quinta-feira, 29 de março de 2018

Brincadeira de Facebook: eu só li 6 livros?




terça-feira, 20 de março de 2018

Canção de Outono, Cecília Meireles




Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão…
Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
– a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…


Poesias completas vol.2
Fonte:blog dos poetas.
Imagem: Regina Porto 

quarta-feira, 14 de março de 2018

Fábula da Cidade Mascarada, Ronaldo Wrobel



Era um lugar onde todos andavam mascarados. Ninguém podia mostrar o rosto naquela cidade, Sempre tinha sido assim e sempre seria assim. Regras são regras. Quem as violasse morreria apedrejado. Até que um dia aconteceu.

     Um homem parou no meio da rua e tirou a máscara. Escândalo na cidade: aquilo nunca havia acontecido! Faltaram pedras para atirar no homem, que fugiu da multidão enfurecida. Qual fim levou? Uns disseram que tinha morrido; outros, que tinha escapado. Com ou sem vida, o homem desmascarado sumiu e a paz voltou à cidade.

     Mas nada seria como antes. No princípio, o gesto do homem desmascarado serviu par assustar criancinhas até uma delas perguntar por que todos tinham de usar máscaras na cidade. Ninguém conseguiu responder.

     Um dia, um grupo de pessoas decidiu se reunir para discutir ouso das máscaras na cidade. Havia um único consenso no grupo: a admiração pelo homem desmascarado. Foi então que decidiram honrar seu exemplo. Desafiando dogmas milenares e abrindo um corajoso precedente, saíram às ruas com máscaras de seu ídolo.

     A cidade se dividiu entre mascarados conservadores e desmascarados revolucionários. Rivais ferrenhos, só tinham uma coisa em comum: as máscaras.

     Conservadores e revolucionários divergiam em tudo, do alfinete ao foguete. Havia polêmica para todos os gostos e gostos para todas as polêmicas. Uns acusavam os outros por todos os males do mundo. Conservadores pregavam o respeito às tradições enquanto revolucionários defendiam um futuro sem máscaras, adorando seu ídolo em longos rituais. A discórdia reinava na cidade quando aconteceu de novo.

     Teria sido numa madrugada chuvosa. Bastante idoso, o homem desmascarado foi visto numa periferia abandonada. Testemunhas o reconheceram de imediato, o mártir redivivo!

     Milhares saíram à caça do homem, vasculhando becos e metralhando penumbras. Nunca se soube quantos morreram no conflito – nem, tampouco, quantos sobreviveram.

     Dia claro, o pobre homem desmascarado foi flagrado no único lugar onde jamais seria procurado: na delegacia policial, à espera da Lei. Já não aguentava viver longe da cidade. Levou um susto ao saber que tinha discípulos. Amargou fome e frio numa caverna enquanto a cidade se reunia em praça pública para selar o seu destino. Ninguém sabia o que fazer com ele. Houve uma votação e o resultado foi aplaudido com euforia.

     Na data marcada, o homem desmascarado viu conservadores e revolucionários prontos para apedrejá-lo num pátio. Chegou a reconhecer o próprio rosto em várias máscaras, mas achou que fosse delírio. Não faria sentido ser atacado pelos próprios discípulos. Verdades à parte, teve uma única certeza antes da pedrada derradeira: nunca, na História,houvera tanta gente igual na cidade mascarada.



Em: Wrobel, Ronaldo. O Romance Inacabado de Sofia Stern, Rio de janeiro, Record, 2016, pág.76-77