Tiradentes se refugiam Sergio Paulo Rouanet, diplomata aposentado, acadêmico, autor da famosa lei que todo mundo procura, e sua mulher, a cientista social Bárbara Fritag. Além de Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e sua mulher Tânia.*
     Três Corações foi a última cidade do trajeto de uma semana pelo interior mineiro, levado pelo  projeto TIM, Grandes Escritores Estado de Minas. Criado por Marcelo Andrade e encampado pela Tim, o projeto pode ser enquadrado no texto de Ronald A. Fernandes, de São Thomé das Letras: “Temos de levar em conta a distância física entre o brasileiro comum e a cultura produzida pelas pessoas que produzem cultura e, mais ainda, porque a existência  física desses produtores de cultura costuma soar ainda mais fictícia que a de seus personagens. A aproximação, o encurtamento dessa distância é, no mínimo, louvável”.
     A meu ver, esse encurtamento é o que vem sendo feito pelo projeto que já está ampliando o circuito, uma vez que Paraíba e Sergipe estão entrando nas programações. Acho ótimo avançar pelo interior do Brasil em lugar de ficar rodando apenas por São Paulo e Rio que  já têm coisas demais, muitas nem aproveitadas. A biblioteca de cada cidade visitada recebe 200 exemplares com obras de 12 autores que participam de cada etapa.
     Sábado, muito cedo, enquanto o motorista levava minha bagagem para o carro que me conduziria a São Paulo, o jovem recepcionista Ricardo Marcato, entrando em seu turno, lamentou não ter tido tempo de ir à palestra da noite anterior. No entanto, retirou de uma mochila o livro de poesias Deixe Ser , que é metade dele com o título Atrás das Grades de Papel Sulfite  e metade de Roberto Ferreira que assina Do Auto da Montanha Iraniana. Dois dias antes, eu havia descoberto em Lavras a poesia de André Di Bardi em Longes Pertos e Algumas Árvores, um livro curto e muito bem editado, de onde tirei a frase com que abri minha fala ( e abrirei todas, daqui para o futuro) e que define o ofício de escrever:
Há que se desenhar
Em paredes abstratas
E em papeis remotíssimos
O que jamais houve.
Tem melhor explicação? Não está longe o dia em que a poesia de André circulará pelo Brasil. Mas como furar o cerco do eixo Rio-São Paulo? Foi uma semana de livros e literatura, e como ninguém é de ferro, algumas dicas devem ser dadas à parte. Como o sanduíche de linguiça caseira do Belvedere, na estrada, a meio caminho entre Belo Horizonte e Tiradentes. Ou os rocamboles de Lagoa Dourada, anunciados como “legítimos”. Deliciosos.
     Necessária uma passagem pelo Café Com Prosa, entre Lagoa Dourada e Tiradentes. Indo de carro, ao ver a placa Caminho Real, opte por ela, é um caminho antigo, de paralelepípedos, lindo. O jantar em Tiradentes tem de ser no Theatro da Villa, onde o chef  Carlos Eduardo comanda uma cozinha impecável, delicada e saborosa. Sofisticada como se estivéssemos em Paris. Em São João Del Rey, um momento de estranha nostalgia que me  levou à cadeira do dentista. Este era o Solar dos Lustosa, me disseram. O Lustosa da cera de dentes. Aquela que tinha um cheiro terrível, pior que o mau hálito, e que nos queimava a boca na infância. Os mais velhos se lembravam da cera de cheiro forte e característico, que suavizava terríveis dores de dente. O Brasil sempre teve dentes ruins e pode-se ver isso pela fortuna que os Lustosas amealharam, construindo este solar imponente. Com nossos dentes precários, eles se deram bem.** Aliás, deslumbrante é um passeio pela solidão da cidade velha, na madrugada, sob a luz dos lampiões (fakes, mas belos). Nos perdemos no tempo, saímos da realidade. E não estamos vivendo tempos de Lula, em que a realidade parece ter perdido o sentido?  
(28 de maio de 2004)
*Não deixem de ler o mais recente livro de Eros Grau, Paris Quartier Saint-Germain-des-Près, um guia delicioso sobre a cidade, com mil dicas e histórias curiosas sobre os parisienses.


**Quando lembro do Lustosa e da cera, penso nos milhares de jovens de hoje que ostentam seus aparelhos para consertar dentes. A coisa adquiriu tal proporção que jovem que não tem aparelho se sente marginalizado. Não é só necessidade, é tendência e como se sabe vivemos obedecendo as tendências.
Largo das Forras - Tiradentes, MG
     
Brandão, Ignácio de Loyola O Mel de Ocara, Ed,Global,São Paulo 2013, págs. 93-97
Leia também Filhote de Pai D' Égua, Ignácio de Loyola Brandão (Cidade: Belém do Pará)

domingo, 8 de setembro de 2019

Os Dentes do Jacaré, Sérgio Capparelli. (poema infantil)


De manhã até a noite,
jacaré escova os dentes,
escova com muito zelo
os do meio e os da frente.

– E os dentes de trás, jacaré?

De manhã escova os da frente
e de tarde os dentes do meio,
quando vai escovar os de trás,
quase morre de receio.

– E os dentes de trás, jacaré?

Desejava visitar
seu compadre crocodilo
mas morria de preguiça:
Que bocejos! Que cochilos!

– Jacaré, e os dentes de trás?

Foi a pergunta que ouviu
num sonho que então sonhou,
caiu da cama assustado
e escovou, escovou, escovou.
Sérgio Capparelli CAPPARELLI, S. Boi da Cara Preta. LP&M, 1983.

Leia também: Velho Poema Infantil, de Máximo de Moura Santos.
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