sexta-feira, 24 de maio de 2019

A Vida Em Oblivion, Monteiro Lobato

     

     A cidadezinha onde moro lembra soldado que fraqueasse na marcha e, não podendo acompanhar o batalhão, à beira do caminho se deixasse ficar, exausto e só, com os olhos saudosos pousados na nuvem de poeira erguida além. Desviou-se dela a civilização. O telégrafo não a põe à fala com o resto do mundo, nem as estradas de ferro se lembram de uni-la à rede por intermédio de humilde ramalzinho.

     O mundo esqueceu Oblivion, que já foi rica e lépida, como os homens esquecem a atriz famosa logo que se lhe desbota a mocidade. E sua vida de vovó entrevada, sem netos, sem esperança, é humilde e quieta como a do urupê escondido no sombrio dos grotões.
     Trazem-lhe os jornais o rumor do mundo, e Oblivion comenta-o com discreto parecer. Mas como os jornais vêm apenas para meia dúzia de pessoas, formam estas a aristocracia mental da cidade. São “Os Que Sabem”. Lembra o primado dos Dez de Veneza, esta sabedoria dos Seis de Oblivion.
     Atraídos pelas terras novas, de feracidade sedutora, abandonaram-na seus filhos; só permaneceram os de vontade anemiada, débeis, faquirianos. “Mesmeiros”, que todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam – pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo.
     Entre as originalidades de Oblivion uma pede narrativa: o como da sua educação literária.
     Promovem-se três livros venerandos, encardidos pelo uso, com as capas sujas, consteladas de pingos de vela – lidos e relidos que foram em longos serões familiares por sucessivas gerações. São eles: La mare d’Auteuil, de Paulo de Kock, para o uso dos conhecedores do francês; uns volumes truncados do Rocambole, para enlevo das imaginações femininas; e Ilha maldita, de Bernardo Guimarães, para deleite dos paladares nacionalistas. O dono primitivo seria talvez algum padre morto sem herdeiros. Depois, à força de girarem de déu em déu, esses livros forraram-se à propriedade individual. Quem, por exemplo, deseja ler o Rocambole diz na rodinha da farmácia:
     – Onde andará o Rocambole?
     Informam-no logo, e o candidato toma-o das mãos do detentor último, ficando desde esse momento como o seu novo depositário. Processo sumaríssimo e inteligente.
     Quando se esgotou a minha provisão de livros e, ignorante ainda da riqueza literária da terra, deliberei decorrer ao estoque local, dirigi-me a um dos Seis. O homem enfunou-se de legítimo orgulho ao dar-me os informes pedidos.
     – Temos obras de fôlego, poucas mas boas, e para todos os paladares. Gênero pândego, para divertir, temos, “por exemplo”, La mare d’Auteuil, de Paulo de Kock. Impagável!
     – Obrigado. De Kock, nem a tuberculina.
     – Temos o célebre Rocambole, “gênero imaginoso”; infelizmente está incompleto; faltam uns dezessete volumes.
     – Não me serve o resto.
     – E temos uma obra-prima nacional, a Ilha maldita, do “nosso” Bernardo Guimarães.
     Parando aí o catálogo, era forçoso escolher.
    No concerto dos nossos romancistas, onde Alencar é o piano querido das moças e Macedo a sensaboria relambória dum flautim piegas, Bernardo é a sanfona. Lê-lo é ir para o mato, para a roça – mas uma roça adjetivada por menina de Sion, onde os prados são amenos, os vergéis floridos, os rios caudalosos, as matas viridentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonorosos, as rolinhas meigas. Bernardo descreve a natureza como um cego que ouvisse contar e reproduzisse as paisagens com os qualificativos surrados do mau contador. Não existe nele o vinco enérgico da impressão pessoal. Vinte vergéis que descreva são vinte perfeitas e invariáveis amenidades. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas morenas cor de jambo.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

50 melhores Livros do Século 21, Revista Bula

A Revista Bula realizou duas enquetes — em 2018 e 2019 — para descobrir quais são, na opinião dos leitores, os melhores livros publicados no século 21. As consultas foram feitas a colaboradores, assinantes — a partir da newsletter —, e seguidores da página da revista no Facebook e no Twitter. Os 50 livros mais lembrados pelos leitores foram reunidos em uma lista, composta, predominantemente, por obras de ficção. A seleção abrange livros nacionais e estrangeiros, que foram publicados a partir do dia 1 de janeiro de 2001, sendo que todas elas tiveram tradução para o português. De acordo com um levantamento prévio feito pelos editores da Bula, pouquíssimas pessoas já leram mais do que quatro livros presentes na lista. Para descobrir se você é uma exceção, basta contabilizar quantas obras você já leu dentre as 50 listadas.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A Mulher Que Não Queria Acreditar, Fernanda Takai


   
     Todo dia ela pensava apenas sobre as questões práticas da vida. Tem pão pro café? O filho devolveu o livro da biblioteca? A roupa tá passada? Os relatórios do trabalho prontos? O chefe satisfeito? O ingresso pro teatro comprado? O dinheiro na poupança? Sim, sim e sim. Era muito organizada. Tudo no esquadro. Pé mais do que no chão.

     Quando lia o jornal pulava sem pestanejar a seção do horóscopo. Nem sabia seu ascendente. Nunca entrava em loja de artigos esotéricos. Não amarrava fitinha só senhor do Bonfim. Aliás, amarrou só uma vez porque estava vindo de uma temporada na praia e aquele amarelo ia bem. E sem nenhum constrangimento cortou-a com a tesourinha quando começou a ficar embolada. Religião? Não tinha. A família era católica e ela gostava de cantar musiquinhas de igreja, mas nem crismada foi; quando achou que aquele mundo não fazia sentido disse "não", para desgosto da mãe e das tias, que acreditavam eu tudo. Tudo mesmo. Ela se divertia com banhos para tirar energias negativas que lhe preparavam para o Ano-Novo. Pra não deixá-las chateadas, até jogava no corpo o líquido do frasco quando vinha cheiroso, ou quem sabe despejava pelo ralo,  mas devolvia vazio. "Obrigada". E soltava um risinho...

     Passou embaixo de mais escadas que qualquer um, só pra ver os olhares espantados e sinais da cruz das pessoas na rua. E, quando podia, ainda levava um gato preto no colo! Se tinha algum problema e alguém vinha ensinar uma simpatia, ela logo desconversava: "Não acredito".

     Quando era nova, ganhou um trevo de quatro folhas plastificado de um namoradinho da escola e, pra desespero do moleque, começou a descolá-lo só pra provar que era falso. "Viu?" Ele foi embora. Ela ainda mostrou o troféu pra todo mundo.

   Gostava muito de matemática, mas conseguiu brigar com seu professor preferido quando teimou sobre o conceito de números imaginários. "Tente me explicar de novo porque ainda não entendi." O seu próprio veredito foi que era algo de que ela também não ia precisar acreditar mesmo...

     No fundo, às vezes ela era cruel. Mas sua educação disfarçava isso bem. Em qualquer jantar com amigos ela sempre acabava discutindo e no fim ia embora pra não brigar de verdade. Zombava do casal que estava fazendo análise há dez anos. Não acreditava. Achava engraçado a prima ver um programa de TV sobre um senhor que se comunicava com parentes mortos. Até no cinema, quando o assunto era "crer ou não crer" ela dizia em voz alta: "Mas não é possível, gente!" Uma quase chata.

     E assim viveu por muito tempo. Se não houvesse questão metafísica no caminho, tudo bem. De certa forma ela e suas certezas interiores se bastavam. Tinha seus problemas mas achava que tudo se resolvia, de algum modo, com o passar da vida.

     Era véspera de seu aniversário de cinquenta anos e uma coisa estranha aconteceu. Ao acordar, não sentiu vontade de comer. Nem de ir trabalhar. Nem de verificar se estava tudo certo em casa. Fechou os olhos de novo e percebeu que todas as suas certezas tinham desaparecido. Num primeiro momento, nem nisso acreditou. Depois de passar o dia sentada na cama dando desculpa de que estava se sentindo enjoada, ligou assustada para sua melhor amiga contando o que se passava.

Ao chegar à casa da mulher que nunca quis acreditar em nada, a amiga percebeu que ela estava mesmo diferente e disse brincando:"Não acredito no que você me contou...". E então a mulher baixou os olhos meio sem jeito:"Por favor, acredite! Mas não conte pra ninguém nem me venha com simpatias, consultas, terapias...".

     A amiga sorriu, abriu a bolsa e escreveu, com a mais bela caligrafia, uma frase numa página arrancada de sua agenda. Entregou à mulher que, ao ler aquilo, deu-lhe um abraço longo e apertado. Não podia ser a mesma depois daquele dia. E não foi.


     Para sempre guardou em sua carteira aquele amuleto:"Eu acredito em você".


sexta-feira, 17 de maio de 2019

Conversa de Viajantes, Stanislaw Ponte Preta

   
    E muito interessante a mania que tem certas pessoas de comentar episódios que viveram em viagens, com descrições de lugares e coisas, na base de “imagine você que...”. Muito interessante também e o ar superior que cavalheiros, menos providos de espirito pouquinha coisa, costumam ostentar depois que estiveram na Europa ou nos Estados Unidos (antigamente até Buenos Aires dava direito a empáfia). Alias, em relação viajantes, ocorrem episódios que, contando, ninguém acredita.
     O camarada que tinha acabado de chegar de Paris e – por sinal – com certa humildade, estava sentado numa poltrona, durante a festinha, quando a dona da casa veio apresenta-lo a um cavalheiro gordote, de bigodinho empinado, que logo se sentou a seu lado e começou a “boquejar” (como diz o Grande Otelo):
     – Quer dizer que esta vindo de Paris, hem? – arriscou. O que tinha vindo fez um ar modesto: – E!!!
     – Naturalmente o amigo não se furtou ao prazer de ir visitar o Palácio de Versalhes.
     – Não. Não estive em Versalhes. Era muito longe do hotel onde me hospedei.
     – Mas o amigo cometeu a temeridade de não ficar no Plaza Athénée?
     O que não ficara no Plaza Athénée deu uma desculpa, explicou que o seu hotel fora reservado pela Cia. Onde trabalha e, por isso, não tivera vez na escolha.
     – Bem – concordou o gordinho –, o Plaza realmente e um pouco caro, mas e muito central e ha outros hotéis mais modestos que ficam perto do Plaza. – E depois de acender um cigarro, lascou: – Passeou pelos Bois?
     – Passei pelo Bois uma vez, de táxi.
     – Mas o amigo vai me desculpar a franqueza; o amigo bobeou. Não ha nada mais lindo do que um passeio a pé pelo Bois de Boulogne, ao cair da tarde. E não ha nada mais parisiense também.
     – E... eu já tinha ouvido falar nisso. Mas havia outras coisas a fazer.
     – Claro... claro... Ha coisas mais importantes, principalmente no setor das artes – e sem tomar o menor folego: – Visitou o Louvre?...
     – Visitei.
     – Viu a Gioconda?
     O recém-chegado não tinha visto a Gioconda. No dia em que esteve no Louvre, a Gioconda  não estava em exposição.
      – Mas o senhor prevaricou – disse o gordinho, quase zangado. – A  Gioconda  só está em exposição as 5.as e sábados e ir ao Louvre noutros dias e negar a si mesmo uma comunhão maior com as artes.
     Passou uma senhora, cumprimentou o ex-viajante e, mal ela foi em frente, nova pergunta do cara:
     – E a comida de Paris, hem amigo? Você jantava naqueles bistrozinhos de Saint-Germain? Ou preferia os restaurantes típicos de Montmartre? Ha um bistrô que fica numa transversal da Rue de...
     Mas não pode acabar de esclarecer qual era a rua, porque o interrogado foi logo afirmando que jantara quase sempre no hotel. E sua paciência se esgotou quando o chato quis saber que tal achara as mulheres do Lido.
     – Eu não fui ao Lido também. O senhor compreende. Eu estive em Paris a serviço e sou um homem de poucas posses. Quase não tinha tempo para me distrair. De mais a mais, lá e tudo muito caro.
    – Caríssimo – confirmou o gordinho, sem se mancar.
    – O senhor, naturalmente, esteve lá a passeio e pode fazer essas coisas todas – aventou, como quem se desculpa.
     Foi ai que o gordinho botou a mãozinha rechonchuda sobre o peito e exclamou: – Eu??? Mas eu nunca estive em Paris!

(Ponte Preta, Stanislaw. O melhor de Stanislaw. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.)     

terça-feira, 14 de maio de 2019

Uma Prosa Sobre Meus Gatos, Manuel António Pina


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam demais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem “os meus gatos”,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.


domingo, 12 de maio de 2019

Mãe É Quem Fica, Bruna Estrela

     
     Mãe é quem fica. Depois que todos vão. Depois que a luz apaga. Depois que todos dormem. Mãe fica.
     Às vezes não fica em presença física. Mas mãe sempre fica. Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver. Uma parte sempre fica.
     Fica neles. Se eles comeram. Se dormiram na hora certa. Se brincaram como deveriam. Se a professora da escola é gentil. Se o amiguinho parou de bater. Se o pai lembrou de dar o remédio.
     Mãe fica. Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou. Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.
     É quando a gente fica que nasce a mãe. Na presença inteira. No olhar atento. Nos braços que embalam. No colo que acolhe.
     Mãe é quem fica. Quando o chão some sob os pés. Quando todo mundo vai embora.      Quando as certezas se desfazem. Mãe fica.
     Mãe é a teimosia do amor, que insiste em permanecer e ocupar todos os cantos. É caminho de cura. Nada jamais será mais transformador do que amar um filho. E nada jamais será mais fortalecedor que ser amado por uma mãe.
     É porque a mãe fica, que o filho vai. E no filho que vai, sempre fica um pouco da mãe: em um jeito peculiar de dobrar as roupas. Na mania de empilhar a louça só do lado esquerdo da pia. No hábito de sempre avisar que está entrando no banho. Na compaixão pelos outros. No olhar sensível. Na força pra lutar.
     No coração do filho, mãe fica.

sábado, 11 de maio de 2019

M.P.B poesia: Oração ao Tempo, Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Caetano Veloso:infância,juventude,maturidade

Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo


O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Veja também O Tempo, de Mário Quintana

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Um Juri Na Roça, Monteiro Lobato

   
      Não é meu esta caso, mas dum tio, juiz numa Itaoca beira-mar. Homem sessentão, cheio de rabugens, pigarros e mais macacoas da velhice, nem por isso deixa de ser amigo da pulha, como diria Mestre Machado. Gosta de contar pilhérias e casos de truz, que a meio descambam em caretas reumáticas, muito de apiedar corações sobrinhos.
     Os seus domínios jurídicos são o reino da própria Pacatez. Os anos ali fluem para o Esquecimento no deslizar preguiçoso dos ribeirões espraiados, sem cascatas nem corredeiras encrespadoras do espelho das águas — distúrbio, tiro ou escândalo passional. O povo, escasso como penas em frango impúbere, vive de apanhar tainhas e mariscos.   Feito o que, da capo às tainhas e mariscos.
     É extrema a penúria de emoções. Vidas há que ardem inteirinhas sem o tremelique duma comoção forte. Só a Morte pinga, a espaços, no cofre dos acontecimentos, o vintém azinhavrado dum velho mariscador morto de pigarro senil, ou o tostão duma pessoa grada, coletor de rendas, fiscal, agente do correio.
     Em tempos deu cédula graúda, um visconde da Jamanta, último varão conspícuo de que ficou memória no lugar.
     Fora disso nada mais bole com a sensibilidade em perpétua coma de excelente povo — nem dramas de amor, nem rixas eleitorais, nem coisa nenhuma destoante dos mandamentos do Pasmado Viver.
     A taramelagem das más-línguas vê-se forçada, nos serões familiares, ou na venda do José Inchado (clube da ralé), ou na Botica do Cação de Ouro (aqui o escol), a esgaravatar as castanhas chochas do assunto sovado ou frívolo. Sempre conversinhas que não vão nem vêm.
     A grande preocupação de todos é matar o tempo. Matam-no, os homens, pitando cigarrões de palha, e as mulheres, gestando a prole enfermiça. E assim escorregam-se para o Nirvana os dias, os meses, os anos, como lesmas de Cronos, deixando nas memórias um rastilho dúbio que rapidamente se extingue.
     Nessa lagoa urbana rebentou com estardalhaço a notícia duma sessão do júri. O povo rejubilou. Vinte anos havia que o realejo da justiça popular empoeirava num desvio do Fórum, mudo à falta dum capadócio que lhe metesse no bojo o níquel dum modesto ferimento leve. Fizera-o agora o Chico Baiano, ave de arribação despejada ali por um navio da Costeira. Que regalo! Ia o promotor cantar a tremenda ária da Acusação; o Zezeca Esteves, solicitador, recitaria a Douda de Albano disfarçada de Defesa. Sua Excelência o Meritíssimo Juiz faria de ponto e contrarregra. Delícias da vida!
     Ao pé do fogo, em casebre humilde, o pai explicava ao filho:
     — Aquilo é que é, Manequinho! Você vai ver uma estrumela de gosto, que até parece missa cantada de Taubaté. O juiz, feito um gavião-pato, senta no meio da mesa, num estrado deste porte; à mão direita fica o doutor promotor com uma maçaroca de papéis na frente. Embaixo, na sala, uma mesa comprida com os jurados em roda. E a coisa garra num falatório até noite alta: o Chico lê que lê; o promotor fala e refala; o Zezeca rebate e tal e tal. Uma lindeza!
     O assunto era o mesmo na venda do José Inchado.
     — Lembra-se, compadre, daquele júri, deve fazer vinte anos, que “absorveu” o Pedro Intanha? Eh, júri macota! O doutor Gusmão veio de Pinda especialmente e falou que nem um vigário. Era só o “nobre orgo do ministério” praqui, o “meretrício doutor juiz” prali. Sabia dizer as coisas o ladrão! Também, comeu milho grosso!, pra mais de quinhentos bagos, dizem. Mas valia. Isso lá valia.
     Na Botica do Cação de Ouro o assunto ainda era o mesmo.
     — Não, não; você está enganado; não foi desse jeito, não! Ora! Pois se eu até servi de testemunha!… Não teime, homem de Deus!… Sabe como foi? Eu conto. O Pedro Intanha teve um bate-boca com o major Vaz, perdeu a cabeça e chamou ele de estupor bem ali defronte da Nhá Veva; e vai o major e diz: “Estupor é a avó”. Foi então o Pedro e…

terça-feira, 7 de maio de 2019

Um Cinturão, Graciliano Ramos

     As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.
     Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer.   Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.
     Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada.  Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.
     Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé do turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.
     Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.
     Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.
Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.
     O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.
     Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.
     Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.
     A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás de caixões, livre do martírio.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

O Ladrão, Moacyr Scliar

     
     Quem descobriu o ladrão na garage foi o meu irmão mais moço. Veio correndo nos contar, e a princípio não queríamos acreditar, porque embora nossa casa ficasse num bairro distante e fosse meio isolada, era uma quinta-feira à tarde e nós não podíamos admitir que um ladrão viesse nos roubar à luz do dia. em todo caso fomos lá.
     Espiamos por um frincha da porta, e de fato lá estava o ladrão, um velhinho magro - mas não estava roubando nada, estava olhando os trastes da garage ( que era mais um depósito, porque  há tempo não tínhamos mais carro). Rindo baixinho e nos entendendo por sinais nós o trancamos ali.
     À noite voltou a mãe. Chegou cansada, como sempre - desde a morte do pai trabalhava como costureira - e resmungando. Que é que vocês andaram fazendo? - perguntou, desconfiada - vocês estão rindo muito. Não é nada, mãe, respondemos, nós os quatro ( o mais velho com doze anos). Não estamos rindo de nada.
     Naquela noite não deu para fazer nada com o ladrão, porque a mãe tinha o sono leve. Mas espiávamos pela janela do quarto, víamos que a porta da garage continuava trancada - e aquilo nos animava barbaridade. Mal podíamos  esperar que amanhecesse - mas enfim amanheceu, a mãe foi trabalhar e a casa ficou só para nós. 
     Corremos para a garage. Olhamos pela frincha e ali estava e velho ladrão, sentado numa poltrona quebrada, muito desanimado. Aí seu ladrão! - gritamos. Levantou-se assustado. Abram, gente - pediu quase chorando - me deixem sair, eu prometo que nunca mais volto aqui.
    Claro que nós não íamos abrir e dissemos a ele, nós não vamos abrir. Me dêem um pouco de comida, então - ele disse - estou com muita fome, faz três dias que não como. O que é que tu nos dás em troca, perguntou o  meu irmão mais velho.
     Ficou em silêncio um tempo, depois disse: eu faço mágica para vocês. Mágica! Nos olhamos. Que mágica, perguntamos. Ele: eu transformo coisas no que vocês quiserem.
Meu irmão mais velho, que era muito desconfiando, resolveu tirar a limpo aquela história. Enfiou uma varinha pela frincha e disse: transforma essa varinha num bicho. Esperem um pouco - disse o velho numa voz sumida.
     Esperamos. Daí a pouco, espremendo-se pela frincha, apareceu um camundongo. É meu - gritou o caçula, e se apossou do ratinho. Rindo do guri, trouxemos uma fatia fatia de pão para o velho.
    Nos dias que se seguiram ele transformou muitas coisas - tampinhas de garrafa em moedas, um prego em  relógio (velho, não funcionava) - assim por diante. Mas veio o dia em que batemos à porta da garage e ele não respondeu. Espiávamos pela frincha, não víamos ninguém. Meu irmão mais velho - esperem aqui, - vocês  - abriu a porta com toda cautela. Entrou pôs-se a procurar o ladrão entre os trastes:
     - Pneu velho, não é ele... Colchão rasgado, não é ele...
     Enfim, não o achou, e esquecemos a história. Eu, particularmente, fiquei com certas dúvidas: pneu velho, não era ele?

Scliar, Moacir. Para Gostar de Ler, Vol. 13 histórias Divertidas, Ed.Ática,2002, págs 98-99

Caricatura de Hugo Enio Braz  

quarta-feira, 1 de maio de 2019

A Dama do Leque, Marina Colasanti

    Era uma dama de quimono que vivia na superfície pregueada de um leque de papel. não vivia sozinha. Pousada de trás dela, uma garça cravava a longa perna de coral na água de um lago. Enquanto no canto esquerdo, outra garça voava.
     Sem chuva ou neve que viessem alterar a paisagem, sem frutos que substituíssem as flores do pessegueiro, a dama e suas garças pareciam paradas no tempo. Mas paradas não estavam. O tempo passava no leque, embora a seu modo. Pois cada vez que o seu dono, um velho mandarim, o fechava num estalo seco, fazia-se noite entre as dobraduras. A dama então dormia. Dormiam as garças. E até os nenúfares do lago pareciam repousar suas pétalas sobre a água. Somente o vulcão, ao fundo, continuava soltando um fio de fumaça.
   Bastava, porém, que o mandarim abrisse outra vez o leque, para que todos despertassem. As pequenas ondas do lago brilhavam como se algum vento lhes chegasse das montanhas. Voava a garça sem sair do lugar. A dama de longos cabelos tocava o instrumento que tinha sobre os joelhos, tangendo as cordas com dedos pálidos.
     Que calorento era aquele mandarim! A todo momento, rraac! abria o leque, abrindo com ele os olhos da dama e das suas garças.
     E que nervoso! mal havia se abanado, já fechava o leque novamente, empunhando-o como se fosse um cetro e trancando na escuridão suas personagens.
    Abre e acorda, fecha e dorme, a vida no leque era feita de rápidas noites e brevíssimos dias. Sem que sobrasse tempo para o tédio.
     E assim teria sido por muitos anos, se o mandarim, tomado de amor por sua mais nova concubina e desejando cobri-la de agrados, não lhe tivesse dado o leque de presente.
     Bem outros modos tinha a concubina. Tudo nela era vagar. Nem a atormentava o calor. Do leque, mais que a brisa, agradava-lhe o gesto vagaroso com que o movia, acariciando o ar e o colo. Quase não o fechava. Por cima dele lançava olhares oblíquos. Atrás dele murmurava segredos aos ouvidos das outras concubinas, escondia sorrisos e muxoxos. E muitas vezes, repousando a mão sobre a mesa ou o regaço, esquecia-se de fechá-lo.
     Com ela, os dias tornaram-se longos, às vezes longuíssimos para a dama de quimono. Tocava seu instrumento, olhava as aladas companheiras, e assim se distraía. Porém, as garças, sem nada para fazer, sem poder pescar, trançar ninho ou acasalar-se, começaram a achar o céu de papel cada vez mais limitado, a amplidão além dele cada vez mais tentadora.
     E chegou um dia em que a garça do canto esquerdo, aquela que desde sempre mantinha as asas abertas, agitou-se de leve, depois com mais vigor, e adejando enfim livre, voou para fora do leque.

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